Vasco Paiva

Controlo de matos ou empresa de limpeza e aspiração ao domicílio?

Dizia-me, e com razão, um amigo: para que andamos a estudar, fazer um curso de silvicultura e continuar pela vida fora a estudar as situações na floresta e como as resolver?

Bastava-nos tirar um curso de limpeza e aspiradores e pelos vistos resolvíamos a situação dos fogos, da floresta, do desenvolvimento rural, do País todo!

Vem isto a propósito do Decreto-Lei nº 10/2018 que “Clarifica os critérios aplicáveis à gestão de combustível no âmbito do Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios”… clarifica!!!…

“No estrato arbóreo a distância entre as copas das árvores deve ser no mínimo de 10 m nos povoamentos de pinheiro bravo e eucalipto”… se estudassem sabiam que quando as copas estão fechadas, a radiação solar não penetra e é menor a existência de matos.

Distância de 10 m entre copas vai provocar menos ensombramento. Menos ensombramento vai originar mais vegetação sob coberto. Vai originar mais matos e ervas, proporciona aumento da velocidade do vento, faz reduzir a humidade do combustível.

Resultado:

– as árvores não deixarão de arder;

– obriga a mais intervenções, e mais caras, para gerir o combustível (os matos);

– reduz a receita, em material lenhoso, dos proprietários florestais.

Nas outras espécies impõe uma distância de 4 metros, vai dar ao mesmo. Quem por exemplo quiser constituir uma sebe alta com cupressus (impropriamente conhecidos por cedros) não o vai conseguir.

Na redacção deste decreto participou algum florestal? É muito difícil que tenha o contributo de quem tenha estudado a sério e feito da sua vida profissional os assuntos da floresta.

O Decreto impõe a desramação até 50% da altura da árvore até que esta atinga 8 metros de altura e a partir daí tem de ser desramação até aos 4 metros. A desramação é uma operação que só se deve fazer quando a espécie não faz desramação natural. O pinheiro bravo e o eucalipto fazem essa desramação. É uma operação cara que só se realiza quando se pretende obter madeira de elevada qualidade, isenta de nós. Em árvores que queremos a produção de fruto, como por exemplo o pinheiro manso, gostava de saber como o aplicam…

Mais…

“No estrato arbustivo (leia-se matos) a altura máxima da vegetação não pode exceder 50 cm”, como é que isso possível por exemplo com giestas, medronheiro ou outras?… vão andar a podar o mato? E o estrato subarbustivo (leia-se ervas) só pode ter um palmo, 20 cm. Os animais vão morrer à fome.

Como é possível decretar-se isto de uma forma cega? Sem olhar as características da vegetação de cada um dos locais?

Já se pensou que há outras formas, mais adequadas para controlar a vegetação? Já se pensou que a vegetação faz falta à saúde dos espaços florestais? Já se pensou que a vegetação também é nutrientes? Que se retiram os nutrientes a floresta, empobrece o solo e as próprias árvores? E que algumas pragas na ausência desse tipo de vegetação vão para as árvores?

Este Decreto é um tratado de ignorância!

A sua (má) divulgação pela Autoridade Tributária e Aduaneira, leia-se Finanças, assusta, intimida. Para já gera pânico e dispara os custos especulativos da “limpeza de matos”, como já é notícia no município de Tomar, ou incentiva a que as pessoas comecem a vender os seus terrenos a qualquer preço.

O cúmulo, quanto a mim, é sugerirem (vá lá não impõem) a criação de “uma faixa pavimentada de 1 a 2m de largura, circundando todo o edifício”. Quem escrevinhou isto alguma vez pensou em custos e para que serve? O fogo “assusta-se”? Já agora não querem mandar alcatroar as florestas?

Tenho muitas dúvidas que este Decreto venha a ser aplicado e já muitas vozes se levantam contra este temendo disparate. Por favor ouçam os técnicos e a comunidade científica antes de se porem a parir disparates!

Em 20 de Julho do ano passado e em 27 Janeiro deste ano escrevi aqui o que penso serem as medidas necessárias para o controlo da vegetação, a prevenção e a redução de riscos de incêndios. Não os vou repetir, apenas insistir que não é desta forma, que não é com perseguições, imposições sem suporte técnico ou científico, com coimas e multas que se resolve. É com conhecimento e saber técnico e científico, com aconselhamento técnico, com organização em escala menor, do município, com apoio financeiro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.