Uma viagem no tempo com Maria Dorinda

Mais um testemunho de vida no "Em Rede pela Vida"

Chama-se Maria Dorinda, tem 76 anos e vive na aldeia de Fragas, Aveloso, no concelho de S. Pedro do Sul. A mesma protagonista relata-nos duas histórias. Dois tempos díspares. Um o presente, outro o passado. Um do tudo e outro do nada. Em ambos a receita é a mesma: a felicidade. Neste em Rede pela Vida conheça mais um testemunho que é um exemplo da arte de saber viver.

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Maria Dorinda tem 76 anos e não gosta de estar parada. Todos os dias tem uma agenda apertada entre os diferentes afazeres. Não se precisa de esforçar muito, logo lhe aparece distração. As mãos são de artesã. Gosta de imaginar, descobrir, criar. Anos a fio a cultivar a terra deram-lhe o gosto, de sentir os sabores, a brisa, a paz de quem está em simbiose com a natureza. Por isso, hoje, continua a produzir. Pequenas quantidades, muito diferente de outros tempos, só para matar saudades e para entreter. Por estes dias, anda a pisar vinho.

Recuamos no tempo apressadamente. Para a nossa protagonista trata-se de uma viagem longa, um mundo diferente “que se for a contar aos mais novos eles não acreditam”. É por isso que, durante a nossa conversa são várias as vezes que quer ter a certeza que, realmente, percebemos aquilo que nos conta. “Sabe o que é caruma não sabe” começa; “filha, sabe o que é lavrar”, pergunta mais à frente. Acenamos que sim e Maria Dorinda continua.

Uma viagem a um tempo diferente

Foi aqui, nesta mesma aldeia, que Maria Dorinda nasceu. “Numa casinha muito velha e humilde, feita de barro com palha, não havia tijolos”, era a última de 12 irmãos. Os pais viviam do que a terra lhes dava e não havia mãos a medir para a tanto trabalho. Por isso, desde muito cedo, Maria Laurinda habituou-se a ajudar os pais. “Trabalhávamos muito, antes e depois da escola, era só à hora do recreio que nós conseguíamos ter um bocadinho para brincar”, recorda.

Por isso, nem sempre era fácil conseguir tempo para fazer os trabalhos de casa. “Enquanto havia luz, havia sempre muito trabalho para fazer, quando escurecia, não havia luz elétrica. A minha mãe tinha um candeeiro a petróleo, mas nem sempre tínhamos petróleo para o usar. Às vezes acendíamos uma pinha e colocávamo-la em cima de uma pedra e era essa a única luz que tínhamos”, confessa.

Outras vezes, era a caminho da escola que se arrematava os últimos exercícios. “Eu ia pelo caminho com a lousa a fazer as contas, para levar os trabalhos de casa feitos. Só que uma vez, deixei cair a lousa e levei uma grande tareia da minha mãe, não havia dinheiro para comprar outra…” lamenta.

Uma sardinha para três

Não havia fartura. A metáfora era aqui bem real e, muitas vezes, uma sardinha tinha mesmo que dar para três. “O peixeiro trazia sardinhas e era costumes nós trocarmos um ovo por uma sardinha, era mais fácil dividir”.

De todas as memórias de dificuldades há uma que guarda no fundo do coração. Hoje, é ainda com o semblante contraído e com os olhos a escorrer lágrimas que relata o episódio. “Houve uma vez que não tínhamos nada para comer, nem dinheiro para comprar. Nem fósforos tínhamos, íamos à vizinha com um bocado de caruma e era assim que acendíamos o lume. A minha mãe pôs uma panela ao lume e disse ao meu pai para ir pedir a um vizinho um bocado de farinha. Ficámos ansiosos a aguardar. Quando o vimos, a minha mãe perguntou logo: trouxeste a farinha? Ele abanou os ombros, disse que não. Não lhe arranjaram nada. Tirou-se a tampa do lume e fomos todos para a cama sem comer”. O silêncio marcou aquela noite, foi dura, mas foi também um ensinamento das dificuldades que a vida traz.

Exatamente no ponto oposto, uma das suas melhoras memórias foi quando a sua mãe lhe ofereceu um fio de ouro. “Vendeu uma vitela e, com o dinheiro que fez, comprou-me um cordão de ouro. Tinha ajudado a minha mãe a criá-la e ela quis recompensar-me, foi uma prenda das grandes”, destaca.

Memórias, mais memórias todas elas vertidas na foto de família, uma das poucas recordações daquele tempo. “Arranjamo-nos todos e fomos a pé até S. Pedro para tirarmos uma fotografia. Custou um dinheirão na altura”.

