Manuel Silva
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Geraldo Vandré
A quadra acima mencionada do poeta e cantor brasileiro Geraldo Vandré é o refrão de uma sua canção, datada de 1968, contra a ditadura militar brasileira, que também foi popularizada por Simone.
Não estamos em ditadura política – pelo menos para já – nem o actual governo é fascista ou salazarista. Aliás, afirmações desse género banalizam o verdadeiro fascismo e o salazarismo, bem como a violência característica de ambos. No entanto, em nome do combate ao défice e à dívida pública tomam-se medidas de enorme insensibilidade social que, tanto quanto sabemos, Salazar não praticou, como cortes de salários e pensões a pobres e remediados, aumento de impostos destruidores de milhares de pequenas e médias empresas e causadores do desemprego para centenas de milhares de trabalhadores, enquanto campeiam grandes negociatas, especialmente com as privatizações, e, segundo dados oficiais, os maiores ricos estão ainda mais ricos.
Saber não é pois esperar, é fazer a hora. Foi o que fizeram no passado dia 21 de Novembro 8.000 polícias, da GNR, PSP, PJ, SEF e ASAE, ao invadirem a escadaria da AR. Foi também o que fizeram, sob a égide de Mário Soares, no mesmo dia, muitas pessoas na Aula Magna, em Lisboa. Entre estas contavam-se muitos socialistas, comunistas, bloquistas, maoistas do MRPP, independentes de esquerda, centristas e até pessoas de direita democrática e social, bem como o militante do PSD Pacheco Pereira, obtendo o evento ainda o apoio do militante do PPD da primeira hora António Capucho. Responsáveis da Igreja Católica, assim como militares que foram há poucos anos chefes de Estado Maior também disseram presente.
António José Seguro e Jerónimo de Sousa não compareceram. O secretário-geral do PCP continua a mostrar o seu sectarismo e a não gostar da unidade na acção desde que esta não seja efectuada sob a direcção do seu partido. Seguro mostra insegurança e timidez face a Mário Soares, Sócrates, António Costa e outros socialistas destacados. Quem assim actua estará preparado para governar? Por acaso já apresentou algum projecto alternativo à política destruidora da riqueza nacional do actual governo? Não estaremos perante o Passos Coelho do PS? Os percursos de um e de outro têm muito em comum…
Durante o encontro do passado dia 21 houve algum excesso de linguagem por parte de Mário Soares, como vem sendo hábito. Para além de não estarmos a caminho de uma ditadura política, a demissão do PR, como sugeriu o antigo Chefe de Estado, teria graves repercussões na vida portuguesa e, então sim, poderia pôr em causa o próprio regime democrático. Quem assim escreve nunca foi cavaquista, contrariamente a muito boa gente nunca afirmou ser Cavaco o melhor primeiro-ministro da democracia, mas Sá Carneiro, e hoje discorda profundamente da sua acção política passada e presente. É um social-democrata independente, não pretende voltar a pertencer a qualquer partido (já esteve em dois e acabou por se desiludir com ambos), nem a qualquer estrutura de poder.
Apesar de alguns momentos menos felizes da parte de Soares, são bons estes debates de ideias, especialmente o último, virado para a defesa do Estado Social e da Constituição tão desprezada pelo actual governo.
Estão criadas as condições para a constituição de uma ampla frente rejeicionista deste poder decrépito e isolado da população, a qual deverá ir além da esquerda, unindo também o centro e a direita social e humanista, com vista à criação de uma alternativa democrática e progressista a este capitalismo selvagem dominante em Portugal e grande parte do mundo. A defesa do primado da lei fundamental e do Estado Social são princípios elementares típicos da civilização europeia ocidental, especialmente após a II guerra mundial, intínsecos a essa alternativa.
PS: Estão de parabens o João Carlos Gralheiro, o José Roque e o João Cerveira pelas iniciativas levadas a cabo no âmbito do “Palavrares”. Em próxima edição espero debruçar-me sobre este assunto.
——————————————
Mais opinião
Comentários recentes