Retortillo é na nossa terra! Aqui, aqui mesmo
José Ramón Barrueco, Stop Urânio (Espanha); António Eloy, Observatório Ibérico Energia (Portugal); José Mazon (Chema), Adenex (Espanha); Carlos Matias, Associação Urtica (Portugal)

A Oeste de Salamanca e a escassos quilómetros de Portugal, junto ao Douro e à fronteira, continuamos na expectiva que se encerre o processo das minas de urânio a céu aberto, em Retortillo, articuladas com a instalação de uma fábrica de tratamento desse mineral assim como de um depósito de resíduos radioactivos.
A aprovação ou não da construção desta estrutura é do Ministério para a Transição Ecológica do Governo de Espanha, após parecer do Conselho de Segurança Nuclear (CSN), sendo que o regulador espanhol há 4 anos que a tem em mãos, dada a complexidade do processo. Alegando o tempo de espera, a empresa lançou uma campanha instando a imediata declaração favorável ao avanço da mineração de urânio, o que provocou a indignação dos membros do CSN que viram a sua independência atacada por essa empresa multinacional.
Minas de urânio sempre existiram em Espanha e Portugal. Na zona da Urgeiriça (Viseu) conhecemos bem os impactos na vida e saúde dos trabalhadores e da população, mas no início do século XXI abandonaram-se esses projectos por demasiado perigosos e pela sua escassa rentabilidade, dependente, é certo, do preço do urânio nos mercados. Este investimento enquadra-se numa lógica financeira imediatista (fazer subir as ações da empresa à conta da expetativa de novo investimento), deixando todo o prejuízo, que já é grande em destruição da biodiversidade, para quem cá fica.
Em Portugal esta situação é motivo de preocupação da Assembleia da República e sobretudo dos municípios raianos, conscientes do impacto das poeiras e das radiações nas suas terras e no Douro, Património da Humanidade.
Este caso é outro, além da Central Nuclear de Almaraz, que mereceria das autoridades portuguesas de Ambiente uma adequada análise e a exigência de uma avaliação ambiental transfronteiriça dado o enorme impacto directo que poderá ter nas terras e gentes lusitanas, das Beiras ao Douro.
Neste momento em que pressões suspeitas, muito suspeitas, ensombram a independência do CSN, deveriam as autoridades portuguesas levantar a sua voz e, da parte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) sempre disponível, noutras ocasiões (Almaraz) a seguir as determinações do CSN e a reclamar a sua observância, defenda, desta vez, a independência desse parecer sobre Retortillo e reclame que este tenha em conta também as populações. O Governo português tem a obrigação de exigir o respeito e o cumprimento das regras que regem as relações entre Estados ao abrigo das convenções e tratados internacionais.
Ed. 802 (25/03/2021)

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