Rui Chã Madeira*

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - O Cantar as Janeiras nas práticas culturais do concelho de São Pedro do Sul

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul

O Cantar as Janeiras nas práticas culturais do concelho de São Pedro do Sul

Ainda no rescaldo da época natalícia e do início de um novo ano, importa salientar outra prática cultural do concelho de São Pedro do Sul denominada Cantar as Janeiras. Por todo o território, com mais incidência nas aldeias, essa prática, apesar da crescente tendência para o seu desaparecimento, ainda persiste. O Cantar as Janeiras, ocupa um lugar de relevância no cancioneiro popular português, assim como no cancioneiro popular de São Pedro do Sul. A sua origem, como de outras práticas culturais, remonta ao tempo do paganismo em imitação das saturnais romanas que, ao converterem-se à religião católica apostólica romana assumiram outro propósito, especificamente, anunciar o nascimento de Jesus, desejando um feliz ano novo. No ancestral Cantar as Janeiras está contido todo o espírito popular, a criatividade, a beleza, o encómio e o escárnio. Muito embora nesse domínio se acentuem as heterogenias regionais e até mesmo dentro do próprio concelho, no que diz respeito à sua estrutura, é uma prática cultural comum a todo o país. O Cantar as Janeiras, mais ou menos organizado, com maior ou menor disciplina musical, é realizado por pequenos grupos corais, normalmente acompanhados de instrumentos musicais que percorrem os mais variados lugares da aldeia ou freguesia. Os grupos e seus respetivos membros, executando cantigas religiosas, complementadas com quadras de âmbito popular, louvam, maioritariamente, o Menino Jesus, Nossa Senhora e São José. A partir do século XX celebrizou-se uma música do cantautor Zeca Afonso, intitulada “Natal dos Simples” que, apesar de ser entendida por alguns como integrante no repertório, não é uma entoada original.  O objetivo, pelo menos inicialmente da prática cultural era parar à porta das casas e serem recebidos pelos moradores que em troca do momento musical ofereciam os mais variados alimentos, especialmente doces e vinho, por vezes também dinheiro. No entanto, caso os residentes não correspondessem à iniciativa, eram presenteados com quadras de chacota, por vezes achincalhantes. Originalmente o que recebiam, quer seja em numerário, em géneros, ou em ambos, era destinado à ceia ou à festa do grupo, ou revertiam a favor das almas do purgatório.

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