Rui Chã Madeira

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul

“Cantigas de Manhouce” – Primeira parte

• Rui Chã Madeira (Doutorando em etnomusicologia pela Universidade de Aveiro)

Cultura é um conceito que designa o conjunto de manifestações artísticas, linguísticas e comportamentais que são intrinsecamente partilhadas pelos indivíduos de um determinado povo. Com mais especificidade, a cultura pode ser expressa de forma material e imaterial: material no sentido do objeto tateável com forma concreta e imaterial, que apesar de ser percecionada, apresenta-se incorpórea. Cultura, portanto, pode ser entendida como uma forma de expressão, de comunicação, assim como um combinado de habilidades através das quais, desde há milhares de anos, os seres humanos representam o seu mundo exterior e interior. A cultura, apesar de aparentemente autóctone, é permeável no sentido em que a composição dos seus elementos também é influenciada por representações vivenciadas por outros indivíduos que não têm, necessariamente, de existir no local onde a cultura é manifestada. Isso significa que a sua expressão resulta também da incorporação de elementos de outras culturas que em intercâmbio acabam por influir na construção de ambas. Como a presente redação trata as cantigas de Manhouce, torna-se importante reportar-me à história dessa localidade. O território onde está localizada a aldeia comporta vestígios que remontam à época pré-histórica e em continuidade ao período do Imperium Romanum onde foi construída a ponte de Manhouce como parte integrante da rede viária, denominada por Via Cale, que passando por Visseum (Viseu), ligava Bracara Augusta (Braga) a Augusta Emerita (Mérida) seguindo para Roma. Portanto, essa localidade foi local de pernoita de almocreves, ficando conhecida como “estrada dos almocreves”. Durante a estadia estabeleceu-se a permuta cultural entre indivíduos do litoral, do interior e de outras localizações, cujos elementos podem ser vislumbrados no traje tradicional (material) existente e divulgado pelos grupos etnográficos. Durante a pernoita os almocreves e outros indivíduos em conjunto com os manhoucenses cantavam e partilhavam cantigas (imaterial) e danças que posteriormente constituíram o cancioneiro popular de Manhouce. Como caraterizado pelo professor doutor José Gomes Silvestre no texto incluído na contracapa do primeiro fonograma do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce Cantares da Beira produzido por Mário Martins e editado pela Valentim de Carvalho, SARL em 1982 (…) “Os seus cânticos vêm das alturas da serra das profundezas do mar e do bucolismo cantante dos rios. Cheiram a maresia e a sargaço, a alecrim e rosmaninho. Os seus cânticos articulam-se, estruturam-se, de certa forma, “classicizaram-se”, em contacto com as litanias, com o cântico Gregoriano e com os coros arcaicos dos conventos vizinhos de S. Cristóvão e de Arouca. É dessa pluralidade de fonte que brota o seu cantar”.

17/12/2020

 

Ligações:

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