Vouzela e Oliveira de Frades receberam vistas de todos os partidos, do Governo e do Presidente da República

Projectar o futuro no rescaldo da tragédia

Durante o período pós incêndios de 15 de Outubro os presidentes das Câmaras Municipais de Vouzela e de Oliveira de Frades desdobraram-se a receber visitas de Deputados, líderes partidários, membros do Governo e do Presidente da República. Tudo isto enquanto atendiam as populações e reuniam com diversos organismos da administração pública e com os empresários.

Foram dias difíceis para quem se sentiu a liderar os destinos destes concelhos. Foram muitos e vieram de toda a parte os voluntários e os donativos. Uma imensa solidariedade. Os trabalhadores dos municípios atingidos foram incansáveis, os bombeiros inexcedíveis. As populações, isoladas nas suas aldeias pelo fogo como ilhas pelo mar, organizaram-se e combateram as chamas.

Na solidariedade ficou mais uma vez provado que somos um bom povo, capaz de tudo para ajudar os vizinhos e os amigos em dificuldades. Capazes de mobilizar vontades também para defender e proteger animais selvagens com fome ou feridos em resultado da tragédia. Importa agora saber se conseguimos ter as mesmas competências para reconstruir o território, transformando esta tragédia numa oportunidade de renovação, de planeamento e ordenamento com vista ao futuro.

Do rescaldo dos fogos emerge a dura realidade dos prejuízos e a dificuldade nas respostas

Desde logo a constatação que os incêndios do último verão não foram apenas florestais mas rurais e industriais. Arderam explorações agrícolas, casas e fábricas.

Atender a estes dramas obriga a uma pausa para ponderação e para ouvir todas as partes envolvidas. É necessário compreender as verdadeiras causas da enorme progressão dos fogos para que se possa pensar em medidas de futuros, ou seja de médio e longo prazo.

Mas atender à situação dramática em que se encontram as populações atingidas obriga também a um melhor conhecimento do território e levantamento dos problemas.

Para atender aos prejuízos da agricultura é preciso ter a noção que a grande maioria das explorações agrícolas são se autoconsumo, muitas delas estão fora dos registos do INE – Instituto Nacional de Estatística das que se encontram registada pelo INE 84% são de Muito Pequena Dimensão.

Não parece que esta realidade esteja a ser tida em conta pelo Governo.

Apenas numa semana, de 30 de Novembro a 3 de Novembro, foram publicados no Diário da República 17 diplomas. Na sua maioria medidas avulsas sem enquadramento numa estratégia nacional que atenda às urgências de curto e longo prazo, ou seja, à emergência do apoio às vítimas e à urgência de se programaram medidas estruturais.

Se olharmos para os dados do INE, verificamos que 82% das 69217 explorações agrícolas da Região Centro enquadram-se na categoria de Muito Pequena dimensão de acordo com a classificação do INE. São explorações que apresentam Valor de Produção Padrão (VPP) abaixo dos 8 mil euros. No país estas explorações correspondem a 33% do VPPT e a 84% do número total de explorações.

É justamente este enorme universo de explorações agrícolas que tem sido ignorado pelas políticas agrícolas. Estas explorações estão quase todas fora dos apoios da PAC e com pouca ligação aos mercados.

Contudo, são estas explorações que vão mantendo alguma vida nos territórios rurais.

Nos últimos 10 anos desapareceram mais de 40 mil destas explorações. A sua maioria é gerida por gente envelhecida.

Foi o sucessivo abandono deste tipo de pequena agricultura familiar que provocou um abandono generalizado das pequenas explorações familiares. A floresta deixou de fazer parte da economia destas pequenas explorações e passou a ser um encargo para os seus proprietários, deixou de ter viabilidade económica e a passou a ser um custo insustentável para quem vive de salários mínimos ou mesmo médios. Se olharmos à nossa volta, em Lafões, só as empresas de celulose que aqui arrendaram áreas para plantação de eucalipto e alguns, poucos, proprietários que conseguem ganhar dinheiro noutras actividades, fora da região, conseguem investir na floresta.

Atender às urgências de uma intervenção na floresta implica antes de mais ter uma visão global do território, onde a agricultura acima caracterizada, não tem o maior relevo económico, mas tem o maior relevo na gestão do território e da paisagem; implica olhar para a empresas e criar condições para a fixação de empresas que permitam salários dignos capazes de fixar juventude; implica apostar na organização dos produtores através de associações e de cooperativas para a gestão em conjunto das suas áreas; implica forte apoio público a esta organização; implica criar todas as medidas necessárias para tornar os territórios do interior atractivos para as pessoas e sobretudo para os jovens.

É num exercício de planeamento participado, envolvendo todas as pessoas e entidades implicadas, que se devem encontrar as melhores soluções de futuro.

Urge, pois, parar, ouvir, pensar, planear e só depois executar.

 

Produtores florestais denunciam “cenário de pós-guerra” e apoios insuficientes

“Situação atual é de um cenário de pós-guerra, as medidas em curso são insuficientes para a resolução do problema e os representantes do sector florestal não estão a ser ouvidos”, lê-se no comunicado inédito que junta todas as organizações dos produtores e prestadores de serviços florestais.

8 de Novembro, 2017 – 01:01h

Produtores florestais denunciam “cenário de pós-guerra” e apoios insuficientes

Serra do Açor, no concelho de Arganil, após incêndios de outubro. Foto Esquerda.net.

Pela primeira vez, todas as organizações representantes dos produtores florestais e dos prestadores de serviços florestais lançaram um comunicado conjunto, no qual apelam ao Governo que dê justificada atenção “para a real dimensão da tragédia social e económica resultante dos incêndios de 2017”.

O comunicado, divulgado esta terça-feira, denuncia que a situação nos territórios afetados pelos incêndios “é ainda mais grave do que os meios de comunicação social têm propalado” e que “há medidas urgentes que têm de chegar ao terreno no curto prazo”.

“A situação atual é de um cenário de pós-guerra, as medidas em curso são insuficientes para a resolução do problema e os representantes do sector florestal não estão a ser ouvidos”, lê-se no comunicado inédito, subscrito pelas sete organizações do sector (ANEFA – Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente; BALADI – Federação Nacional dos Baldios; FENAFLORESTA – Federação Nacional das Cooperativas de Produtores Florestais Fcrl; FNAPF – Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais; FORESTIS – Associação Florestal de Portugal; FORUM FLORESTAL – Estrutura Federativa da Floresta Portuguesa; e UNAC – União da Floresta Mediterrânica).

Os representantes do sector florestal reuniram em Coimbra, no passado dia 3 de Novembro e, considerando o momento actual da discussão do OE 2018 e que “o mesmo vai ter um efeito determinante na minimização do impacto dos incêndios catastróficos de 2017”, decidiram emitir o comunicado conjunto, informando a opinião pública do seguinte:

  1. A situação nos territórios afetados é ainda mais grave do que os meios de comunicação social têm propalado;
  2. Há medidas urgentes que têm de chegar ao terreno no curto prazo;
  3. A situação existente é de um cenário “pós-guerra” que exige uma atuação de emergência;
  4. A floresta, a agro-floresta e os produtores florestais raramente são referidos como parte da solução;
  5. Os apoios não chegaram e não se vislumbra que irão chegar no curto prazo;
  6. Há muito trabalho feito na floresta e nos territórios rurais pelo sector agroflorestal e pelas suas organizações, e está maioritariamente a ser feita “tábua rasa” de todo esse capital;
  7. É preciso atuar no imediato e pensar o futuro de forma diferente, tendo em consideração que sem o território e os seus agentes esse futuro vai estar decisivamente comprometido.

As organizações anunciam, por fim, que irão solicitar uma audiência com carácter de urgência ao Primeiro-Ministro e também à Comissão de Agricultura e Mar da Assembleia da República.

O comunicado faz ainda nota de que o total da produção da silvicultura e exploração florestal foi de 1.241 milhões de euros, enquanto que o Valor Acrescentado Bruto (VAB) da silvicultura registou, em 2015, cerca de 893 milhões de euros. Em 2016, as exportações florestais totalizaram 4,7 mil milhões de euros, enquanto que o saldo da balança comercial dos produtos de origem florestal registou um excedente de 2,5 mil milhões de euros.

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