“Vender o coração e o sorriso…”

Manuel Veiga

Num artigo recente, publicado no jornal “Público” (06.08.13), o jornalista José Victor Malheiros traz, com oportunidade, ao conhecimento da opinião pública um caso exemplar da exploração capitalista e da “alienação do trabalho”, da qual o capitalismo sempre se alimentou, mas que, na actual fase do desenvolvimento histórico, assumem expressões inauditas, para não lhe chamar abjectas.

Casos assim e outras contradições de natureza idêntica, em que o capitalismo, na sua dinâmica actual de híper exploração do trabalho, têm fomentado, em alguns meios, a ideia do declínio irreversível do capitalismo, uma vez que já não consegue disfarçar a necessidade de, para sobreviver, ter de “cortar o galho onde se senta”…

Não sei, não! Talvez seja um pouco prematuro contar com a sua morte anunciada. E mais sensato será de, pelo sim e pelo não, procurar, cada um à sua medida, dar um empurrãozinho, antes de se prometer uns trocados para o seu funeral. Mas não é este o assunto que aqui me traz agora, aliás exterior ao conteúdo do artigo referido.

Regressando assim ao tema, procurarei condensar, em poucas linhas, as suas ideias centrais, que ilustram, de forma eloquente, a dinâmica da exploração e dos subtis fios do enredo em que se degrada em mera “coisa” a dignidade trabalho.

De que se trata? Os empregados de uma cadeia mundial de fast food ostentam nos seus uniformes um reluzente “I´ lovin´it”, o que em tradução literal significa “adoro isto”, “estou a gostar disto” e, em denotação semântica ou tradução mais livre, poderá  corresponder a algo como “isto é porreiro”, ou “este trabalho dá-me mesmo gozo”.

O que existe de peculiar nesta campanha é que não “vende” directamente o produto, enunciando as suas qualidades, ou os atributos da marca, ou as suas vantagens competitivas. O slogan foi “colocado na boca dos trabalhadores, criado para que fossem eles a dizê-lo, como se eles o pensassem e o sentissem”.

Não se trata apenas de uma obrigação contratual, que vincule o trabalhador a defender o nome da empresa, como é prática corrente. Agora, não. Quem vai trabalhar para a multinacional em causa não tem apenas que fazer o seu trabalho, ou cuidar de reputação da empresa – “tem de dizer que adora trabalhar ali, ainda que o seu trabalho seja duro, mal pago e precário”.

Como se afirma no citado artigo, “este “I´ lovin´it” obriga todos trabalhadores a declararem activamente, a todo o tempo o seu gosto pelo trabalho que fazem e a sua adoração sobre a empresa que os emprega e a fazê-lo em nome pessoal”.

Trata-se, portanto, de “uma usurpação da consciência individual” (…). “É um abuso – continua o artigo – em termos de direitos individuais (…) porque limita a liberdade do indivíduo e se apropria em benefício do empregador, de algo que é da esfera privada do trabalhador: o seu gosto pessoal, a sua liberdade de declarar o que gosta ou não gosta”.

Vemos assim a empresa apropria-se assim da alma e do coração das pessoas, que para ela trabalham, como quem as marca com um ferrete: “estas pessoas pertencem-me”. Como meras coisas ao dispor… Os trabalhadores são assim usurpados, já não apenas do seu próprio trabalho, condição de sobrevivência e cidadania, mas também da sua própria personalidade e dignidade.

Neste contexto, julgo ser ainda de referir que, apesar da cada vez maior produtividade do trabalho, graças às tecnologias, a evolução tem sido sempre no sentido de aumentar o tempo de trabalho, isto é, cada vez menos trabalhadores a trabalharem cada vez mais.

Assim, o mais dramático da situação actual e o pior mal que o capitalismo faz aos homens não será apenas a exploração e alienação do trabalho – mas também a expulsão do processo produtivo de cada vez maiores massas humanas.

Que outro nome para a escravidão?