António Bica
Desde que depois da independência da Arábia Saudita aí se explora, os seus monarcas autocráticos têm vindo a construir pacientemente aí a base (em árabe al-caida) para a reunificação religiosa dos muçulmanos de todo o mundo, estruturando-a na sequência dos movimentos reformadores fundamentalistas surgidos no século 18 nos territórios árabes do império otomano. Entre esses reformistas destacou-se, na Península da Arábia, Muhâmade ibn-abd al-Wahhab (1703-1792), que se aliou a Muhâmade ibn-Saud, então emir da tribo Ad-Darya com centro em Riade, que veio a assumir em 1774 a liderança política ideologicamente apoiada nesse movimento reformista fundamentalista.
Com a morte em 1792 do reformador religioso Al-Wahhab os príncipes Saude dessa tribo Ad-Darya acrescentaram ao seu poder político e militar o poder religioso. Depois alargaram-o por aliança com outras tribos por negociação e por força quando entenderam necessário. Assim nasceu o Wabismo que veio a tornar-se a ideologia política e religiosa da Arábia com capital em Riade sob o poder da família monárquica Saude.
Com a concentração dos poderes político e religioso assumiram os reis sauditas poderes equivalentes aos do profeta e dos califas que lhe sucederam, passando a tomar medidas radicais contra tudo o que fosse considerado infracção à pureza inicial do islão. Passaram a aspirar à unificação política de toda a Umma (comunidade de todos os crentes na religião islâmica) com obediência a um único centro de poder político e religioso, lutando pela conversão de todo o mundo ao islamismo, combatendo as práticas islâmicas de todos os ramos xiitas e dos sufistas, opondo-se ao culto de falecidas personalidades islâmicas veneradas como santos com promoção activa da destruição dos seus túmulos, mesmo o de Muhâmade e dos seus primeiros seguidores, em Medina, e do túmulo de Hussein em Querbala (o que é considerado sem perdão pelos xiitas por ser neto do profeta e figura tutelar do xiismo)
A reforma política e religiosa wabita defende, onde os que a seguem chegam ao poder político, o castigo com penas corporais medievais, incluindo o apedrejamento até à morte, nomeadamente por factos que na generalidade dos países não são crime, obrigando à separação das mulheres dos homens em toda a vida pública, impondo o uso em público do vestuário e dos comportamentos tradicionais, o que asseguram por polícia de costumes nos espaços públicos. Correntes islâmicas integristas, como a dos Talibans, opõem-se a que as mulheres sejam escolarizadas, com reacção violenta contra quem não respeita essa interdição religiosa e com destruição das escolas que ensinam raparigas. Nalguns, como aconteceu no Paquistão, agem procurando assassinar as jovens que as frequentam como aconteceu com a Malala que foi baleada por militantes talibãs, em 9 de Outubro de 2012.
Os reis Saude têm pretendido estender além da Arábia essas e outras práticas condenadas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Para isso, usando as grandes receitas do petróleo, têm promovido o envio de clérigos para todos os países onde há comunidades islâmicas, financiado aí a construção de mesquitas e a criação de madrassas (escolas corânicas) em que é pregada a corrente religiosa islâmica fundamentalista wabita. Para manter o controle sobre os emigrantes de religião islâmica promovem a sua não integração nas comunidades não islâmicas em que vivem e por vezes o uso de violência contra não muçulmanos para impor valores islâmicos.
Nos Estados de população maioriatariamente islâmica, em que os governos não aceitam a aplicação da charia (imposição das normas religiosas como se fossem leis do poder político), usam métodos semelhantes, financiando fundações islâmicas com o objectivo de apoiar as populações mais pobres, procurando ganhá-las para apoiar o wabismo e outros movimentos radicais islâmicos e combater os governos que se opõem à charia, separando o poder político do religioso e reconhecendo a todos o direito de liberdade religiosa, incluindo de não ter religião, e de mudar de religião (o que é interdito, sob pena de morte, pela charia).
No início da década de 1980 a URSS cometeu o grande erro político de enviar o exército soviético em apoio do regime laico e progressista do Afeganistão, que havia chegado ao poder por eleições e estava a ser ferozmente combatido pelos sectores sociais conservadores e religiosos fundamentalistas apoiados em combatentes pelos Talibãs com origem no Paquistão.
Os EUA, no âmbito do plano estratégico de enfraquecer política, económica e socialmente a URSS, negociaram com o governo do Paquistão o apoio aos talibãs para combaterem no Afeganistão e com o rei Saude a mobilização e o financiamento de jovens dos países islâmicos organizados nas mesquitas e madrassas lideradas pelos clérigos que para aí havia muito estavam a ser enviados pela Arábia Saudita. As armas, as munições, a estratégia militar, o aconselhamento táctico e a propaganda mundial para apoio à luta dos talibãs foram assegurados pelos EUA, fundamentalmente através da CIA.
A larga rede de mesquitas e madrassas fundamentalistas passou a promover a mobilização e o recrutamento de jovens muçulmanos para lutar no Afeganistão e noutros países com o objectivo, a curto prazo, de impor o poder político e religioso islâmico fundamentalista e a obediência à charia. Além do Afeganistão, fizeram isso no Egipto, no Iraque, na Síria, na Palestina (promovendo o AMAS), na Argélia, na Bósnia, nas repúblicas russas do Cáucaso, no Iémen, na Líbia, na Nigéria, no Mali e tentam-no no noroeste da China. Os reis Saude promovem essa política com a quimérica esperança de vir a unificar politicamente os muçulmanos de todo o mundo sob a sua soberania, reconstituindo o califado extinto em 1258.
Não obstante essas práticas autocráticas e frontalmente contrárias à Declaração Universal dos Direitos do Homem, os EUA têm apoiado política e militarmente os reis Saude, porque governam com mão de ferro o país maior produtor de petróleo no mundo, o melhor aliado norte americano no Médio Oriente depois de Israel. E, em todos os casos em que quiseram derrubar os governos nos países islâmicos opostos à aplicação da charia, defensores da separação da religião da política e do respeito pelos direitos das mulheres, por não as considerarem suficientemente alinhadas com a sua política internacional, recorreram sistematicamente à mobilização dos grupos sociais organizados à volta das mesquitas e das madrassas financiadas por fundos da Arábia Saudita e lideradas por clérigos para aí enviados para pregar o fundamentalismo wabita.
Às permanentes e inaceitáveis práticas políticas contrárias aos direitos humanos do autocrático governo saudita sempre os EUA sempre fizeram vista grossa, esquecendo que os muçulmanos que criaram a Alcaida são originários da Arábia Saudita, onde foram criados nessa linha de pensamento religioso e político fundamentalista.
Os que a continuam a ser seus discípulos usam tácticas agressivas de tipo militar para atigir esse fim. Se os reis da Arábia Saudita se afirmaram inimigos da Alcaida depois da destruição dos edifícios das embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzania, em 1998, de um navio de guerra norteamericano junto à Arábia Saudita pela mesma altura, do ataque em 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, posteriormente no metropolitano de Londres e nos comboios de Madrid, do ataque à embaixada norteamericano na Líbia em 2012 e outros, foi e é apenas por razões tácticas. Sabem que na situação política e económica actual os EUA facilmente promoveriam o seu derrube do poder, sem terem que disparar eles mesmos um tiro. Bastar-lhes-ia usar os métodos de destabilização social e política que bem dominam e permanentemente usam contra os governos que procuram não se submeter aos seus interesses.
Mas não o tem querido fazer, porque temem interromper por tempo longo o fornecimento do petróleo do Golfo Pérsico à economia neoliberal globalizada que controlam. A Primeira Grande Guerra (1914/1918), entre outras grandes consequências, levou ao fim do império otomano e à independência progressiva dos países árabes no Médio Oriente, incluindo a Arábia Saudita, onde se situam as maiores jazidas de petróleo do mundo, com boa qualidade e de fácil extracção. O desenvolvimento dos motores movidos a derivados do petróleo estavam a iniciar a substituição dos comboios por transportes mediante veículos motorizados e a dar origem à indústria aeronáutica para uso sobretudo militar e depois civil . or isso a Inglaterra passou desde então a tutelar politicamente os países do Golfo Pérsico ricos em petróleo: o Iraque, o Kuwait e a Pérsia (actual Irão). Os EUA tomaram o controlo político da Arábia Saudita e dos emirados árabes, o que deu acesso à exploração desse petróleo às grandes companhias americanas. Em troca os EUA garantiram a sua defesa política e militar e abstiveram-se de interferir nos regimes autocráticos que os governam, concentradores dos poderes religioso e político, sendo defensores do fundamentalismo islâmico wabita, não tolerando na Península da Arábia qualquer religião não muçulmana e sendo discriminadores agressivos das mulheres e das minorias religiosas islâmicas xiitas.
Depois da Segunda Guerra Mundial e da constituição pela força em 1948 do Estado judaico de Israel, os EUA, que até 1945 olhavam com suspeita e algum desprezo os judeus, optaram por transformar Israel em testa de ponte militar no Médio Oriente para garantir o acesso ao petróleo da região em caso de alteração política nos Estados da península arábica que o pusesse em causa.
Desde o fim da década de 1950 até recentemente a dependência dos EUA do petróleo e do gás natural do Médio Oriente tornou a defesa do acesso a ele vital para a economia americana, admitindo-se que isso só viria a ser alterado com o desenvolvimento da produção de energias alternativas às de origem fóssil, cujas tecnologias têm progredido, mas não tão aceleradamente quanto seria possível se os governos dos países tecnologicamente mais desenvolvidos, sobretudo os EUA, dessem maior apoio ao seu desenvolvimento.
A energia é e sempre foi a maior condicionante do progresso económico depois do desenvolvimento tecnológico. Por isso a contínua mineração dos fósseis energéticos (carvão mineral, petróleo e gás natural), desde o início da revolução industrial iniciada no século 18, levou a tornar cada vez mais onerosa a sua obtenção em consequência do esgotamento progressivo das jazidas com exploração a baixo preço.
Em consequência disso o preço do petróleo (que é o referente dos outros produtos energéticos) foi subindo no mercado até ter ultrapassado de modo estável os 100 dólares por barril (160 litros de petróleo) desde o início deste século.
A preço acima dos 100 dólares por barril as energias renováveis, que são as que têm origem próxima directa ou indirecta na radiação solar (electricidade fotovoltaica, electricidade eólica, hídrica, das ondas, das marés, combustível por conversão em álcool de açúcar de cana, de milho e de celulose, e de gorduras) tornaram-se competitivas à medida que as tecnologias de produção foram melhorando. Por isso nos EUA a electricidade de origem eólica passou nas últimas décadas para 1,4% do total; a de origem solar para 0,3%; a energia com origem no açúcar e em gorduras para 4,5%. A soma da energia com origem renovável passou para 6,2% nos EUA, o que é muito pouco para ameaçar a posição dominante do petróleo, do gás natural e do carvão.
A razão desta lenta progressão das energias renováveis parece estar na influência política dos grandes interesses da indústria petrolífera e da produtora de automóveis movidos a petróleo, que têm dificultado suficiente financiamento da investigação tecnológica correspondente.
É conhecido há muito tempo que em camadas profundas das rochas do período geológico pérmico, formado há cerca de 200 milhões de anos, há grandes jazidas de arenito fino impregnado de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural). A extracção do petróleo e do gás que o impregnam não se tornou económica, apesar do preço do petróleo ter passado estavelmente os 100 dólares por barril há mais de 10 anos, por a tenologia usada para a extracção ser muito onerosa. Mas os interesses das indústrias petrolífera e de produção de automóveis movidos a derivados do petróleo, porque os EUA têm extensas jazidas de rochas pérmicas embebidas em hidrocarbonetos, influenciaram o seu governo para financiar fortemente a tecnologia de extracção de petróleo e gás a partir dessas rochas.
