TEATRO DE AMADORES VISTO PELO BURACO DO PONTO

• José de Azevedo

No teatro O Cénico, de S. Pedro do Sul, também era assim. Um amador entrava naquela roda de “tagarelas” e sentia-se em casa, embora a casa estivesse quase a cair.

Passaram trinta anos ou talvez dez. Quantos séculos tem o tempo que agora vivemos? Quantas comemorações tem a comemoração do Dia do Teatro? Comemorações feitas, recordações refeitas: marcas e lembranças guardadas em silêncio e que regressam em turbilhão quando vemos abrir um pano de cena ou esperamos pelas pancadas de Molière, sentados, e nos dispomos a escrever qualquer coisa que nos “encomendaram”. Escrever, quer dizer: divagar, navegar, conversar. Vamos a isso?

Cenários de tela, adereços baratos, barracão da “Colmeia”, onde tudo começou. No teatro de amadores da Acrof, em Oliveira de Frades, trabalhávamos por carolice, que não era pouca, e ninguém levava nada. Bem, de vez em quando, alguém se lembrava da trazer uns pastelinhos de bacalhau ou um caldo verde. Tínhamos poucos anos e muita vontade de fazer coisas e de comunicar. Éramos intempestivos e risonhos, sabíamos que o riso é contagiante.

Por vezes não havia meios para continuar e parávamos por uns meses. Aceitávamos a penúria como quem aceita a chuva no Inverno. Cada dia sem ensaios era um dia para ensaiar outras alternativas de subsistência colectiva. Trocávamos impressões com Jaime Gralheiro, José Rui, José M. Barata, Francisco Paraíso, e ao despedirmo-nos nada parecia impossível.

Recomeçaremos quando? Pergunta sem resposta. Ainda não tínhamos idade suficiente para nos arrependermos de sonhar alto. Nas “interrupções/intervalos”, fizeram-se grupos musicais e grupos corais, só para manter o cerimonial dos ensaios. Porque os amadores de teatro também gostavam de cantar e não tardaram por descobrir outros modos de mobilização, encantatórios, solidários, irrecusáveis, substitutos da cultura pela Cultura. Tratava-se apenas de um compasso de espera. Um dia destes, alguém irá recomeçar com o Teatro. Tratava-se apenas de uma profissão de fé.

Quem poderá esquecer-se dessas belas cumplicidades? Quer isso dizer que hoje em dia já não há gente com a mesma força, a mesma determinação, o mesmo querer? E para que servem evocações destas reminiscências do passado? Bem podemos partir a máquina do tempo, que não adianta nada. A memória é o que nos trama e o que nos faz renascer. Será sempre assim, na Primavera…

31/03/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *