Rui Chã Madeira
A educação sem cultura e a cultura não educada

O conceito de educação, de uma forma desnuda, implica genuinamente uma relação dinâmica entre a disponibilidade e a capacidade para aprender e a competência para ensinar. O conceito de cultura, de uma configuração um pouco mais complexa, incorpora um processo em que a flexibilidade para a compreensão de domínios não concretos é estritamente necessária. Se adicionarmos os conceitos, podemos considerar como uma premissa válida que adquirimos conhecimento através da nossa exposição à adequada informação formal e não formal e evoluímos a partir desse contexto desaguando no momento em que estaremos prontos a ensinar de forma eficaz. Este casamento, para que seja devidamente incorporado e assimilado, envolve indispensavelmente o ato criativo em que cada ser humano deve ter espaço e tempo para demonstrar ao seu semelhante a sua interpretação do mundo físico e metafísico.
Todavia, o ato criativo que enaltece e nos diferencia como seres humanos únicos e irrepetíveis foi substituído pelos ditames normalizadores e padronizados do pensar e do sentir produzidos por um estado fóbico pela diversidade e pela unicidade da liberdade individual. Perante esta dececionante certeza, o problema impõem-se por intermédio de uma questão: de que forma um ser humano consegue ser educado culturalmente? Podemos encetar uma resposta começando pelo sistema de ensino mas imediatamente reparamos que nem a educação nem muito menos a cultura estão inscritos nesse regime dado a ausência das artes e expressões substanciadas ao formato fatigante dos obsoletos conteúdos programáticos. Podemos considerar os meios de comunicação mas a poluição gráfica e a informação mercantil da maioria dos seus conteúdos não permite, para além da estupidificação, evoluir e ter uma opinião crítica e isenta de influência. Podemos afirmar que a internet é um excelente veículo de informação e do transporte de novos saberes e de novos olhares, mas logo verifica-se que a esmagadora utilização refere-se ao visionamento de conteúdos que transformam o valioso tempo em praticamente nada. Podemos confirmar a alienação das conversas de rua, de café e no momento de refeição em família substituídas por monossílabos e pelo aceno de cabeça enquanto os olhos estão obcecados pelos androides écrans e dessa forma proibidos de proporcionar um olhar afável e fidedigno. Soluções? Existem soluções? Provavelmente começando a querer saber mais e a despertar para o relacionamento humano. Porventura desligar as televisões e os telemóveis. Se calhar proporcionar momentos de família sem distrações. Possivelmente em sair de casa e entrar num museu, fazer um passeio por locais de interesse, ouvir música, ver exposições, aprender um instrumento, fazer parte de uma associação, ler livros em formato papel. Talvez.
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