Rui Chã Madeira*

Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - “Cantigas de Manhouce” – Quarta parte

“Os amigos de Manhouce” – Quarta Parte

* Doutorando em etnomusicologia
pela Universidade de Aveiro

Carlos Matias como elemento do PRD – Partido Renovador Democrático, fundado em 1985 por Ramalho Eanes e dissolvido em abril de 2000, desempenhou funções de deputado parlamentar na Assembleia da República no decorrer da vigência da IV Legislatura entre os anos de 1985 e 1987 do século XX. Para além dos trabalhos políticos e governativos, essa investidura possibilitou a Carlos Matias aproximar da esfera política assuntos relacionados com a etnografia e o folclore de São Pedro do Sul com enfoque nas Cantigas de Manhouce e da região de Lafões. O seu discurso proferido na Assembleia da República no dia 28 de janeiro de 1987 foi exemplo dessa abordagem. Falando para os deputados no hemiciclo, numa reflexão que até hoje perdura, Carlos Matias disse (…) “Em todo este contexto o folclore desempenha o mais relevante papel. Não há hoje estudioso, escola, academia ou universidade que não saiba que só através dele e com o seu indispensável auxílio será possível conhecer a formação e a evolução cultural e social do povo”. Dentro da envolvência política e cultural lisboeta Carlos Matias conheceu e privou com a escritora, poetisa e analítica social Natália Correia. Ambos comungam a ideologia partidária do referido PRD, chegando a poetisa a ser deputada na Assembleia da República nos anos finais desse partido. O Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce, após a gravação e edição de três fonograma (Cantares da Beira em 1982, Aboio em 1984 e Cânticos Populares Religiosos em 1985) pela editora Valentim de Carvalho, no ano de 1990 retorna ao estúdio de Paço de Arcos para gravar o último fonograma por essa editora já designada como EMI-Valentim de Carvalho. Para além do eterno produtor Mário Martins, como administrador surge David Ferreira, filho do poeta e prosador David Mourão-Ferreira. Carlos Matias, na sua desenvolta maneira de ser e de estar, solicitou a Natália Correia que escrevesse uma breves palavras para constar no novo fonograma do grupo nomeado Vozes da Terra. Natália Correia, conhecedora do grupo e em especial de Isabel Gomes Silvestre, considerando a importância e o alcance da sua voz e da força da representação da cantadeira em relação ao género feminino, aceita de imediato compor um manuscrito. Enquanto na capa dos outros fonogramas foi impressa a fotografia dos elementos do grupo, neste fonograma surge somente a fotografia de Isabel Gomes Silvestre captada pela lente de António Homem Cardoso. Na contracapa foi disposto o texto interpretativo e elucidativo de Natália Correia (…) “a voz puríssima de Isabel Silvestre em que se houve o marulhar das águas maternas da origem. Bem hajam os cânticos que adormecem os corações insones destes tempos escurecidos pela peste do ter que incendeiam a história”.

** facebook.com/sonsdanossaterrasps/ | vimeo.com/sonsdanossaterra

24/06/2021


 

* facebook.com/sonsdanossaterrasps/ | vimeo.com/sonsdanossaterra

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *