Um retrato de vida de mulheres rurais (de anos passados até aos dias de hoje).

Equipa do PROJETO GIESTA- Mulheres e Raparigas do Interior e do meio Rural: Promover a Igualdade

 

Fotografia: Carlos Augusto Mendes

Na última sessão de sensibilização/capacitação, dinamizada por Manuela Tavares, o tema discutido foi “História dos Direitos das Mulheres”.

Esta atividade reuniu mulheres em diferentes aldeias (Covelinhas, Rompecilha e Aveloso), devido à pandemia, como forma de proporcionar maior segurança às participantes.

Nesta sessão, começou-se por assinalar direitos que há 50 anos atrás não eram reconhecidos como tal: A inexistência de licença de maternidade, a negação do direito ao divórcio, a impossibilidade de votar ou o facto de não se poder exercer uma profissão sem autorização do marido. Muitas das mulheres presentes relataram que viveram na pele estas privações e submissões que o regime e a sociedade portuguesa da altura impunham.

Posteriormente, foram mencionados factos da vida das mulheres que há 100 anos atrás eram a realidade de cada uma delas: Terem como único destino casar, ter filhos/as e cuidar da família; Mulheres casadas não poderem gerir os seus bens, mesmo que fossem de herança; Não terem direito à educação, nem a trabalhar fora de casa. Nestes períodos de repressão e de invisibilidade face às mulheres, muitas delas impuseram-se e criaram os seus espaços para reivindicar direitos, foi o caso na altura da Revolução Francesa, sec. XVIII, na I República, século XX, e no Estado Novo, século XX, também.

O período histórico do pós Revolução de 25 de Abril de 1974 foi o tema mais aprofundado no que se refere à História dos Direitos das Mulheres, pois muitas das presentes viveram a Revolução e recordam os acontecimentos vividos. Nestas aldeias do concelho existe uma forte inclinação para imigrar para Lisboa, daí o debruçar sobre estes tempos com as memórias, ainda, muito presentes. Entre algumas das questões às quais foram abolidas restrições estão: O acesso ao voto por parte das mulheres (Decreto Lei 621”/74 de 15 de nov.); Abolição do marido abrir a correspondência das mulheres (Dec.lei 474/76 ); Criação das primeiras consultas de planeamento familiar (Despacho da Secretaria de Estado da Saúde) e aprovação da licença de maternidade de 90 dias.

Relativamente aos problemas que Abril não resolveu, mencionou-se a violência contra as mulheres ou a entrada da cidadania no espaço privado e a interrupção voluntária da gravidez.

Nesta altura foi possível a abertura de um debate em que as presentes afirmaram o quão recorrente era, até mais do que hoje, a violência exercida dos maridos/companheiros sobre as mulheres. De tanto que era um assunto tabu, não havia sequer a hipótese de denunciar. Naquela altura, se uma mulher sofresse agressões físicas, já sem mencionar as verbais e emocionais, havia a ideia enraizada de que o que havia a fazer era aguentar e calar. De preferência não responder a nada que pudesse enervar o marido, disseram.

Para além do que foi referido anteriormente, outro aspeto que, na altura e ainda hoje perdura são as diferenças salariais de homens e mulheres no desempenho dos mesmos trabalhos. Referiram que em Lisboa, nas fábricas, as mulheres ganhavam menos que os homens e que era muito mais ostracizadas e discriminadas do que eles apenas por serem mulheres. Nas aldeias, hoje, um homem e uma mulher, no que respeita a trabalhos agrícolas, recebem compensações diferentes, sendo que o homem é sempre mais privilegiado e isso não é uma questão que cause estranheza às pessoas da terra, afirmaram.

As mulheres tinham a vida muito dificultada: a somar à sina de donas de casa, sem dinheiro próprio, dependentes financeiramente dos maridos, lá se iam remediando com misturas caseiras e chás de folhas para tratar alguns males, nomeadamente, infeções vaginais e outras, quando não tinham possibilidade de consultar um ginecologista, num mundo rural, onde nem sequer pensos menstruais existiam.

Questionadas, as mulheres que na altura da Revolução do 25 de Abril viviam nas aldeias, sobre como viveram esse momento ou quais os impactos dessa mudança na sua localidade, algumas responderam que nestes sítios chegava muito pouca coisa (informação) e aquilo que se sabia chegava através da rádio.

Nas aldeias, a seguir ao 25 de Abril, vivia-se da mesma forma como se vivia na ditadura. Estas são aldeias muito remotas e cada família ia vivendo muito humildemente, contando os tostões da pobreza, sem rebelião, por isso, a PIDE não vinha aqui parar.

Outras mulheres, que agora voltaram à terra mas que viveram o 25 de Abril de 1974 em Lisboa, contam que foi um período de libertação, onde a maior liberdade foi o fim do medo, a sensação de nunca se estar seguro.

A ideia com que se concluímos a sessão foi a de que os direitos das mulheres são uma luta constante em que neste momento se usufrui dos direitos conquistados e se continua a lutar por direitos iguais mas, que a qualquer momento esses direitos poderão ser postos em causa e até mesmo negados. As mulheres, nesta sociedade patriarcal, são seres humanos brutalmente discriminados e inferiorizados unicamente pela sua condição de mulheres.

 

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