Rui Chã Madeira*

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - As “Cantigas de Manhouce” e as indústrias da música – Quinta parte

Após a edição dos fonogramas “Cantares da Beira” no ano de 1982, com reedição em compact disc em 1991, “Aboio” no ano de 1984 e a participação na coletânea “24 de Maio de 1984” com a cantiga Aboio, o Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce no ano de 1985 regressa ao estúdio da EMI-Valentim de Carvalho em Paço de Arcos para sessões de gravação do terceiro registo fonográfico que foi nomeado “Cânticos Populares Religiosos”. A gravação e posterior edição desse LP promoveu uma mudança significativa no percurso do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce e na cantadeira Isabel Gomes Silvestre. Pela primeira vez o grupo gravou um álbum sem a participação da tocata, ou seja, as cantigas presentes no LP “Cânticos Populares Religiosos” foram gravadas somente com recurso vocal. Para além do repertório ter sido baseado em modas de cariz religioso (natal, quaresma, páscoa e ladainhas), José Gomes Silvestre volta a assinar o texto introdutório na contracapa do álbum (…) “Cantar é sempre Liberar e Religar: Liberar ao particularismo, do individualismo que mecanizam e entropizam alimentando a “dor de ser, quase sem fim!”… e Religar ao ponto positivo do Ser, à Divina totalidade que salva”. Novamente com produção de Mário Martins, de Hugo Ribeiro como engenheiro de som e composição gráfica da autoria de António Homem Cardoso, “Cânticos Populares Religiosos” é percebido como um álbum distinto dos restantes. Nos registos anteriores o método e escolha do reportório por parte do produtor não tinha como objetivo primordial agradar aos ouvidos fora do contexto rural, no entanto, no meio das indústrias da música foi unanime que “Cânticos Populares Religiosos” fora destinado a esse fim, assim como a aproximação do grupo à chancela world music, género musical emergente com grande ênfase comercial principalmente no ocidente. Portanto a terceira longa duração do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce foi recebido como um registo advindo da pureza das montanhas, das vozes etéreas resumido por José Gomes Silvestre (…) “Na ciclópica Catedral das Montanhas, que tem por cúpula o firmamento e por pórtico sublime o mar, todos estes cânticos da Vida e da Morte se geram”. Sem a presença da tocata, a focalização na voz da cantadeira e solista Isabel Gomes Silvestre é percecionada como uma particularidade desse álbum, que como escreverei de seguida, fomentará o seu percurso a solo.

* facebook.com/sonsdanossaterrasps/ | vimeo.com/sonsdanossaterra

28/07/2022


 

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