Vouzela responde aos fogos com sonhos e projetos

O passado dia 15 de Outubro ficou marcado na nossa memória individual e coletiva de forma indelével. Atas de reuniões, relatórios e páginas de jornais registaram os acontecimentos para memória futura. Foi o dia e a noite dos trágicos incêndios que tiraram a vida a 8 pessoas e que destruíram uma casta área florestal e rural.

O concelho de Vouzela era apontado por muitas pessoas como um bom exemplo ao nível das políticas florestais e da prevenção de incêndios. Em Vouzela existem três organizações a trabalhar as questões florestais: a ADRL com duas Equipas de Sapadores Florestais, a Cooperativa 3 Serras que é entidade gestora de três Zonas de Intervenção Florestal e a associação VerdeLafões, entidade gestora de três Zonas de Intervenção Florestal e uma equipa de Sapadores Florestais.

Estas entidades têm equipas técnicas qualificadas que realizam trabalho reconhecido e trabalham em parceria com as Juntas de Freguesia e Câmara Municipal.

A Câmara Municipal é presidida por um engenheiro florestal que conhece bem o concelho, a realidade florestal da região e do país e conhece bem as associações e cooperativa que operam no concelho, aliás foi sócio fundador de duas e dirigente de outras duas.

O presidente da Câmara, Rui Ladeira, pelo conhecimento e sensibilidade que tem do território, tem desenvolvido a política florestal em diálogo com as organizações do sector. Além das referidas, com origem na região, tem articulado a ação do município também com a associação Montis, que não sendo constituída por iniciativa de gente de Lafões, encontrou espaço e apoio em Vouzela.

Desse diálogo e dessa sensibilidade para as questões florestais resultou a criação o Parque Natural de Gestão Local Vouga Caramulo, o primeiro parque desta natureza a ser criado em Portugal.

Tudo parecia perfeito no concelho de Vouzela: organizações de produtores a trabalhar no território, técnicos competentes, município atento e a investir na floresta, trabalho em parceria em defesa da floresta, e duas equipas de sapadores Florestais atentas na vigilância e com provas dadas. Aliás a ADRL constituiu a primeira equipa de Sapadores Florestais do país.

Apesar de tudo isto o concelho de Vouzela, a semelhança de outros concelhos da região Centro, entre eles o concelho vizinho, Oliveira de Frades, foi atingido violentamente por fogos florestais incontroláveis. As aldeias ficaram isoladas, as pessoas viveram momentos de terror que nunca mais esquecerão. As aldeias onde havia gente jovem com força para lutar contra as chamas conseguiram resistir sem mortes e com poucos danos nas casas e nos campos agrícolas mas nas aldeias mais envelhecidas, onde a força faltou pelo envelhecimento das populações ou pelo despovoamento houve mortes e os danos são incalculáveis.

Perante isto, num concelho onde tudo parecia correr bem, que era apontado como uma boa prática na preservação da floresta, tudo foi posto em causa e tudo está em debate.

O balanço dos prejuízos do incêndio de 15 de outubro é estimado em:

* Oito pessoas  morreram (6 de residentes no concelhos e 2 no A25);

* Cerca de 75% da área total do concelho e cerca de 85% da área florestal ardida;

* Mais de 500 hectares de terrenos de produção agrícolas afetados, todos em área de minifúndio;

* Destruição significativa de tratores, alfaias, dependências agrícolas e animais (mais de 600 vacas, cabras e ovelhas e mais de cem mil frangos);

* Perdas superiores a 8 milhões de euros na agricultura.

* EMPRESAS: várias pequenas empresa atingidas, mas muito relevantes para a nossa economia:

o Jovens agricultores (frutos vermelhos, estufas ou avicultura)

o Serralharias

o Carpintarias

o Serrações

o Exploradores florestais

o Prestadores de serviços de silvicultura preventiva

o Empresas de construção civil e obras públicas

* HABITAÇÃO

– 1ª habitação: mais de 60 edifícios

– 2ª habitação e outras casas: cerca de 100 edifícios

* INFRAESTRUTURAS E EQUIPAMENTOS MUNICIPAIS

  • 4,75 Milhões de euros de prejuízo
  • Parque de campismo
  • Parque desportivo
  • Armazém municipal
  • Sistemas de abastecimento de água
  • Segurança rodoviária e rede viária
  • Centro de BTT e Percursos Pedestres
  • Iluminação pública, contentores de resíduos, abrigos de passageiros, outdoors, etc.

* INFRAESTRUTURAS FLORESTAIS

–  Necessidades de intervenções de estabilização de emergência pós-incêndio: 12 milhões de euros (recuperação de infraestruturas, controlo da erosão, recuperação de linhas de água e diminuição da perda da biodiversidade).

Entretanto uma enorme onda de solidariedade emergiu ou chegou ao concelho. Gente de toda a parte acorreu a Vouzela para apoiar as vítimas a ajudar à reconstrução do concelho. O município organizou a solidariedade com a colaboração das Juntas de Freguesia, dos párocos e de muitos voluntários.

* APOIO EMERGENTE

  • Entregas diárias às famílias, cerca de 150 famílias foram apoiadas;
  • Mais de 1200 entregas de pastos e rações para animais;
  • Apoio técnico (grande parte dos colaboradores do município estão a apoiar nas ações e operações de recuperarão desta catástrofe).

* AÇÕES / PROPOSTAS IMEDIATAS

* Intervenções no abate, corte e rechega (criar condições e poder de regulação transitório pelos municípios) – evitar erosão e destruição potencial produtivo florestal/ agrícola e contaminação das Linhas de água e rios);

* Não ser permitida a alteração do uso do solo (capacidade regenerativa);

* Auxílio rápido e eficaz aos pequenos agricultores e à agricultura de subsistência (ex. Definir um modelo muito simplificado (via verde) para o pequeno agricultor, ao nível das exigências, processo produtivo e comercialização (mercados locais);

* Com a chegada do Inverno e das chuvas, recomenda-se cuidados com a destruição de terrenos agrícolas e linhas de água.

* Projectos propostos pelo município:

* Cadastro simplificado;

* Banco de terras / bolsa de terras;

* Entidades de gestão florestal / fundos de investimento;

* Oportunidade para fazer um correto ordenamento do território (proteção às aldeias, rede viárias principal, linhas de água) – de forma a diminuir o risco, para daqui a 6 anos não acontecer outro incêndio semelhante e salvaguardar o património (arqueológico e outro).

* OUTRAS PROPOSTAS

* Necessidade de presença de pessoas no interior (apoio à criação de emprego, a importância dos serviços públicos e discriminação positiva (ex. Fiscalidade e portagens);

* Apoiar ainda mais a instalação de novas empresas nos territórios de baixa densidade (ex. COMPETE 2020);

* Compensar os territórios e os proprietários que optem por manter espécies e produções de baixo crescimento e pouco inflamáveis (designado pagamento do Serviço dos Ecossistemas).

As organizações de produtores, nomeadamente a Cooperativa 3 Serras está a fazer o Inventário Florestal das suas zonas de intervenção, está a fazer candidatura para criar nova equipa de Sapadores Florestais e a organizar Unidades de Gestão Florestal, que são um modelo associativo que melhor se adequada à organização dos produtores, em regiões de minifúndio para a gestão conjunta de áreas florestais contínuas por forma a ganhar escala de gestão e planeamento.

Vouzela parece não baixar os braços e reorganizar-se com os olhos postos no futuro. Afinal não está tudo feito, há muito a fazer e, para isso, é fundamental o diálogo e o trabalho em rede e parceria.

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