Em consequência no fim da década de 1990 surgiu tecnologia que tornou o gás natural e o petróleo com essa origem competitivo aos preços de mercado. Foi desde então possível abrir furos verticais nas rochas até chegar a camadas rochosas profundas embebidas em hidrocarbonetos e perfurá-las horizontalmente a grandes distâncias. A extracção do petróleo e do gás dessa rochas é feita por injecção a alta pressão de mistura de água e produtos químicos, o que permite a separação e a recolha do petróleo e do gás natural.
Em consequência da crescente exploração de petróleo e de gás natural no subsolo profundo dos EUA com uso das novas tecnologias, a importação norte-americana de gás natural, que se previa ser de 71 mil milhões de metros cúbicos (m3) em 2011 e passar em 2025 para 142 mil milhões de m3, deu lugar a produção excedentária que passou de 2006 para 2012 para 708 mil milhões de m3, baixando o seu preço para 50%. E a importação de petróleo que se previa passar de 12,5 milhões de barris por dia em 2005 para 15 milhões de barris por dia em 2025, desceu para 7,5 milhões de barris por dia em 2013, sendo parte significativa desse petróleo reexportado sob a forma de derivados. Assim a possibilidade de extrair das rochas pérmicas petróleo e gás natural a preços competitivos alterou o mercado do petróleo.
A Agência Internacional de Energia, considerando os factos referidos, estima que em 2035 os EUA poderão ser autossuficientes em energia, dado que as reservas de petróleo em rochas pérmicas profundas nos EUA são grandes, estando em 2013 estimadas em mais de 20 mil milhões de barris de petróleo, dos quais 15,4 mil milhões na Califórnia e 7,4 mil milhões no Dakota do Norte.
Este desenvolvimento nos EUA da extracção de petróleo de rochas pérmicas levou ao cancelamento da construção através do país do chamado Keystone XL pipeline previsto para importar petróleo com origem semelhante das grandes reservas em exploração no Canadá em consequência do projecto ter sido fortemente contestado pelo movimento ambientalista americano.
Mas a extracção de petróleo e gás das rochas pérmicas tem consequências nefastas no ambiente. A injecção de enormes quantidades de água misturada com complexos produtos químicos para fazer a extracção do petróleo e do gás ameaça de poluição irreversível as águas subterrâneas. Por outro lado essas jazidas de hidrocarbonetos esgotam-se em poucos anos se continuarem a ser exploradas com a actual intensidade.
Por essas razões e para garantir no futuro a autossuficiência energética não está a ser abandonado o avanço da produção de energia de origem renovável, estando a avançar, embora insuficientemente, o correspondente desenvolvimento tecnológico.
Foi recentemente anunciada a produção de torres eólicas com capacidade de 6 megawatts; a produção de painéis fotovoltaicos tem custos cada vez mais baixos, descendo o seu custo de cerca de 76 dólares por watt em 1977 para 1 dólar por watt em 2013; no deserto do Mojave (Califórnia), está em construção uma central solar de 377 megawatts movida a vapor de água produzido por concentração de raios solares por sistema de espelhos, e outras se podem seguir (na Andaluzia existe há alguns anos uma com tecnologia semelhante); entrou em produção nos EUA a primeira central produtora de álcool a partir de celulose de madeira e palha.
Por outro lado o uso de combustíveis está a tornar-se cada vez mais eficiente. Nos EUA até à crise do comércio internacional de petróleo decorrente da guerra entre Israel e o Egipto em 1973 o consumo médio de um automóvel por cada 100 km era de 20 litros. Actualmente é de 6,7 litros por 100 km, prevendo-se que em 2025 passe para 4,4 litros. O desenvolvimento de novas tecnologias de produção de energia e de redução progressiva do seu consumo por aumento da eficiência da utilização e por progressiva generalização de cultura de contenção do seu consumo, nomeadamente por consciencialização da necessidade de manter os equilíbrios ambientais, estão a abrir caminho para em prazo não excessivamente longo cada país possa vir a ser energeticamente independente. Reflectindo esse objectivo o actual presidente dos EUA, Barak Obama, em discurso recente afirmou: “Estamos finalmente determinados a controlar o nosso futuro energético.”
