Vasco Paiva
O DESPERTAR DAS MONTANHAS

O DESPERTAR DAS MONTANHAS
No final da década de 1960, a “pacatez” do meio rural e das montanhas foi interrompida, porque os povos ficaram fartos dos abusos das autoridades e de serem oprimidos. Decidiram tomar o destino nas suas mãos e afirmar bem alto que “nada se faz sem a vontade do povo!”
– Tudo o que se pretenda realizar aqui, tudo o que se pretenda modificar, terá de obter a nossa participação. Se o interesse directo das populações não entrar em jogo, tudo falhará. Sempre foi assim.[1]
O mais provável é que o autor desta frase, no momento da entrevista, a tenha dito de uma forma espontânea, como um grito de revolta, sem antever o seu significado mais profundo.
Mas ela reflecte a realidade de todas as lutas dos povos em todos os tempos. E esteve também presente, como ideia-mestra, nas acções dos activistas que animaram as lutas aqui referidas. Foi uma atitude natural, própria de quem conhecia bem o meio e as gentes.
No final dos anos 60 do século passado e início da década de 70 renasceram, na região do Vouga, as lutas dos agricultores em particular dos povos das montanhas pela recuperação dos baldios e contra a prepotência dos Serviços Florestais e muitas outras. Tiveram início na região de Talhadas (Sever do Vouga) e rapidamente se espalharam a freguesias e concelhos vizinhos, Vouzela e outros. Umas lutas animaram outras. Não teriam sido possíveis, com a adesão que tiveram, se os agricultores e os povos não acreditassem na sua justeza e não as assumissem como suas. Também não teriam sido possíveis se não confiassem nos técnicos e activistas que os apoiavam. O mérito é, em primeiro lugar, de todos os agricultores e povos que nelas participaram e dos quadros, técnicos ou outros, que intervieram com o seu saber.
Uma grande luta é feita de pequenas lutas. Por vezes pode parecer que são muito pequenas, com objectivos limitados e pouco ambiciosos, mas todas juntas ganham dimensão e transformam-se em batalhas que se travam, como se viu, com resultados palpáveis, avanços, conquistas, êxitos… Cada uma dessas lutas, à sua medida, foi heróica, exigiu coragem e determinação. Quem nelas participou correu riscos, houve quem fosse vítima da repressão. Tiveram de saber juntar forças, tiveram de saber reagir a alguns insucessos, mas das suas acções corajosas e determinadas resultaram importantes vitórias.
Nesta obra são abordadas as lutas dos povos das montanhas: pela reconquista dos seus baldios, pela recuperação do comboio do Vouga e por indemnizações após um terrível incêndio rural. Abordam-se também as lutas dos produtores de leite e/ou de gado, as dos produtores de vinho, contra a taxa do vinho e pela liberalização do vinho americano, ou os da batata, as dos avicultores e da Cooperativa Agrícola de Lafões, e alguns passos da construção do movimento cooperativo dos produtores de leite, de madeira e outros. Descreve-se não apenas a sua ocorrência, e os activistas que as animaram, mas também a forma como foi possível a sua realização, os insucessos e os sucessos, as vitórias que se alcançaram e as que ficaram à espera que acontecesse o 25 de Abril.
As acções e iniciativas relatadas em O Despertar das Montanhas dizem respeito fundamentalmente à região do Vouga e resultam do conhecimento directo, de apontamentos pessoais, de algumas conversas para clarificação de factos, de cópias em papel de segundas vias das exposições e abaixo-assinados enviados ao governo, de alguns documentos publicados, de relatórios internos do Partido Comunista Português (PCP) mais pormenorizados e ainda da consulta dos números publicados do jornal clandestino A Terra. O livro inclui ainda as exposições que foram feitas pelos povos e agricultores e vários documentos da época, alguns inéditos.
Essas lutas foram o despertar dos povos das montanhas e dos agricultores na região do Vouga que se prolongaram até à madrugada libertadora do 25 de Abril de 1974.
Vasco Paiva
Eng. Florestal
O Despertar das Montanhas
Ed. Lápis de Memórias, 2020
geral@lapisdememorias.com
[1] António Afonso de Pinho, Presidente da Junta de Freguesia de Talhadas do Vouga em entrevista ao Diário de Lisboa, publicado em Ocupação Sem Limites de Armando Pereira da Silva (1973: 58).
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