Reportagem (ed.660)

Serra da Freita, tão perto e tão longe

Um mundo de contrastes

Serra da Freita, tão perto e tão longe

• Patrícia Fernandes

Ed660_cabacos01Destino: Explorar a Serra da Freita. Era esta a aventura destinada para um dos dias do mês de agosto, num dos pouco dias em que o Verão perdeu a vergonha e foi sorrindo. Não sabíamos bem o que procurávamos, íamos ao encontro simultâneo do tudo e do nada. Queríamos observar o mundo, como se por instantes conseguíssemos ter o poder de parar o tempo. E lá fomos à descoberta de novas sensações, ao resgate de novas memórias… Calma, ar puro, céu e serra, verde, roxo e dourado. Um conjunto de paisagens iam-se sucedendo, íamos registando, nas máquinas (símbolo da tecnologia a que não nos conseguimos desapegar) e nas almas cada recanto de uma serra tão perto e tão longe de todos nós. Um agradável passeio pelas riquezas naturais da nossa região. Paramos. Entre a fronteira dos concelhos de S. Pedro do Sul e Arouca encontramos uma pequena aldeia com menos de uma dezena de habitantes, “Cabaços” de seu nome e é aqui que começa a história …

Ed660_cabacos-rebanho-DSCN2Nós fomos a “Cabaços” pela primeira vez, mas era como se estivéssemos em casa, dada a hospitalidade com que fomos recebidos e a forma aberta como nos deixaram entrar. Atualmente a aldeia conta com apenas nove habitantes, todos eles com relações familiares entre si, todos eles com mais de sessentas e muitos anos. Em tempos, “Cabaços” foi uma aldeia com vida e movimento. Hoje, são sobretudo o silêncio e as memórias. Com um brilho nos olhos, Laurinda Tavares recorda os bailaricos que se prolongavam pela noite fora. Memórias longínquas a que se sobrepõem outras, mais recentes. Um a um todos foram abandonando a pequena povoação. Todos com o mesmo motivo: a necessidade. Uns não mais voltaram, outros vieram em passeio, com hora e data marcada para regressar. “Cabaços” já não tem filhos, apenas pais que já assumiram o papel de avós. A médio prazo vai desaparecer. O local vai se transformar num deserto, mas a perda é bem maior. Perde-se tradição, perde-se cultura, perde-se a autenticidade de um local. Um exemplo entre muitos outros, num país e num mundo obstinado pela corrida da globalização, sem espaço para a diferença.

 

Ed660_AntonioAqui, vive-se do que a Terra dá e os horários são ditados pelo sol. António Tavares tem atualmente 150 cabras, já foram mais, já ultrapassaram largamente as duas centenas. O inverno está a chegar, tudo indica que a tendência seja diminuir ainda mais este número. Como regra, todos os dias, o pastor leva os animais ao monte à procura dos melhores pastos. Todos os dias é esta a rotina, já lá vão sessenta anos. Hoje, já com 80, António continua com a vitalidade de outros tempos. Para além das cabras, há também vacas, muitas. Ninguém conseguiu apontar o número, mas “são muito mais de vinte”, garantem. Abriram as portas das suas casas, nós entramos. Casas antigas, com largas dezenas de anos. Quase todas construídas em pedra, pequenas, com pouca luz e muito perto dos corrais dos animais. Há para comer, o padeiro vai passando por aqui, mas a tradição é amassar o próprio pão. As dificuldades fizeram-lhes criar a autonomia.

Ed660_Laurinda

Amanhã, Laurinda vai ao médico, queixa-se dos ossos, cujo trabalho duro de anos não perdoou. A jornada vai ser longa… O táxi é caro e a única alternativa é ir a pé, vai até às Cascata da Frecha da Mizerela, a partir daí, conta encontrar uma boleia até Arouca, se chegar a tempo, claro está. Quase 20 quilómetros para aceder à saúde, vinte quilómetros para pessoas que não têm transportes próprios, nem uma rede viável de transportes públicos. Tempos antes, de quanto em vez, lá passava um autocarro, apenas um por semana. Agora nem isso. O mundo ficou mais longe, há muitas viagens que ficam na gaveta, sair de “Cabaços” é uma verdadeira aventura.