Não se perspectiva aqui a produção de energia com base na fusão de hidrogénio, porque está, em fase experimental, no sul de França (Provença), a ser feita pelos principais espaços económicos do mundo, entre eles a Europa, os EUA, a China, o Japão e a Rússia, nem, pela mesma razão, a produção de óleo vegetal possível a partir de algas verdes, mas de tecnologia ainda não dominada. Espera-se que em 2020 a produção industrial de energia por fusão atómica do hidrgénio se mostre tecnologicamente viável. Se isso se conseguir, dada a grande produtividade energética dessa tecnologia, a ilimitada disponibilidade de hidrogénio e o facto de ser pouco poluente, poderá passar a haver disponibilidade quase ilimitada e a baixo custo de energia para a economia mundial.
Na capacidade humana para produzir suficiente energia assenta o futuro desenvolvimento económico, de que depende, como sempre dependeu (juntamente com o desenvolvimento tecnológico), o avanço e cultural. Actualmente a produção de energia tem base sobretudo no uso de carbono fóssil (carvão mineral, gás natural e petróleo). Por outro lado o consumo de energia é cada vez maior, o que combinado com a progressiva e cada vez mais acelerada destruição das florestas em quase toda a Terra (que se iniciou com o começo da agricultura e da pecuária, há cerca de 10.000 anos), está a fazer aumentar as quantidades de dióxido de carbono, de óxidos de azoto e de enxofre despejados na atmosfera. Esse aumento está a chegar a níveis que poderão conduzir a cada vez maiores catástrofes climáticas, a excessivo aumento do nível da água do mar e a imprevisíveis alterações climáticas com risco de grandes áreas em muitos países se tornarem inabitáveis, como as recentes catástrofes climáticas por todo o mundo parecem indiciar.
Os grandes interesses da indústria petrolífera e de construção de automóveis movidos a derivados de petróleo têm vindo a pressionar os governos dos países mais industrializados para não tomarem medidas que contribuam para reduzir significativamente o dióxido de carbono na atmosfera e, usando os grandes meios de comunicação social (televisões, rádios, jornais e revistas, edição de livros). Esses interesses parece que não hesitam em ganhar para a sua causa a opinião aparentemente não isenta de alguns cientistas, embora cada vez em menor número, no esforço de convencer a opinião pública de não haver riscos ambientais preocupantes.
O grande incremento da produção de petróleo e gás natural de origem nas rochas pérmicas profundas e o desenvolvimento da produção de energias renováveis muitos países está a ter repercussões na política internacional.
A Arábia Saudita, governada pelos monarcas autocratas da casa Saud desde a queda do império otomano no fim da Primeira Grande Guerra (1914/1918), procurou recentemente influenciar os membros da ONU para ser eleita membro do seu Conselho de Segurança. Depois de assegurar essa eleição veio a rejeitá-la em Outubro de 2013.
A rejeição terá resultado principalmente do abandono pelos EUA da decisão de repetir na Síria o que fizeram, juntamente com diversos países da União Europeia, na Líbia: servir de artilharia aérea dos que combatem o regime, na sua maioria liderados por combatentes doutrinados e organizados pelos pregadores fundamentalistas islâmicos wabitas originários da Arábia Saudita em mesquitas e madrassas também financiados por fundos sauditas. Por outro lado a recente decisão dos EUA de prestar atenção à iniciativa do presidente do Irão para iniciar contactos para pôr fim às sanções decretadas contra o país pela ONU terá também contribuído para a renúncia da Arábia Saudita ao assento no Conselho de Segurança.
