Uma novilha prenha foi morta e devorada por alcateia

Novos relatos de ataques de lobos

Segundo relatos, à Gazeta da Beira, de diversos agricultores criadores de gado de Gestosinho e de Gestoso, da freguesia de Manhouce, alcateias de lobos voltaram a atacar os seus animais, desta vez um bovino adulto da raça arouquesa.

terrasFoi na semana passada, no Gestosinho, enquanto a pastora deixou as três vacas que pastoreava sozinhas no monte para ir a casa almoçar que ocorreu o último ataque conhecido naquela serra.

 Após buscas incessantes conseguiram, no final do terceiro dia, com a ajuda das vacas sobreviventes, encontrar o pouco que restava da novilha prenha.

 As poucas pessoas que ainda vivem em Gestosinho, com base nas reformas e na criação de gado, vivem apavoradas com os prejuízos e com a ideia de que alguém venha a ser atacado. Têm mesmo muito medo. No inverno, com o nevoeiro a serra torna-se mais perigosa deixando os animais mais expostos ao ataque dos lobos.

 “Vocês são a favor dos lobos ou das pessoas?”: – Esta foi a primeira frase do nosso principal interlocutor.

 cabrinhasEste é o debate que urge fazer. Não poderá haver uma posição que seja a favor dos lobos e das pessoas? Numa terra que num passado pouco longínquo teve uma escola primária com 30 crianças e um posto de recolha de leite de vaca vivem agora cerca de 20 pessoas e a reforma dos mais velhos tem grande peso das famílias, a criação de riqueza a partir da terra, nomeadamente a criação de gado, é absolutamente fundamental para fixar a pouca gente que ainda resta. Apenas duas crianças, que se deslocam diariamente mais de 20 quilómetros para estudar, continuam a dar alguma esperança a esta terra.

 A história de Gestosinho é igual à de tantas outras ladeias da Serra da Gralheira que a cada dia que passa vão perdendo população e vendo aumentar uma situação de desespero relativamente aos prejuízos nos seus rebanhos que atribuem aos lobos.

 Alguns afirmaram terem recebido visita de técnicos do ICNB que comprovaram a origem do ataque mas que o subsídio que tarda em chagar não é solução para os graves problemas que enfrentam.

“As medidas legais e administrativas para proteger os lobos, deveriam também prevenir os estragos delas resultantes nos rebanhos e consequentemente na economia da aldeia. Os terrenos são nossos; por isso deveriam ser tomadas medidas para que os lobos não inviabilizem a manutenção neles dos nossos rebanhos” – afirma um dos nossos entrevistados que preferiu manter o anonimato. Sentimos medo nas pessoas, medo de falar. Só porque fomos acompanhos de gente da terra conseguimos chegar á fala com os principais lesados.

Pelo que observámos e nos foi relatado os lobos não podem subsistir apenas com a caça de animais selvagens existentes na serra, porque, além de serem normalmente em número insuficiente, dos sucessivos incêndios anuais agravados nos últimos verões, tem resultado ataques mais frequentes e com maior intensidade aos rebanhos.

Em próximas edições a Gazeta da Beira voltará a este tema procurando aprofundar este debate com contributos de diversas entidades implicadas na preservação dos lobos e na promoção do desenvolvimento económico e social das aldeias da serra. É urgente por fim a esta situação insustentável para as pessoas que ainda vivem na serra e para isso é preciso encontrar políticas capazes de promover a necessária compatibilização entre o pastoreio de montanha e a vida selvagem.

Por agora publicamos um contributo para este debate que resultou de processo de discussão com os caprinicultores de Covas do Monte.

Algumas Considerações 

cab 2Há que considerar que a economia de Covas do Monte depende da caprinicultura. Nesta aldeia mantém-se a tradição de maneio colectivo dos rebanhos no sistema de vezeira, ou “parceirada” como aí se designa, que consiste em organização informal pela qual cada criador de gado contribui com determinado número de dias de pastoreio por semana em função do número de animais que cria. Nesta terra já existiram mais de 2000 cabeças de gado. Actualmente o efectivo está reduzido a 600. O envelhecimento da população e os sucessivos ataques dos lobos têm levado a significativa redução da caprinicultura e a desistência da actividade por cada vez maior número de criadores.