Escolas? Sim, há, também em Arouca, as restantes, as que estavam mais perto, já fecharam, não há crianças no presente, nem medidas para que as hajam no futuro.

Queríamos parar o tempo e encontramos o tempo parado. Era como no tempo relatado pelos meus avós. Um tempo que não sabia continuar a existir. Parece-nos o Estado Novo, muito longe de aspirar a revolução.

A noite chegou, todos os animais já estão arrumadas é, por estes lados altura de descanso. Que dia bem passado! É bom beber desta sabedoria. Ao mesmo tempo, cria-se uma angústia: temos que preservar estes conhecimentos ancestrais, mas como? Voltamos a casa e tudo nos parece tão estranho. Que mundo tão irónico o que vivemos, realidades distintas contrastam “mesmo em cima do nosso nariz” e nós, muitas vezes, nem damos por isso. “Cabaços” não é caso único, há muitos por aí, por todo o país. É a morte silenciosa do Interior, um reflexo de um país a dois tempos em que as diferenças são cada vez mais abismais. Diferentes tempos vivem num só… tão perto e tão longe…

——————————————————————————————————————————–

Trabalhos em Linho levam Vouzela além-fronteiras

Ventosa Artesanal, da semente à arte

• Patrícia Fernandes

Ed659_Artesanato_Ventosa01Na viagem, “à Descoberta do que é Nosso”, cruzamo-nos com pessoas, projetos, artes. Histórias de vida que merecem ser contadas. Desta vez, a Gazeta Beira esteve na freguesia de Ventosa e descobriu todos os segredos por detrás do linho. Uma mera semente, que depois de um processo minucioso se transforma em arte. Uma metamorfose perfeita. A “Ventosa Artesanal” trabalha o linho e transforma-o, em peças únicas de arte artesanal. Uma teimosia de quem não quer deixar morrer as tradições da aldeia que está a levar o nome de Vouzela além-fronteiras. A Gazeta da Beira esteve à conversa com Luísa Teixeira e Lurdes Neves, as mulheres deste projeto que nos falam do linho enquanto arte e nos desafios que a “Ventosa Artesanal” quer abraçar.

Pelo concelho de Vouzela, a “Ventosa Artesanal” foi paragem obrigatória. A Gazeta da Beira descobriu, vários e distintos trabalhos em linho. Desde toalhas, cortinas, naperões, encontra-se de tudo um pouco. Trabalhos variados que têm um denominador comum: o linho artesanal, uma arte que, como explica Luísa é Teixeira, é muito apreciada, apesar de nem sempre haver muitas compras. “As pessoas apreciam mais do que compram, são materiais relativamente caros, já que, nós aqui trabalhamos com linho artesanal, a crise tem afetado muito o negócio, antes, vendia-se muito mais. As pessoas continuam a gostar, é certo, mas, agora já não compram tanto”. O negócio, continua de pé e “devagarinho”, lá vai continuando. As duas mulheres estão empenhadas em continuar a preservar “uma marca do nosso concelho”. Como defende Luísa Teixeira, “se as pessoas deixam de trabalhar o linho, no fundo, deixa de existir um bocadinho da história de Vouzela”.

Como tudo começou

Em tempos, neste mesmo espaço, a “Ventosa Artesanal” estava nas mãos de uma cooperativa que dinamizava o projeto. A cooperativa acabou por se dissolver e as portas fecharam, mas por pouco tempo. Luísa Teixeira e Lurdes Neves decidiram abraçar o projeto, mantendo para isso o mesmo “nome que já tinha nome”: “Ventosa Artesanal”. Para Luísa o interesse surgiu quando ainda era estudante e decidiu dedicar a sua tese de mestrado na área do Turismo e Ornamento do Território. Como explica, “eu tinha que decidir um tema e foi o orientador, na altura, que conhece bem Vouzela, é que me falou que a única coisa por que era conhecida era os pastéis. Quando os turistas visitavam a vila, o concelho não tinham mais nada para adquirir. Assim decidi avançar, com o objetivo de criar outras coisas para oferecer aos turistas, para além dos pastéis; com o objetivo de preservar o património e o artesanato, neste caso o linho, visto ser muito rico neste concelho, em especial na freguesia de Ventosa”.

Já Lurdes Neves veio parar à “Ventosa Artesanal”, depois de se interessar pelo “ciência” do linho e ter descoberto os seus segredos. Como conta, “eu aprendi a trabalhar o linho, depois de frequentar dois cursos, em 1999, tirei um na junta de freguesia e em 2000, outro na ADRL. Depois em 2002 comecei a trabalhar aqui”.

Percursos distintos, histórias que se cruzam na “Ventosa Artesanal” em prol de um objetivo comum, manter os costumes vivos e a autenticidade.

O longo percurso do linho

Da semente à arte, a história é longa. O linho passa por uma longa jornada, várias fases de trabalham que se prolongam por ano fora. Como explica Lurdes Neves, “primeiro semeia-se, é mondado, muito regado e fica na terra cerca de três meses, até que pode ser arrancado. Depois, é arribado, é posto no rio, é secado, maçado, estrigado, fiado, cozido, são feitas meadas, é ensarilhado, lavado, sendo que se se quiser que fique branco é posto a corar, se se quiser que fique da cor natural é deixado a secar. Finalmente, é dobado e depois vai para o tear”. Uma lista longa de tarefas que se traduz em vários meses a cuidar do linho, em que as horas de trabalho se multiplicam.

O Futuro

Ed659_Artesanato_Ventosa02Luísa Teixeira e Lurdes Neves querem agarrar o futuro ainda com mais força. Há muitos projetos a serem “alinhavados”. No início deste ano, a “Ventosa Artesanal” recebeu a visita da Diretora Comercial da Embaixada de Moçambique em Portugal e o balanço é positivo. Novos caminhos podem vir a ser trilhados. Como escreveram na página do facebook na altura “Hoje fui um dia muito importante para nós. Recebemos a visita da Sr.ª Diretora Comercial da Embaixada de Moçambique em Portugal, para darmos início a um projeto no âmbito da Cooperação e Internacionalização. Daqui a algum tempo, a Ventosa Artesanal terá uma filial em Moçambique, na área da tecelagem do algodão. Um desafio ambicioso que procurará estimular e desenvolver a comunidade local onde se vai instalar”. Sobre este assunto Luísa Teixeira e Lurdes Neves, nada mais quiseram adiantar, “já que o segredo é a alma do negócio”.

Fica a promessa de novidades para breve. Para já, como explica Luísa Teixeira, a “Ventosa Artesanal” quer dar “outra dinâmica ao projeto, renovar a página do facebook e aumentar a divulgação do nosso trabalho, visto que há, ainda muito para revelar”.

——————————————————————————————————–

ADRL há 20 anos ao serviço da região de Lafões

“Mundificar”, um novo projeto, um novo capítulo na história

• Patrícia Fernandes

Ed658__ADRLContinuamos a demanda “à Descoberta do que é Nosso”. Também as associações fazem parte do património lafonense e muito contribuem para a sua continuidade, portanto, desta vez, a história que contamos é a da ADRL, uma Associação para o Desenvolvimento Rural de Lafões, sem fins lucrativos, que conta com mais de 20 anos de história, muitos projetos e muitos contributos em prol da região. Numa altura em que a ADRL abraça um novo projeto “Mundificar”, a Gazeta da Beira dá a conhecê-lo, em primeira mão, e recorda a já longa história da associação.

“Mundificar: Para a Integração de imigrante da Região de Viseu” é o novo projeto da ADRL que deve arrancar já no mês de agosto, tem um período de intervenção de 18 meses, e que visa, como explica a técnica do projeto, Cristina Bandeira “a integração, acolhimento e valorização da diversidade de nacionais de países terceiros” e também uma abertura por parte dos nacionais “a todas as novidades que os imigrantes nos trazem”. O projeto foi apresentado em janeiro deste ano, a certeza da aprovação chegou no início do mês de julho. Das mais de 70 candidaturas aprovadas pelo alto-comissário para a Imigração e para o Diálogo Intercultural, o projeto apresentado pela ADRL ficou em 17º lugar. Um lugar “honroso” que dá à equipa muita vontade de pôr “mãos à obra”. Esta candidatura foi aprovada no âmbito do Programa-Quadro solidariedade e Gestão dos Fluxos Migratórios e é financiado pelo Fundo Europeu para a Integração de Nacionais de Países Terceiros.

Objetivos e ações

A necessidade de criar este projeto surgiu depois da ADRL perceber que “na nossa vida quotidiana os imigrantes vão-se confrontando com dificuldades muito grandes”. Todos os dias enfrentam muitas barreiras, “desde a língua, à falta de sensibilidade dos serviços públicos para respeitar os direitos dos imigrantes… Há ainda preconceitos e pouca tolerância à diferença”. Explica Cristina Bandeira.

A área de intervenção deste projeto é a Região de Lafões: Oliveira de Frades, Vouzela S. Pedro do Sul; Viseu e Mangualde e vai ter dois espaços físicos de trabalho a sede da ADRL, em Vouzela, e a sede da junta de freguesia de Viseu que é parceira do projeto. Os objetivos passam por “facilitar o acesso da população imigrante à informação; aumentar o grau de literacia da população imigrante; promover a interculturalidade e atitudes de tolerância tanto na comunidade acolhedora, como na comunidade ou indivíduos imigrantes; promover o conhecimento e autoconhecimento das comunidades e indivíduos envolvidos e promover a partilha das tradições costumes e práticas culturais diversas entre comunidades e indivíduos envolvidos”, explica Cristina Bandeira. Para isso, estão já pensados algumas ações, como adianta a técnica do projeto, “Queremos organizar uma mostra de cinema para a interculturalidade: Ver o Mundo; um encontro ecuménico: Orar o Mundo; uma mostra de livros, temas, autores dos países das pessoas evolvidas: Ler e discutir o mundo; está ainda pensada uma troca de experiências gastronómica partilhada: Comer o Mundo”. Mas há mais, o “Mundificar” quer também atribuir “um prémio de mérito para estudante imigrantes em Viseu, dar formação para a iliteracia tecnológica e digital, intervir junto do Ensino, Saúde e Comunicação Social para uma maior abertura e informação sobre quem são as pessoas que nós acolhemos e os seus costumes”. Especificamente na área da saúde, o projeto quer intervir como um elemento “facilitador no acesso à saúde maternoinfantil e planeamento familiar”.

Tudo indica que o projeto vai arrancar já no mês de agosto, os trabalhos já começaram, estão a ser sinalizados os grupos alvos de intervenção, paralelamente, estão a ser procuradas novas sinergias. Como explica Cristina Bandeira, este projeto “requer trabalho voluntário e apoio de outras entidades”.

Duas décadas, muitos projetos, muitos sonhos

A ADRL nasceu em 1993, pelas mãos de um grupo de lafonenses. Como recorda Carmo Bica, uma das fundadoras, “eramos muitos jovens, tínhamos todos uma formação que, de certo modo, se ligava à agricultura e à pecuária, queríamos puxar pelo setor,  preocupava-nos o desenvolvimento rural”. Um dos primeiros trabalhos de relevo foi a elaboração do Caderno de Especificações da Vitela de Lafões, que, através de candidatura da ADRL, passou a ter Indicação Geográfica Protegida”.

Mais de 20 anos depois, o balanço é muito positivo. Como defende José Manuel Santos, coordenador,  a associação tem tido um papel central para que a agricultura continue de pé. “Acredito que se não fosse o trabalho da ADRL, muitos já tinham desistido da agricultura, muitas explorações estariam abandonadas”. A associação, com mais de 200 associados, tem prestado apoio ao agricultores da região gratuitamente. Uma ponte que liga os agricultores à tutela e aos fundos europeus que lhes tem permitido abraçar novas oportunidades e aprovar candidaturas a projetos que contam, também, com o devido acompanhamento. Outro dos grandes trabalhos da ADRL, como adianta o  coordenador, tem sido a formação profissional. O Curso de aplicação de produtos fitofarmacêuticos; o curso de poda e enxertia de fruticultura e mirtilos são só exemplos. Uma relação de proximidade “que permite que os agricultores tenham uma atualização permanente, para poderem rentabilizar as suas culturas”.

