Manuel Silva
Numa conferência recentemente realizada, o ex-ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, reconheceu que a austeridade provoca a recessão. Mais disse que, por tal motivo, a dívida pública deveria ser reescalonada por um período entre 40 e 60 anos, permitindo uma baixa de impostos destinada a fazer crescer a economia e o emprego.
Desconhece-se se quando passou pelo governo defendeu aquela posição junto de Passos Coelho ou em Conselho de Ministros. No entanto, era visível que o “Álvaro”, como gostava de ser tratado, não perfilhava a política restritiva de Vitor Gaspar.
A troika e os credores de Portugal poderiam não aceitar tal reescalonamento, mas aquela deveria ser a política a seguir aqui e em outros países que tiveram de recorrer a resgate. Daquela forma vários países do chamado terceiro mundo, especialmente da América Latina, escaparam à bancarrota, passando a sua economia a crescer acentuadamente, permitindo a melhoria das condições de vida dos seus cidadãos. No entanto, entre os responsáveis europeus não se vê quem tenha rasgo mental para ver a evidência da realidade. Não é só Portugal que está entregue a mediocridades…
A política financeira, económica e social do governo Passos-Portas falhou claramente. Apesar de tanto sacrifício suportado pelos pobres e as classes médias (os mesmos de sempre), a dívida pública, em vez de baixar, subiu, ultrapassando os 130% do PIB. O défice é, nesta altura, praticamente o dobro do previsto no famigerado memorando. A troika deveria ter ido embora no passado mês de Setembro. Cá continua, falando-se já em segundo resgate ou, em alternativa, na submissão ao BCE, idêntica à praticada junto da troika. Tudo isto, porque tal política teve efeitos nefastos na economia, os quais se reflectiram nas finanças públicas. No entanto, o executivo insiste na mesma receita falhada. Até quando? Até o país se encontrar completamente exaurido? Como diriam os americanos: “é o reescalonamento da dívida, estúpido”.
Enquanto estes meninos vindos das jotinhas, com mentalidade típica de betinhos e yuppies, se encontrarem à frente do PSD e do CDS, estes partidos não mudarão. Nem a espectacular derrota sofrida pelo PSD nas autárquicas o fez mudar de agulha.
O PCP e o BE, independentemente de se concordar ou não com os mesmos, têm propostas concretas para uma mudança de políticas, mas, ainda que estejam – principalmente o PCP – a subir nas sondagens e o primeiro daqueles partidos tenha crescido significativamente nas eleições autárquicas, nenhum deles encabeçará uma alternativa em futuras legislativas.
A alternativa está essencialmente no PS. No entanto, não se vê a sua actual direcção e particularmente o seu líder, possuirem uma ideia geral para o país. Aliás, António José Seguro e os seus pares não têm sabido capitalizar a vitória obtida no passado dia 29 de Setembro.
Não é pelo facto de Seguro continuar a ser o líder partidário mais popular nas sondagens que oferece uma alternativa política, económica, financeira e social a este neo-liberalismo destruidor das forças produtivas. Os socialistas deverão reflectir nesta dura realidade.
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