Os primeiros sapatos

Com treze anos, Maria Dorinda rumou à capital para ser operada. Uma notícia não muito agradável, mas que lhe valeu os seus primeiros sapatos. Até aí, no verão e no inverno, era os pés que tocavam diretamente no chão. “Os primeiros sapatos que tive foi quando tive que ir para o hospital, em Lisboa. A minha mãe comprou-os em segunda mão. Tinha, na altura, 13 anos. Antes disso, andava sempre descalça, o que no Inverno não era nada fácil,” recorda.

A tecnologia que se estranhava e se entranhava

Maria Dorinda cresceu numa casa que não tinha luz elétrica. Chegou vários anos depois. Mais tarde, houve uma novidade que pôs a aldeia em rebuliço um rádio. “Havia um senhor que era rico e tinha uma parabólica, através da qual se ouvia a rádio. Vínhamos muitas vezes a correr pedir-lhe para ligar o aparelho. Os mais velhos não achavam muita piada, mas nós adorávamos ouvir as músicas e dançar”.

Namorar por cartas

A rádio já tinha chegado, o telemóvel e a internet ainda não. Naquele tempo, não era nada fácil namorar à distância, mas, Maria Dorinda fê-lo com sucesso. O namoro deu lugar a um casamento que se encontra de boa saúde até aos dias de hoje. Já lá vão mais de 50 anos. “Só peço a Deus que os jovens de agora tenho a sorte que eu tive”, defende.

Voltemos às cartas. Mal as enviava, já esperava a resposta. Mais que minutos esperavam-se dias, até que a alma gémea lhe relatasse as novidades. O tempo demorava a passar, todos os dias o coração batia mais forte quando ouvia o correio a chegar. “Estava a sempre de ouvido alerta, sempre a olhar para o caminho para ver se o correio chegava, depois ia a casa da minha tia e perguntava-lhe: ó tia augusta tem alguma coisa para mim? Ela respondia-lhe, não filha, volta amanhã. Era assim”, relata.

As rotinas da aldeia

O começo e o final do dia era marcado pelos sinos da aldeia. “O grande tocava seis e o pequeno três vezes, tocava de manhã cedo para as pessoas irem trabalhar e ao final do dia para recolherem.” Como explica Maria Dorinda era uma questão de respeito. “Rezávamos três ave-marias, os homens tiravam o chapéu”. Hoje o sino, ainda toca, mas os habitantes ouvem-no com indiferença. Muitos, nem sabem qual é o significado. Tradições que passam, mas não se esquecem. “As roupas que se lavavam no rio e que vinham a cheirar que era um mimo” ou “as horas a fio que passava a cortar às tirinhas farrapos para depois as levar ao tear” são memórias que recorda com ternura. “Ainda tenho uma manta que trago sempre no carro que fiz no tear, na minha juventude, só com meias de vidro”, salienta.

Das janeiras aos santos populares, animação garantida

Se é verdade que os tempos da sua juventude foram tempos difíceis, a verdade é que foram, ma mesma proporção, tempos de muita alegria. Fragas Aveloso era uma aldeia com muita vitalidade, havia muitos jovens e facilmente havia sempre que fazer.

Na quadra natalícia juntavam-se todos para cantar os reis. “Davam chouriças, couves… ninguém dava dinheiro”. Depois de correr o lugar juntavam-se todos e faziam, com a colheita, uma grande jantarada. Também no Carnaval a juventude ia de porta em porta, mascarados, com as caras todas enfarinhadas para não serem descobertos.

Já o dia do S. João era de pôr os cabelos em pé aos mais velhos. A véspera era noite de maroteiras e não havia vaso ou carroças de bois que escapasse. Houve uma vez que juntos criaram uma marcha e nesse dia desfilaram pelas ruas. “Fizemos os arcos, arranjamos as roupas, cantávamos e dançávamos. Não compramos nada, usávamos aquilo que tínhamos… Lembro-me da mãe de uma amiga ter-lhe dado um sermão enorme, porque ela tinha cortado um lençol todo às tiras”, conta sorridente.

Havia, ainda a desfolhadas que eram uma “grande galhofa”, o momento mais esperado era quando alguém encontrava o milho rei, se bem que “não se podia abusar muito porque os pais estavam sempre de olho”, confessa.

A máquina do tempo parou. Estamos de regresso ao presente. Nesta viagem, conhecemos dois tempos tão díspares que parecem ter sido vividos em mundo diferentes. Não foram, foram os dois aqui, em Fragas-Aveloso e tiveram os dois a mesma protagonista: Maria Laurinda. “Hoje é tudo muito diferente. Hoje como o que me apetece, o que faço é porque me apetece, antes não… comia o pouco que havia, e tinha que trabalhar muito todos os dias, quer me apetecesse quer não”, explica.Redação Gazeta da Beira