“A ADRL não é só uma associação para agricultura, é para a floresta e para o desenvolvimento local”. Como explica José Manuel, a Associação, ao longo da sua história, foi agregando uma série de modelos de intervenção: “a associação intervem também na secção florestal, através das suas duas equipas de Sapadores florestais; nas questões da cidadania, e da igualdade de géneros, através, também de um conjunto de parcerias com outras instituições”.

Da história da ADRL, destaque, ainda, para a Feira de Lafões que, com início em 1995 e durante nove anos, afigurou-se como um evento intermunicipal que uniu os três municípios da Região de Lafões. Uma feira que o tempo apagou, mas que Carmo Bica gostaria de ver reabilitada.  Como defende, “É necessário criar em Lafões um evento que agregue os três concelhos. “Lafões só tem a ganhar se conseguir criar um evento capaz de  projetar o seu nome no país e no mundo. A Feira de Lafões seria uma boa aposta, é necessário um novo modelo, um novo conceito…. mas é, nos dias de hoje, uma evento não só possível, mas, sem dúvida, desejável!”

—————————————————————————————————————————

A Gazeta da Beira foi à Capital do Mirtilo conhecer um dos melhores licores de Portugal

O licor de mirtilo que já conquistou o paladar do país

A Gazeta da Beira continua pelas terras da região, “à descoberta do que é nosso”. Desta vez, fomos até Souto do Chão, freguesia de Rocas, concelho de Sever do Vouga e estivemos à conversa com Ana Rosa que nos contou os segredos do seu Licor de Mirtilo. Uma qualidade que ia sendo gabada por todos aqueles que iam provando e que, recentemente, como noticiamos em primeira mão, foi confirmada pela medalha de prata, arrecadada no Concurso Nacional de Licores Conventuais e Tradicionais Portugueses. Conheça mas um produto “nosso”, feito de forma artesanal, produzido na Capital do Mirtilo e que quer dar a volta ao mundo.

ed655-p20_IMG_9926

Uma cor convidativa e um sabor doce e intenso são estas as principais características do Licor de Mirtilo. Quem prova aprova. O produto tradicional tem corrido diferentes feiras e diferentes lugares e conquistado cada vez mais admiradores. Como relata Ana Rosa, “Costumamos fazer feiras em toda a Região Centro, Tondela, Aveiro, Oliveira de Barro…e as pessoas gostam muito do nosso produto”.

O Licor de Ana Rosa, contudo, não é só conhecido na região, a medalha de prata, um novo adereço que está agora colocado em cada uma das garrafas, conquistado num concurso nacional,deu visibilidade nacional ao produto e marca uma nova etapa neste projeto. “Uma recompensa pelo trabalho” que pode trazer muitas vantagens para “o licor, mas também, para todo o concelho”, acredita a produtora.

Como tudo começou

Foi há mais de 20 anos, concretamente, no ano de 1992 que tudo começou. Ana Rosa e o marido foram dos pioneiros, não só no concelho, mas em todo país, no que à plantação de mirtilos diz respeito. A plantação na Quinta da Castanheira não chega a um hectare mas, como explica a produtora, “o clima aprazível em conjugação com os cuidados que temos, tem contribuído para termos uma boa produtividade”.

Em simultâneo, Ana Rosa começou a produzir o licor, mas só para consumo próprio, só há cerca de dois anos, quando passava por uma situação de desemprego é que decidiu criar um negócio. A receita foi-lhe dada por uma amiga, mas, hoje o sabor do produto é já muito diferente. Como conta a produtora, “a receita que faço hoje nada tem que ver com a original. A partir dessa receita fui experimentando, explorando e evoluindo”. Uma receita apurada com a experiência e a dedicação que resultou numa verdadeira “poção mágica”. Como acrescenta Rosa Maria, “fui inventando, algo que já estava inventado, mas que eu reinventei à minha maneira”.

