“Temos que fazer alguma coisa para mostrar aos turistas aquilo que temos, e para que esses turistas também deixem algum dinheiro em Manhouce

Entrevista a Carlos Laranjeira

 

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Numa altura em que a Gazeta da Beira, numa perspetiva de valorizar a “política de proximidade”, tem dado destaque a vários presidentes de junta da região. Aproveitamos o facto de Manhouce estar, por estes dias, no centro das atenções e estivemos à conversa com Carlos Laranjeira, Presidente de Junta de Manhouce. O balanço do mandato, o futuro e as prioridades da freguesia, a oportunidade do Turismo em Manhouce em destaque, neste entrevista exclusiva ao nosso jornal.

Gazeta da Beira (GB) – Voltemos atrás no tempo, aquando da sua candidatura, o que é que o levou a candidatar-se a presidente da junta?

Carlos Laranjeira (CL) – Eu não queria ser. Eu fui desafiado pelo atual presidente da Câmara e disse-lhe que não. Depois, passado um mês, apareceu-me um grupo de amigos que me convidou para um jantar em Manhouce e eu sabia que no fim desse jantar eu estaria como candidato à Junta de Freguesia de Manhouce. E digo-lhe, hoje, faria exatamente o mesmo. Não me arrependo de nada do que fiz.

GB-Foi eleito presidente da junta de Manhouce há cerca de ano e meio. Até agora, que balanço pode ser feito?

CL-Eu não posso estar a fazer o balanço ao meu trabalho. Eu, pessoalmente, sinto-me feliz por ser presidente da junta da terra onde nasci e o “feedback” que tenho recebido é que estamos a fazer algum trabalho. Estamos a fazer algumas obras, a Câmara Municipal também tem colaborado connosco, as pessoas da freguesia tem colaborado connosco. A junta de freguesia é uma verdadeira equipa, até àqueles que chamam de “oposição”. Manhouce não tem oposição, houve duas listas que concorreram, houve uma que ganhou, mas, hoje, todos os membros da Assembleia de Freguesia estão empenhados, são uma mais-valia para a freguesia, estamos em sintonia pelo melhor da nossa terra. O balanço é, portanto, positivo.

GB-Pode dar alguns exemplos daquilo que foi e vai ser feito?

CL- Nós no primeiro ano fizemos algumas pequenas obras: tapar os buracos e pouco mais. De tudo o que foi feito, gostava de salientar a antena que está, agora, a funcionar em Manhouce. É muito importante para as pessoas das freguesias. Antes, quando ligava para Manhouce sabia que podiam não atender, que em vez da voz que queria ouvir, podia ouvir uma voz desconhecida a dizer que de momento não podiam atender. Agora, sempre que ligo para alguém de Manhouce tenho a certeza da voz que vou ouvir. Era uma das promessas do meu programa eleitoral que já cumpri, o que me deixa muito feliz.

Este ano, na minha opinião, temos objetivos bem definidos. Antes, estava em Manhouce, e chegava lá um autocarro de turistas e eles perguntavam: “-Então aqui a que é Manhouce?” E eu respondia: “É!”. “-O que é que tem para ver”- diziam e eu calava-me, fazia uma pequena pausa e respondia “Temos um rio com água limpa e boas paisagens”. Continuamos a ter, mas temos que fazer alguma coisa para mostrar aos turistas aquilo que temos, e para que esses turistas também deixem algum dinheiro em Manhouce. Temos que, para isso, abrir portas a novos comerciantes que possam abrir na freguesia lojas de produtos. Nesse sentido, uma das nossas apostas é fazer candidaturas para que possamos fazer um Museu, alguns trilhos… No fundo descobrir aquilo que temos escondido em Manhouce. Por exemplo, nós temos lá o Cruzeiro da Independência, no meio da montanha, lindíssimo, que poucos conhecem.

GB-Concretamente com o museu, o que é que projetam fazer?

CL-Desde há muitos anos para cá, Manhouce tem muita cultura ligada ao folclore, é a segunda aldeia mais portuguesa de Portugal. Isto, contudo, está tudo guardado nas malas. Já há muito tempo que ouvimos falar que devíamos fazer um museu, mas, até agora, ainda ninguém avançou. Nós já compramos um terreno e estamos a trabalhar muito nesse projeto. O museu seria, portanto, ligado ao folclore, à fotografia, à cultura… Com isto queremos que as pessoas cheguem a Manhouce e vão possam ficar a conhecer os usos e costumes da Terra, conhecer a nossa história. Sejamos realistas, deixar também algum dinheiro…Nesse Museu queríamos, também, inserir o Posto de Turismo. O mesmo funcionário poderá assegurar as duas funções e é uma forma de termos o espaço aberto todo os dias, de lhe dar vida. Queremos, ainda, inserir, nesse espaço, também, uma loja para venda de produtos regionais que venha apoiar, também, os nossos agricultores. Esse ponto de venda é para arrancar já, embora num sítio provisório, já em outubro.

GB-O turismo é, portanto, uma prioridade?

CL-Claro. Se houver turismo em Manhouce eu estou a abrir portas para que, em Manhouce, se possa viver melhor. As pessoas podem criar o seu negócio, vender o artesanato, vender o mel, a broa, os restaurantes venderem a vitela…Manhouce tem uma marca conhecida a nível nacional. A única realidade que ainda vamos conseguindo “vender” são as vozes. É a muita qualidade que temos de vozes de várias pessoas, de vários grupos. Contudo, os grupos estão sozinho e sozinhos não conseguem trazer rentabilidade para Manhouce. Temos que mudar esta situação, criando mais-valias, mais ofertas. Queremos, aproveitar, os talentos que temos na nossa Terra para que eles nos possam ajudarem, mas no fundo, estamos, também a ajudá-los.

GB- Fala-se cada vez mais da desertificação e da morte do Interior. Tendo em conta que é cada vez uma realidade mais visível na região e centrando-nos na situação de Manhouce, isso assusta-o?

CL- Assusta-me. Há mais ou menos 10 anos atrás, uma geração acima da minha e mesmo da minha, foram para França, aí com uns 16, 20 anos. Voltaram para Manhouce com um pé-de-meia, cada um criou um negócio. Começaram a trabalhar bem, mas não conseguiam encontrar financeiramente dinheiro para a despesa. Voltaram para França de peito mais aberto do que da primeira vez. Agora, estão a apostar em ficar por lá o resto da vida, muitos até já compraram casa. Isso deixa-me um bocado triste. Por outro lado, hoje, em Manhouce, está a crescer uma juventude que me deixa esperança. Por exemplo, há um grupo de jovens que está empenhado em reabilitar o Racho Folclórico. Eu vejo as pessoas muito motivadas, talvez a nova geração encontre aqui oportunidades, pelo menos, eu tenho o “feedback” que há muitas pessoas interessadas em explorar as qualidades da nossa região.

GB- Para finalizar, quais são os objetivos para este mandato?

CL-Continuar a trabalhar, o máximo possível, sendo o mais correto possível, satisfazendo os pedidos das pessoas. Eu faço isso com muito gosto, quando o telemóvel toca, muitas vezes por um motivo simples, eu fico feliz em atender e em poder ajudar. O meu grande objetivo é esse: continuar a resolver o problema das pessoas e a fazer alguma coisa por esta terra. O museu é um exemplo do que queremos. Temos mais dois anos de mandato pela frente e eu, quando acabar, quero olhar para trás, e dizer: valeu a pena.Redação Gazeta da Beira