Pedro Brás de Oliveira fala-nos do fruto que marca a atualidade
Sever do Vouga, Vouzela, São Pedro do Sul e Oliveira de Frades, nos últimos anos, têm tido um investimento comum: A cultura do Mirtilo. O pequeno fruto azul, que até há poucos anos era desconhecido da maioria, ganhou grande protagonismo pelas nossas terras, à semelhança, aliás, do que acontece um pouco por todo o país. O ano de 2013 ficou marcado por centenas de projetos aprovados. Em Portugal, prevê-se que, num futuro próximo, as plantações de mirtilo vão ultrapassar, os mil hectares.
Dada a importância desta cultura para o nosso país e, em especial, para a nossa região a Gazeta da Beira entrevista Pedro Brás de Oliveira, investigador auxiliar do INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária), ligado aos pequenos frutos desde 1989.O especialista traça o panorama atual do mirtilo e reflete sobre as perspectivas futuras da fileira. Numa altura em que São Pedro do Sul recebe o III Encontro de Mirtilos, Pedro Brás de Oliveira fala-nos do fruto que marca a atualidade.
• Patrícia Fernandes
Gazeta da Beira (GB): Qual é o panorama atual da cultura de mirtilo em Portugal e em especial, na região?
Pedro Brás de Oliveira (PBO): Verificamos um crescimento exponencial, atualmente, registamos uma verdadeira euforia na cultura do mirtilo, a recetividade dos produtores ao fruto é muita. Para ter uma noção, a área de mirtilos em Portugal, de 2012 para 2013, passa de cerca de 40 hectares, para mais de 200 hectares e, em 2014, a área vai subir muito rapidamente, há muitos projetos a serem aprovados, muitos agricultores a instalar-se.
Falando especificamente desta região, Sever do Vouga, Vouzela, São Pedro do Sul…esta região, será, evidentemente, uma das regiões de eleição para a cultura do mirtilo, na qual, estão muitas áreas a surgir.
GB: Este crescimento exponencial deve-se a que fatores? Ao PRODER? A crise, de certo modo, também motivou o regresso à Terra, nomeadamente, por parte de jovens agricultores?
PBO: Os fatores estão todos associados, mas, indiscutivelmente, que o projeto de jovem agricultor, para cultivar o mirtilo em pequenas áreas, permitiu aprovar muitos projetos, nos quais, os agricultores, com um subsídio de instalação, não tinham que investir dinheiro próprio. Portanto, esta conjugação com a falta de trabalho e com a terra disponível permitiu, de facto, este crescimento exponencial.
GB: Este crescimento exponencial que se verifica justifica algumas medidas protecionistas? Ou o mercado dos pequenos frutos, nomeadamente o do mirtilo, ainda tem muito para crescer?
PBO: Estamos a concorrer no Mercado Externo, portanto, quem se quer dedicar à cultura do mirtilo deve pensar no mirtilo em fresco e para o Mercado Externo. É um mercado que não está dependente de nós, é mais importante a concorrência de outras regiões da Europa, do que propriamente a interna, é com a concorrência da Espanha, de Marrocos, da Ucrânia, da Roménia… que temos que nos preocupar. Nós temos é que ter uma estratégia apropriada. Isso é que muito importante, nós temos uma janela de mercado, que é o mês de junho, é quando nós temos a oportunidade de colocar o mirtilo no mercado e temos que lutar por esse mercado.
O mercado nacional é a venda local, mais do que os supermercados. A Feira do Mirtilo, em Sever do Vouga, por exemplo, é um sucesso. Parece um contra-senso, mas vende-se melhor em feira do que se vende para o mercado de exportação. O mercado nacional é um bom mercado, desde que se consiga oferecer um produto de qualidade, com um preço minimamente aceitável para o consumidor português, que não tem grande poder de compra, mas se conseguimos, é esta a solução.
GB: Qual a importância dos produtores se organizarem em associações?
PBO: As associações são fundamentais, todos os projetos são áreas pequenas, estamos a falar de minifúndios, os quais, têm grandes virtudes, mas têm, também, grandes problemas, principalmente, quando, na exportação, precisamos de certificações e é complicado certificar tanta gente pequenina. A Mirtilusa, por exemplo, tem conseguido lutar sempre, é para esta associação, uma luta conseguir vender os seus produtos no mercado externo. A Lafoberry, também, é um excelente exemplo. Agora, estes exemplos têm que ser repetidos, indiscutivelmente.
As associações são fundamentais, não há outro caminho. Eu ao princípio, assim que vi os primeiros dados da execução da PRODER, fui muito cético em relação ao que estava a acontecer, mas, depois das Direções Regionais do Centro e do Norte terem apresentado os dados, com a dispersão territorial, fiquei muito mais contente. Verificou-se que, embora a constituição dos novos projetos seja um pouco aleatória, estão concentradas em algumas zonas e isso é uma grande vantagem, uma vez que permite essas associações. De facto, aqui, em Sever do Vouga, Vouzela, São Pedro do Sul… há uma grande concentração, depois há uma outra em Idanha-a-Nova a Nova, na Zona de Castelo Branco e outra, também, em Braga-Guimarães.
GB: Outro problema para os produtores é o facto de os intermediários levarem uma grande percentagem no lucro do mirtilo…
PBO: Levam sempre, o intermediário tem toda uma logística que tem que ser paga. Sendo o mirtilo um fruto perecível tem sempre uma dificuldade de venda, não aguenta muito tempo em prateleira, e, portanto, há muita perda de produto. É evidente que podemos considerar as margens exageradas, mas são as margens que são, temos que ter consciência que é sim. Por isso, é que o produtor de mirtilo ganha mais numa feira do que na exportação, na exportação há uma série de elementos da cadeia e têm todos que ganhar, enquanto, numa feira vende-se mirtilo diretamente. Ao vender ao consumidor final o produtor retira todos os outros elos da cadeia. Agora, para isso, é preciso haver consumo interno. Se o mirtilo tiver um preço acessível, acredito que o consumo nacional vai aumentar.
GB: A aposta no Mercado Nacional passa necessariamente pela redução dos preços, isso será benéfico para os agricultores?
PBO: Em termos de Mercado Nacional eu não tenho dúvidas nenhumas que o preço do mirtilo vai baixar, agora, isto, não é necessariamente negativo. Se conseguirmos quebrar uma série de elos da cadeia, penso que temos muito por onde descer no preço do mirtilo. A nível de supermercados, por exemplo, como sabe, o preço do mirtilo nunca vai abaixo dos 15 euros. Portanto, se o preço descer a nível do supermercado, não quer dizer que tenha que descer muito a nível do produtor, desde que se consiga fazer um trabalho bem feito. E é nisso que se tem que trabalhar, é um trabalho árduo que passa pela organização e pela oferta de qualidade.
GB: Qual é o perfil do produtor de mirtilo? É um agricultor com muita formação?
PBO: Tem vindo muita gente com formação superior, mas não na área agronómica e também há muito agricultor que não sabe o que está a fazer. É natural que não haja conhecimentos, daí a importância destes encontros, para trocar ideias, para que as pessoas ouçam e conversem umas com as outras. Temos que ter a noção que há muita gente que está a fazer bem na fileira e há outros que se estão aproveitar desta onda de aprovações. É importante que quem está a fazer bem se associe e tente singrar, porque, de facto, é um caminho duro, são áreas muito pequenas, com cerca de um hectare, que não têm muita rentabilidade. Além disso, o mirtilo tem um período de carência de dois anos e começa-se a vende devagarinho…não é fácil.
GB: Acredita, portanto, que há muitas pessoas iludidas, quando decidem enveredar pela produção de mirtilos?
PBO: Sinto-me tentado a dizer que sim, houve muitos agricultores que candidataram o projeto e não sabiam o que era o mirtilo, fizeram o que lhe mandaram fazer e não pensaram, verdadeiramente no que iam fazer. Não podemos impedir ninguém de apostar nesta área, agora, o nosso trabalho é fazer com que os agricultores falhem o menos possível.
Qual é o papel e a importância dos organismos públicos na fileira dos mirtilos?
O Ministério de Agricultura tem o papel de dar formação e acompanhamento. Numa primeira fase, considero que, havendo conhecimento a nível do ministério, e há, esse conhecimento te que ser disponibilizado de imediato. O exemplo que estamos a fazer aqui, o exemplo deste Encontro de Mirtilos… penso que é do melhor que se pode fazer: a Direção Regional, o INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária)… todos estiveram 100 % empenhados nesta iniciativa. Agora, temos o Cluster dos Pequenos Frutos da Agim, a Lafoberry, as Câmaras Municipais… não há outra maneira… é preciso que todos contribuam, é preciso juntar toda gente e empurrarmos a fileira para à frente.
GB: A nível de investigação que portas é que se podem abrir para o futuro, relativamente às potencialidades do mirtilo?
Eu costumo dizer que há informação sobre quase tudo no mirtilo, as propriedades medicinais, as propriedades medicinais, antioxidantes, os fitoquímicos…tudo isto está muito bem estudado. É evidente que a ciência nunca para, há sempre muito a fazer, mas o mirtilo é dos frutos mais estudados, nós, em Portugal é que não o conhecemos.
GB: A poda tem sido um dos assuntos mais abordados nos encontros dos mirtilos. Qual a importância da poda nesta cultura, o facto de haver várias correntes pode criar alguma dificuldade para os produtores?
PBO: A poda é um tema controverso, é importante ouvir as diferentes versões, existem várias técnicas de poda e o objetivo é o mesmo: termos uma produção otimizada e termos uma planta equilibrada. As formas de fazer são diversas, podemos ter várias opções para chegar ao mesmo sítio. A poda do mirtilo não é difícil, costumo dizer que se o agricultor é agricultor, se conversa com as suas plantas, ele sabe, exatamente, o que há-de podar. É importante, antes de começar a podar, estabelecer critérios: quanto é que vou retirar de flores, avaliar como é que está a plantação, se planta está forte, se está fraca e só depois podar.
Pedro Braz de Oliveira – Dados Biográficos
Doutoramento e Mestrado em Tecnologias de Produção de Framboesas
Doutor em Engenharia Agronómica
Investigador Auxiliar do INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária)
Começou a trabalhar nos Pequenos Frutos em1989
Tem elaborado inúmeros projetos na área das framboesas, amoras e mirtilos.
Coordenador Português do Projeto Europeu: EuBerry
Cher do Grupo de Trabalho Rubus e Ribes ISHS (Internacional Society for Horticultural Science)
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Na edição anterior (edição 647)
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Redação Gazeta da Beira
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