Esse facto inviabiliza este sistema de maneio colectivo que é fundamental para a manutenção dos rebanhos de caprinos na aldeia.

O sistema de subsídios atribuído pelo ICNB que existe não resolve o problema, porque não assegura a reposição dos efectivos pecuários.

É de referir também que os ataques dos lobos acontecem apesar de serem usados cães pastores no acompanhamento dos rebanhos.

A situação factual existente obriga a pôr a questão da necessidade de harmonizar os interesses conflituantes entre a preservação das alcateias de lobos e a economia das populações residentes na serra, que se não puderem manter aí economia viável terão que abandonar a sua aldeia.

É preciso pensar em medidas de protecção dos lobos que não ponham em causa a subsistência económica das populações nas aldeias serranas. Sendo as cabras a base da economia da serra, se a caprinicultura acabar, as pessoas terão que emigrar, ficando desertas as aldeias e também lobos sem cabras para caçar.

 Algumas Propostas 

É pois urgente pensar em novas soluções para resolver o problema da compatibilização da economia das aldeias da serra com a subsistência das alcateias locais de lobos que actualmente são interdependentes.

A solução será a criação de parques para ordenar o pastoreio no monte local (baldio e terrenos privados). O parqueamento pode ser feito em rede de arame com cerca de um metro e meio de altura encimada por uma ou duas fiadas de arame farpado suportadas por postes de cimento para resistir a eventuais incêndios. Estes parques terão que ser dotados de um ou mais pontos de água para abeberamento dos animais, devendo ter área de cerca de cem hectares de acordo com as potencialidades forrageiras naturais e o tipo de relevo. Entre os parques dever-se-ão deixar corredores suficientemente largos para permitir a livre existência e circulação da fauna selvagem, incluindo os lobos.

Desta forma os animais poderão ser mantidos em pastoreio nas cercas acompanhados de cães pastores treinados em número suficiente e com coleiras defensivas contra os lobos. Assim ficarão os rebanhos livres de ataques de lobos ou de outros predadores e os pastores libertos do trabalho duro de acompanhar permanentemente os rebanhos, que, como se refere acima, é feito em sistema de vezeira.

O parqueamento permitirá a sobrevivência e o desenvolvimento da caprinicultura na serra com menor esforço humano e sem dependência necessária do tradicional sistema de maneio colectivo. Ou seja, mesmo que os mais velhos desistam por via da idade, os restantes poderão assegurar o pastoreio sob esta proposta forma menos exigente em trabalho penoso e que impedirá os ataques dos lobos, ou reduzirá muito os correspondentes prejuízos.

Além disso, se a fauna natural nos montes for insuficiente para assegurar a alimentação das alcateias, ela pode ser complementada com a aquisição com reduzidos encargos de animais de refugo (cabras) directamente pelo ICNB ou mediante acordo com a autarquia ou autarquias, dado que os animais de refugo têm reduzido valor.

Complementarmente o sistema de parqueamento referido para os pastos de serra, se for eficientemente gerido com permanência dos rebanhos em cada parque durante o tempo necessário ao seu pasto arbustivo ser bem reduzido antes de passarem para o parque seguinte, isso contribuirá de forma decisiva para prevenir incêndios e o seu fácil alastramento, se ocorrerem.

Na aplicação das medidas do Programa de Desenvolvimento Rural para 2014/2020 dever-se-á ter em conta a possibilidade de financiamento deste tipo de acções.

 Seria oportuno aprofundar estas propostas e discuti-las com a população interessada para aferir da sua justeza e aplicabilidade e eventual correcção ou enriquecimento delas.

Redação Gazeta da Beira

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