A imprensa americana, nomeadamente a revista Time de 11 de Novembro de 2013, comenta as razões: para estas decisões do governo dos EUA e outras interpretadas como menos amigáveis pelo rei saudita terá pesado a cada vez menor dependência norte-americana do petróleo com origem no Golfo Pérsico com perspectiva de a prazo deixarem de precisar dele. Mas não refere que ambas as questões estão a preocupar não só a Arábia Saudita, mas também o Estado judaico de Israel.
Por outro lado os EUA não terão esquecido que o ataque às torres de Nova Iorque em 11 de Setembro de 2001 foi ordenada por um rico e influente cidadão saudita (Bin Laden) e os comandos operacionais que o fizeram eram quase todos originários desse país. E sabem que a Arábia Saudita, desde há cerca de 60 anos, tem vindo a fomentar e financiar a construção de mesquitas e madrassas a elas associadas dirigidas por clérigos islâmicos sauditas wabitas pregadores de radicalismo religioso intolerante e formadores de jovens combatentes dispostos ao combate fanático até ao auto-sacrifício, incluindo em países europeus, da América do Norte e asiáticos.
O governo dos EUA está consciente disso. Julian Assange libertou informação secreta da então secretária de Estado Hillary Clinton para o seu governo a qualificar a Arábia Saudita como principal origem de financiamento do terrorismo sem o seu governo ter tomado acções significativas para impedir que os fundos para isso chegassem às mãos dos talibans e de outros grupos islâmicos wabitas.
Durante a guerra dos EUA no Iraque o apoio aos combatentes sunitas (contra as tropas americanas e a população xiita) teve origem saudita. Na guerra civil na Líbia o mesmo aconteceu. Também nas repúblicas do norte do Cáucaso e na Bósnia participaram nas guerras civis combatentes islâmicos fundamentalistas em número significativo.
O apoio saudita aos combatentes da Alcaida na Síria visa o domínio do islamismo sunita wabita no país e não a criação de regime político democrático respeitador dos direitos humanos. No reino saudita, além de não ser admitida qualquer religião não islâmica é feita repressão sistemática dos islâmicos xiitas do país. Em Março de 2012 o grande Mufti (autoridade religiosa) da Arábia Saudita proclamou fatwa (dever religioso islâmico) de destruição de todas as igrejas na península arábica. No mesmo mês a monarquia saudita mandou tropas para reprimir no Bahrein as manifestações da população xiita, que corresponde a 80%, e reclamava a democratização do país do autocrático monarca sunita.
Para além das consequências referidas na politica dos EUA em relação à Arábia Saudita ela poder-se-á repercutir nas condições de permanência do Estado judaico de Israel na terra da Palestina, que tem sido assegurada pelos EUA como sua testa de ponte militar para defesa dos interesses nortamericanos no acesso ao petróleo do Médio Oriente, o que aconteceu pouco depois do reconhecimento do Estado de Israel pela ONU. Por isso os EUA têm vindo a apoiar desde então económica, militar e diplomaticamente o Estado de Israel. Esse apoio tem tido grande custo, mais do que económico, em desprestígio político em todo o mundo para os EUA, sobretudo entre a população de religião islâmica, com consequência em guerra de carácter difuso designada terrorismo pelo meios de comunicação nortamericanos e os por ele influenciados.
Quando a energia de origem fóssil tiver preço de produção estavelmente superior ao da energia com origem renovável, o que se prevê, como resulta do acima referido, acontecerá em prazo não muito longo, sobretudo se o ITER (Reactor Experimental Termonuclear Internacional) no sul de França entrar em pleno funcionamento. Então os EUA deixarão de ter interesse económico e consequentemente político e militar em defender não apenas os Estados sunitas fundamentalistas produtores de petróleo do Gofo Pérsico mas também o Estado judaico de Israel. Quando isso acontecer o estado criado judaico artificialmente na primeira metade do século 20 poderá certamente perder condições de subsistência. Não pode deixar de se ter em conta que o Estado cristão que existiu na terra da Palestina entre o fim do século 11 e os finais do século 13 chegou ao seu fim quando o balanço entre os custos da sua manutenção e o interesse em mantê-lo passou a ser negativo.
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