Entrevista (ED. 661)

“Descalços em Tempos de Botas”, o retrato de Lafões no século XX

“Descalços em Tempos de Botas”, o retrato de Lafões no século XX

• Patrícia Fernandes

HojEd661_JoaoAlmeida_IMG_0908e vive em Lisboa, mas foi na Região de Lafões, mais propriamente, em Souto de Lafões, concelho de Oliveira de Frades que viveu os primeiros anos. Terra das suas origens que não esquece, nem quer esquecer. Por isso, nasce “Descalços em Tempos de Botas” uma homenagem às memórias e às gentes que partilharam com ele um tempo. Tendo a hotelaria como profissão, João Almeida estreia-se agora no mundo da literatura. Em conversa com a Gazeta da Beira, o lafonense fala-nos das suas memórias e da aventura pelo mundo da escrita.

Gazeta da Beira (GB): Como é que surgiu a necessidade de escrever?

João  Almeida (JA): Durante a adolescência dos meus filhos comecei a sentir que a transmissão oral, do que tinha sido a minha infância e adolescência, não só na aldeia como em Lisboa, para onde vim com apenas doze anos (bem como muitos da minha geração e das gerações anteriores) não era suficiente, achei então, que o testemunho escrito iria ajudar na minha intenção de transmitir memórias e vivências. Felizmente, no exercício da minha profissão, tenho a felicidade de conhecer e fazer amizade com figuras públicas dos mais variados sectores de nossa sociedade, aliando o seu incentivo à minha determinação, resolvi começar a escrever.

GB: E este livro?

JA: Este livro surge no seguimento daquilo que eu penso ser fundamental transmitir às novas gerações. É fundamental que elas tenham conhecimento do que fomos, como fomos e do caminho que tivemos de percorrer para chegarmos aqui. Um caminho difícil de que o “Descalços em Tempos de Botas ” é apenas um modesto testemunho.

 

GB: Do que nos fala o “Descalços em Tempos de Botas”?

JA: Este meu último livro, “Descalços em Tempos de Botas”, é um romance baseado em factos verídicos, cujos acontecimentos mais marcantes se desenrolam na aldeia de Souto de Lafões e que nos leva numa viagem pelo tempo – dos anos trinta aos anos setenta do século XX. Um período difícil, mas fértil em acontecimentos que marcaram a vida dos Lafonenses e dos portugueses em geral, especialmente os mais pobres, como foi a mobilização dos nossos jovens para as guerras que travamos em África e a emigração em massa para os países do centro da Europa. Não nos devemos esquecer também de juntar a isto a saída das crianças (como foi o meu caso) para trabalhar nos grandes centros urbanos.

 

GB: Este é também uma homenagem a Lafões e à sua gente. Viveu nesta região na sua infância, que memórias têm desta terra?

JA: Sim, é verdade, homenagear a minha terra e os meus conterrâneos foi um dos motivos que me levaram a escrever este livro. Nem sei como poderia ser de outra forma. Como seria possível esquecer todos aqueles rostos enrugados das pessoas que me viram crescer, todos os outros meninos que, como eu, percorriam os campos e as serras apascentando o gado, todos aqueles cheiros sabores e paisagens, um campo de linho florido, ou um «rancho» de mulheres vestidas de negro, cobertas de praganas, que com os seus melodiosos cânticos tornavam fácil a difícil estrigadela (ou espadelada) na eira, as romarias ao S. Macário ou à Senhora da Guia. Memórias e mais memórias que hoje compartilho com prazer com os homens e mulheres, mais velhos ou mais novos, numa roda de amigos, quando regresso à aldeia.

 

GB: Continua a considerar Lafões a sua terra?

JA: Lafões é, e sempre será a minha terra. É aqui que tenho as minhas raízes e muitos dos meus pensamentos. Tenho aqui irmãos e outros familiares, tenho amigos de infância, e os amigos de infância, podemos estar muito tempo sem os ver, mas é uma amizade que nunca desfalece. Vejo com agrado as transformações que se vão operando e que trazem, ou pretendem trazer, mais modernidade e bem-estar para as pessoas, mas sinto uma grande felicidade e paz interior quando percorro os caminhos que outrora percorri, me sento nas pedras onde me sentei na infância, ou bebo a fresca água das nascentes onde bebia em criança.

GB: Onde é que podemos encontrar esta publicação?

JA:   Felizmente, e ao contrário de muitos outros escritores, há uma editora que me publica os livros – a Futura, uma editora do grupo Ancora, liderada pelo Dr. António Batista Lopes, um dos mais prestigiados editores portugueses, – isso naturalmente faz com que o meu livro possa ser adquirido em qualquer livraria, pela internet, ou possa ser pedido diretamente para a editora. Sei que na papelaria Albuquerque, em Oliveira de Frades o meu livro se encontra à venda e por sinal com enorme êxito, o que me deixa muito feliz.

 

GB: Como escritor quais são as suas aspirações para o futuro?

JA: Escrever tornou-se uma das minhas grandes paixões. Tenho uma profissão, -sou profissional de hotelaria, – que, para além de ser física e emocionalmente muito desgastante, me ocupa muito do meu tempo, por isso as minhas publicações não terão uma curta periodicidade. Espero contudo, passado que seja o sempre necessário período de refleção entre publicações, iniciar um novo projeto, o que aliás já tenho em mente e que espero poder publicar daqui a cerca de um ano, data em que comemorarei quarenta anos ao serviço do prestigiado restaurante O Pote. Seja qual for o tema, – novo ou aprofundado – terá que ter por base princípios que me foram transmitidos pelos meus pais de que não abdico e que norteiam a minha vida, com eles, e como é minha obrigação de cidadão, pretendo dar o meu contributo para uma sociedade onde cada um de nós se sinta livre, uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.

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Redação Gazeta da Beira