A Alegria do Evangelho, o Neo-Liberalismo e o Natal

Manuel Silva

Recentemente, o Papa Francisco publicou um documento intitulado, em português, “A alegria do Evangelho”.

Ed644-ManuelSilva_alegriaEvangelhoNaquele documento, Sua Santidade critica o modelo económico dominante, afirmando: “temos de dizer não a uma economia de exclusão e da iniquidade, porque essa economia mata. Não pode acontecer que não seja notícia que um velho morra de frio na rua e o seja a queda de dois pontos da Bolsa. Isso é exclusão. (…) Não se pode tolerar mais que se deite fora comida quando há gente que passa fome. Isso é iniquidade. (…) Grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas. (…) A liberdade de mercado não provoca por si mesma uma maior igualdade e inclusão social, porque expressa uma confiança néscia e ingénua na bondade de quem detém o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico imperante. (…) A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que na sua origem está uma profunda crise antropológica: a negação da primazia do ser humano. Assim, instaura-se uma nova tirania invisível, que pode despertar violências.” (…) Acusa-se de violência os pobres e os povos pobres mas, sem igualdade de oportunidades, as diversas formas de agressão e de guerra encontrarão um caldo de cultura que cedo ou tarde provocará a sua explosão. (…) Falta ética que requer uma mudança de atitude enérgica por parte dos dirigentes políticos. O dinheiro deve servir e não governar”.

Como facilmente se constata, o que Mário Soares disse na sessão da Aula Magna relativamente ao nosso país tem muita semelhança com o documento papal. A direita no poder e os seus escribas não dizem apelar o Papa à violência? Não o consideram um perigoso revolucionário esquerdista? Ou pensam-no e não têm coragem para o afirmar?

As críticas do Papa, como até La Palisse, se cá voltasse, reconheceria, dirigem-se à evolução do capitalismo nas últimas décadas e à ideologia em que se baseia: o neo-liberalismo. Porque ficaram calados os liberais? Onde estão os antigos revolucionários maoistas, hoje mais ou menos identificados com a faceta dominante do capitalismo, e/ou  apoiantes da guerra desencadeada pelos EUA contra o Iraque baseada numa mentira, como são os casos de Durão Barroso, Nuno Crato, João Carlos Espada, José António Lima, Franquelim Alves, Eduardo Cintra Torres, Helena Matos ou José Manuel Fernandes? João Carlos Espada e José Manuel Fernandes, que apesar de agnósticos, tecem grandes elogios à religião, não saem em defesa do Papa Francisco? O fundamentalista do catolicismo, João César das Neves, após ter considerado a existência do salário mínimo um crime contra os pobres e não viverem mal a maioria dos reformados, porque não elogia o documento elaborado pelo Chefe máximo da sua Igreja?

Paulo Portas, que, na qualidade de director do “Independente”, há mais de 20 anos criticou o Papa João Paulo II por numa visita à América ter chamado a atenção para os excessos e injustiças do liberalismo económico, não reage a esta “provocação”?

Quanto ao antigo militante do PCP, hoje neo-liberal, Passos Coelho, certamente reforçou o seu agnosticismo…

Enquanto aqueles senhores e o poder económico que servem se calam, os cristãos deverão aproveitar a época de Natal para reflectir sobre o documento “A alegria do Evangelho”, divulgar o seu conteúdo e aplicá-lo na prática.

PS: um grupo de verdadeiros sociais-democratas, ainda militantes do PSD e críticos da sua direcção, bem como da traição da mesma à social-democracia, criou um grupo de reflexão e análise. Passos Coelho está cada vez mais isolado. Até no seu partido.

Se aquele grupo, com as suas ideias, reconquistar o PSD, este voltará a ser o partido social-democrata fundado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota. Caso tal aconteça, certamente voltarei a votar PSD. No entanto, não regressarei a qualquer actividade partidária, da qual estou “aposentado”.

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Mais opinião
A FRENTE REJEICIONISTA
É o reescalonamento da dívida, estúpido

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