A Feira do Mirtilo, em Sever do Vouga, foi também um impulso para o mirtilo e para todas as formas que assume. Como explica Ana Rosa, “foi uma maneira de darmos mais visibilidade aos nossos produtos e das pessoas conhecerem melhor o fruto e as suas potencialidades”. Para além do licor, Ana Rosa produz, também, o doce de mirtilo, o mesmo sabor do “fruto azul” cujo paladar as pessoas tanto estimam.

Hoje, Ana Rosa faz uma perspetiva do passado e não podia “estar mais feliz com a sua escolha”. Como defende, “o mirtilo é um fruto muito trabalhoso, durante todo o ano, uma vez que é preciso regar, aplicar as regras do controlo do fruto, principalmente na altura da apanha. Mas quem trabalha por gosto”…

Os segredos do sucesso

O processo é lento e exige minúcia. Como explica Ana Rosa, o licor é feito através de “um processo de maceração”, cujos ingredientes são mirtilo, claro está, açúcar e aguardente. Um produto “sem corantes nem conservantes”, que privilegia o “fabrico artesanal”, uma tradição que está de novo a virar moda. Como explica Ana Rosa, “as pessoas, cada vez mais, procuram a qualidade, procuram aquilo que acreditam ser mais saudável”.

______________________________________________________________________________________

Doces artesanais baseados em receitas lafonenses

Há cerca de 5 anos, Ana Teresa Figueiredo decidiu apostar na doçaria típica de Lafões. Uma mudança de rumo motivada pela crise, mas também pelo gosto ao ofício. Receitas antigas, oriundas de Lafões levam o paladar tradicional e as as vivências da terra a conterrâneos e turistas. A Gazeta da Beira, que nesta edição inicia a jornada à “Descoberta do que é nosso”, esteve à conversa com Ana Teresa e relata, agora, as histórias de um projeto em que o sabor combina com a tradição lafonense.

Folares de Lafões, Castanhas de Coco, Cassolinhos do Vouga, Pão de ló de Sul, Raivinhas de Vouzela, Esquecidos de Lafões… são muitas as receitas elaboradas por Ana Teresa Figueiredo. Sabores distintos que têm em comum as raízes à terra, a antiguidade e a tradição. Como explica a produtora, “algumas receitas são minhas, a maioria adquiri de pessoas muito antigas, algumas das receitas têm, seguramente, mais de 100 anos”.

As receitas são antigas, o modo de confeção: o artesanal, o melhor para garantir a autenticidade do produto. Como garante Ana Teresa, “fazemos tudo pelo método tradicional, sempre no fogão de lenha, nos alguidares de barro e os doces são sempre amassados à mão.” Produtos à moda antiga que se  distinguem “pelo paladar, pela textura e pela imagem”.

Esta forma de confecionar, faz a diferença, mas, como acrescenta Ana Teresa, há ainda um outro ingrediente a ter em conta para o sucesso dos doces: a dedicação. Como explica, “o carinho e amor com que fazemos o trabalho faz a diferença. O produto se não for feito com dedicação, o resultado final, não é o mesmo, se eu fizer um doce insatisfeita vai se notar na massa”.

Doçaria artesanal, um produto diferente

O negócio é de família. Ana Teresa começou há cerca de 5 anos, com a ajuda do marido, uma nova profissão que agarrou com o empenho comum de quem gosta do que faz. Como conta: “começamos a fabricar estes produtos há cerca de cinco anos. A crise que atravessamos (o meu marido ficou desempregado cerca de 3 anos), aliada ao gosto que temos por esta área fez com que nós decidíssemos apostar  neste tipo de artesanato”.

Até então, Ana Teresa tem tido uma boa recetividade dos seus produtos, mas ainda “queria mais adesão”. Como faz referência, há ainda muitas pessoas que não reconhecem as vantagem da produção artesanal.  A proprietária fala de “produtos com muita qualidade, sem corantes, muito mais saudáveis do que os doces das pastelarias”.

Atualmente, Ana Teresa vende os produtos, todos os sábados, no Mercado Tradicional de São Pedro do Sul e no mercado de rua em Viseu. Através de intermediários, os seus produtos vão chegando a alguns pontos do país.

