Rui Chã Madeira*

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - “Os amigos de Manhouce” – Quinta Parte

“Os amigos de Manhouce” – Quinta Parte

Os sampedrenses António Homem Cardoso e Carlos Matias para além de terem medrado por entre as margens dos rios que atravessam a cidade de São Pedro do Sul, confluem na proximidade ao GECTM – Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce e posteriormente a Isabel Gomes Silvestre. O fotógrafo e autor António Homem Cardoso entrelaçou o seu caminho na capital da nação com Carlos Matias por motivo da criação de um cartaz para o SNI – Secretariado Nacional de Informação, Cultura popular e Turismo que ganhou ex-aequo o 1º prémio (Elefante de Ouro) na 20ª exposição de Manifesto Turístico em Itália. Para a realização desse trabalho cujo objetivo seria apresentar iconograficamente o turismo nacional com a designação “Grupo de Cantares de Portugal”, António Homem Cardoso utilizou o coração de ouro miguelista de Isabel Gomes Silvestre que por hábito costuma envergá-lo no seu traje. Após esse trabalho, realizou a primeira fotografia para o GECTM estampada no segundo fonograma Aboio gravado e editado pela Valentim de Carvalho no ano de 1984. Desde esse momento, António Homem Cardoso continuou a trabalhar com o grupo nos procedentes fonogramas Vozes da Terra de 1990, Cânticos Populares Religiosos de 1994, O Melhor do GECTM de 2001, Cantar Além de 2006 e Cânticos da Terra e da Vida de 2015. As suas fotografias também foram utilizadas nos fonogramas a solo da cantadeira A Portuguesa de 1996 (disco de prata), Eu de 2000 e também no fonograma do Grupo de Cantares de Cambra Nunca T’Eu Vera Lerar de 2008 em que Isabel Gomes Silvestre desempenhou a produção, a direção artística e a recolha do repertório. Em entrevista realizada no dia 15 de maio de 2019, perante a questão de como caraterizava ou definia a voz da cantadeira, após uma pausada reflexão, António Homem Cardoso respondeu que (…) “a Isabel canta cantos do Torga, canta grandezas de Camões, canta melancolias do António Nobre, canta paixões do Antero, a Isabel é um produto feito dos componentes mais trágicos e mais deslumbrantes da alma portuguesa. É como se aquilo dos átomos do que somos feitos, como se ela fosse feita de uma busca por todo um Portugal que se começou a definir como país mais inteiro, a partir do liberalismo, mas a Isabel vai antes, a sua voz transporta-nos para tempos de servidão também, agora é uma servidão já tratada, já cantada, já depurada, quer dizer, o cérebro já tem consciência que é cérebro e não aceita que é cérebro, é difícil de explicar esta situação. Mas há todo esse mundo antigo, há todo esse mundo de ceifa, de colheita, de vendaval, de geadas, de primaveras, há tudo isso a brotar da voz da Isabel como sairia de um quadro de um grande pintor. Acho que a voz da Isabel pode ser desenhada”.

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29/07/2021


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