Ana Teresa diz que os clientes “adoram” os seus produtos, mas a produtora quer mais. “Sempre que faço uma determinada receitas quero que ela fique melhor do que a da última vez, o mesmo produto tem que evoluir em qualidade”, defende a produtora. Um caminho de evolução e de exploração de novos conceitos que trilha com a “obrigação” de quem quer fazer mais pela terra. Como salienta, “a minha obrigação é divulgar aquilo que melhor temos na nossa Terra, e continuar a divulgar os produtos que têm que ver com as nossas tradições e vivências”.

————————————————————————————————————————————–

O sucesso não tem género

A Gazeta da Beira assinala o dia da Mulher, que se comemora no próximo dia 8 de março, contando a história de mulheres que fazem a diferença na nossa região. Casos de sucesso, exemplos entre muitos outros que testemunhamos diariamente. Histórias diferentes, percursos distintos que se cruzam no que à dedicação, profissionalismo e entrega dizem respeito.

Casos que provam que o sucesso não tem género.

 Um autocarro com condução feminina

Ed649_AnabelaNogueira-CamioDizem que “mulheres ao volante, perigo constante”, mas, Anabela Nogueira prova o contrário. Há 8 anos que conduzir é o seu modo de vida, de segunda a sexta, de Ribeiradio a Oliveira de Frades e vice-versa, são muitas as pessoa que entram no autocarro dirigido por esta mulher e chegam ao seu destino. Anabela é condutora profissional, gosta do que faz e, em todos estes anos de profissão, nunca teve nenhum incidente. Uma excepção, num mundo quase restrito ao sexo masculino.

A rotina é todos os dias a mesma, para Anabela o dia começa bem cedo, é ainda antes das 8 horas da manhã que põe o autocarro a trabalhar e “põe mãos à obra” para mais um dia de trabalho. Nos primeiros metros há sempre um ritual que Anabela não dispensa: uma conversa com o seu santo protetor, São Cristóvão, o padroeiro dos condutores. “Dai-me, Senhor, firmeza e vigilância para que eu chegue ao destino sem acidentes; protegei a todos os que viajam comigo, ajudai-me a respeitar o trânsito e as suas leis e a conduzir com prudência”, são estas as palavras que, repete com emoção ao santo, todos os dias e que nunca a deixaram ficar mal.

Condutora de autocarros há quase 8 anos, Anabela recorda como tudo começou. O marido, José Augusto, era condutor de autocarros e, já há muito que Anabela admirava a profissão, tinha vontade de a seguir, mas faltava-lhe a coragem. Um dia, quando estava em situação de desemprego, decidiu arriscar depois de ter prova de que as mulher es também podem ter esta profissão. Como recorda Anabela, “Um dia vi uma senhora a conduzir, em Viseu, um autocarro e fiquei encantada. Pensei que se calhar era possível”.

Assim o fez, Anabela tirou a carta de pesados de passageiros e logo se apercebeu que até “se ajeitava muito bem”, sendo que foi aprovada à primeira. Com documento na mão, logo surgiu uma oportunidade. Como conta, “Na empresa do meu marido há já algum tempo que havia falta de motoristas, até que surgiu uma vaga”. Anabela tornou-se assim a primeira motorista mulher da sua empresa, hoje já são duas. Apesar de ser uma mulher entre homens “sempre foi muito bem tratada”.

Quanto aos passageiros, como conta Anabela, há muitos que ficam admirados de ver uma mulher ao volante, mas só num primeiro impacto. Muitas pessoas, como garante, “elogiam e admiram” a sua escolha e o seu trabalho.

 O mundo das artes, pelo cunho de Brígida Alves

Ed649_Brigida-DSC08384Brígida Alves é programadora cultural do Centro de Artes e Espetáculos de Sever do Vouga (CAESV) há 12 anos. Entrou para este projeto, poucos meses depois da sua inauguração, quando este dava, ainda, os seus primeiros passos. Um projeto que abraçou com todo o entusiasmo já que, como conta Brígida Alves, para além de ser uma patriota assumida, cujo “amor à terra sempre a fez querer trabalhar ao nível do desenvolvimento da região”, a área das artes sempre lhe foi muito próxima. “Uma grande paixão” por uma área com que desde cedo se familiarizou. Como explica Brígida, “é uma área na qual  tenho proximidade, uma vez que, aprendi música, cantei, dirigi alguns grupos corais e um rancho folclórico…”

Com a liderança de Brigída Alves o projeto cresceu, ganhou personalidade e hoje o trabalho do CAESV é reconhecido pela autarquia, pela crítica e pela população. Uma batalha ganha que visava, sobretudo aproximar os munícipes das artes, ao mesmo tempo que as democratizava. Como acredita Brígida Alves, “Com o tempo, abrimos um leque e um conhecimento cultural diversificado para todos os gostos e pessoas, capaz de aproximar diferentes públicos. Hoje temos já um público regular e é esse o nosso grande objetivo: que as pessoas sintam que este equipamento é de todos.”.

Uma batalha ganha, uma guerra que sempre continua, uma vez que, como garante Brígida Alves, o objetivo é sempre melhorar, ir mais longe, alcançar novas conquistas. Como defende “podia optar por uma agenda anual e uma linha de programação  redundante, semelhante ano após ano, mas não é isso que se pretende, mas sim sempre novos espetáculos, novas experiências, por isso, não consigo programar a longo prazo, tenho sempre medo que surja algo mais interessante”.

Sempre com o lema de “conseguir cumprir cada objetivo traçado”, Brígida Alves tem conseguido levar a bom porto o Centro das Artes que é já a sua segunda casa, um projeto que mais que um emprego é uma vocação que lhe faz encarar com um sorriso e determinação os desafios que vão surgindo e os quais nunca nega. Para Brígida Alves muito do sucesso do CAESV deve-se à equipa por “detrás do palco”, dos quais, muitos são voluntários. Como acrescenta, “neste momento temos muitos voluntários a colaborar  neste serviço, que a custo zero decidiram integrar este projeto, desempenhando, para isso, as mais diversas funções, desde apoio no bar, a serviço de assistência de sala, babysitting, etc”

Brígida Alves assume um cargo de direção, a maior parte das vezes assumido por homens, mas garante que nunca sentiu nenhum género de preconceito, acrescentado, ainda, que em Sever do Vouga, há algumas mulheres na liderança de diversas entidades e empresas e todas elas têm feito um excelente trabalho… Como conclui, em tom de brincadeira, “acredito que as mulheres têm mais jeito para lidar com as pessoas”.

Piedade, a dona das florestas

Ed649_IMG_9566Piedade Baptista é sapadora florestal da ADRL, a primeira equipa a ser constituída em Portugal, há 15 anos. No corpo da primeira equipa, Piedade foi a primeira mulher do país com esta profissão.

Volvidos todos estes anos, remetendo-nos à atualidade, Piedade Baptista continua ser a única mulher entre os seis sapadores florestais da ADRL: Uma profissão “dura, que exige muito esforço”, mas da qual gosta, como explica a sapadora, “gosto do que faço, gosto muito da floresta e de andar ao ar livre”.

Sente-se completamente integrada, numa equipa unida e com muito bom ambiente. Quanto ao trabalho, Piedade põe as mãos à obra, diariamente, com a certeza que “tudo se faz”. Como garante à Gazeta da Beira, “ando com a máquina a cortar estrume, estojos, silvas, faço tudo como os homens”.

No novo mundo, Piedade concilia a sua profissão, com as tarefas domésticas, em casa, como garante “tem a ajuda do marido”. Os tempos mudaram, a sociedade mudou, a descriminação do género diminuiu, mas ainda não acabou. Como garante, “o preconceito diminuiu, antes as mulheres eram muito discriminadas, nem podiam, sequer, encontrar um emprego, ser independentes. Agora já é diferente, mas ainda há, ainda existe descriminação, as mulheres têm direito à sua liberdade”.

——————————————————————————————————————————————————-

Mais reportagens

Bons negócios, também nascem em tempos de crise (Ed. 643)
Património, Paisagem e Gastronomia (Ed. 642) e outras

Redação Gazeta da Beira