Reflexões Partilhadas – A propósito de histórias do meu sentir…

Com Fernanda Mendonça

Reflexões Partilhadas

A propósito de histórias do meu sentir…

Com Fernanda Mendonça

• Paula Jorge

Dou continuidade a esta rubrica, confessando ao amigo leitor que, não só gosto de escrever, como também aprecio ler o que se vai escrevendo com alguma crítica e criatividade. Deste modo, vou percorrendo as redes sociais e a comunicação social, em geral, para tentar, também eu, aumentar as perspetivas e visões de vida, que nos permitem melhorar enquanto seres humanos. Viver focados no nosso umbigo não nos deixa perceber que existem opiniões à nossa volta tão válidas e importantes quanto as nossas. Espero que estas reflexões possam ser do vosso agrado e contribuam para o vosso engrandecimento. Aguardo feedback dos leitores. Apresento a escritora e poetisa Fernanda Mendonça, natural da Figueira da Foz, residente em Ermesinde, que no mês de julho de 2023, no Facebook, escrevia assim:

HISTÓRIAS DO MEU SENTIR

A BILIS NEGRA

Hipócrates, é considerado o pai da medicina,

Sendo o mais célebre médico da Antiguidade,

Segundo reza a tradição, teria origem divina,

Pertencia a família de prestígio na sociedade.

Falo de Hipócrates a propósito da situação

De um mal que muitos atinge, a depressão.

 

Hipócrates acreditava que a dita depressão

Pela bílis negra em excesso era causada

E que provocava, como se chamava então,

Melancolia que como doença era tratada.

A melancolia, forma de sofrimento singular

É a depressão que hoje se costuma chamar.

 

A melancolia pelos poetas tão cantada

Tem na tristeza e no tédio tema marcante

Ausência de ânimo e apatia generalizada

São em poemas ainda tema dominante.

Acredito que o tratamento para a melancolia

Exista, muitas vezes, na própria poesia.

 

Mas para a depressão e o seu tratamento

Importa tratar o assunto com celeridade

Apesar de ter muito fraco entendimento

Acho que há depressivos a mais na sociedade.

Não sei se será efeito da bílis negra, como dizia

O grego Hipócrates ou outro factor a causaria.

 

Estará a depressão ligada a acontecimentos,

Terá a ver com uma frequente dor ou tristeza,

Saberá a pessoa a origem dos sentimentos

Que a mantém no sofrimento e na incerteza?

Será que se pode enfrentar o mal todos os dias

Substituindo-o pelas mais pequenas alegrias?

 

E há tanta pequena coisa na vida a aproveitar

É o sol tão velhinho que nasce todos os dias

São as estrelas à noite incansáveis a brilhar

São os rios alcançando o mar em correrias.

Há flores sempre a sorrirem num jardim

Há perfume derramado no ar pelo alecrim.

 

Há um telefonema de um amigo inesperado

Há uma visita que aparece de surpresa

Há um encontro de amigos há tanto esperado

Há uma refeição da família à volta da mesa.

Há na vida um número incalculável de alegrias

Que consegue ultrapassar todas as arrelias.

 

Que uma dor, uma perda, um acontecimento

Não contribuam para causar uma depressão

Se necessário recorrer rápido a um tratamento

Ou então, encontre, no seu caminho solução

Para usufruir do bem que é poder viver

Embora alguma dor possa também ter.

 

Que a vida não é só feita, sabemos todos bem,

De momentos bons, repletos de alegria

Mas os momentos tristes e dolorosos também

Fazem parte do nosso viver do dia a dia.

O importante é, acima de tudo, dar prioridade

A dar aos outros e a nós próprios felicidade.

 

 

HISTÓRIAS DO MEU SENTIR

           O COBERTOR

Não sei se é conto, fábula ou lenda

A história que vou hoje aqui contar

Mas vai servir para que se entenda

O assunto de que vou aqui falar

E que tem a ver com os sarilhos

Que acontecem entre pais e filhos.

 

Conta -se que há muito, muito tempo existiu

Um lugar com uma tradição deveras estranha

Quando a pessoa envelheceu logo ali se viu

Ser levada por um filho a uma alta montanha.

Ao longo dos anos a tradição era cumprida

E ali passavam os velhos o resto da sua vida.

 

Um dia, chegou a vez de um filho o pai levar,

Mas causou-lhe o facto alguma preocupação

Então, pensando no frio que poderia passar,

Levou uma manta para servir como proteção.

Deixando o pai com a manta para se proteger

Virou-se para começar a montanha a descer.

 

-Filho! – chamou o pai com a força que restava.

Toma, leva uma metade deste cobertor para ti.

E com dificuldade o cobertor ao meio rasgava

-É para quando o teu filho te trouxer para aqui.

O filho, chorando, o pai de volta a casa levou

E a estranha tradição naquele lugar acabou.

 

Hoje em dia, acontece quase o mesmo de novo

Há velhos que são deixados no lar ou hospital

Como acontecia na estranha tradição do povo

A que aquele filho colocou um ponto final.

Ele ainda pensou deixar ao pai um cobertor

Hoje, poderia ser acompanhamento e amor.

 

Pensando na convivência entre gerações

Para a formação do indivíduo importante

Talvez alguns filhos encontrem soluções

Para não abandonarem os pais doravante.

Graças a Deus, não me queixo desse mal

Tenho comigo o acompanhamento ideal.

 

Vivo sozinha com os meus quatro animais

As plantas, os mochos e outras coleções,

Os telefonemas, a escrita, livros e jornais

E vou gerindo as mais diversas situações.

Mas, aqui d’el rei que é um Deus me acuda

Se alguém desconfia que preciso de ajuda.

 

Vou sendo controlada várias vezes ao dia

Se, por acaso, saio, onde vou tenho de dizer

Ontem, sem eu saber, grande reboliço se via

Por eu o telemóvel e o telefone não atender.

O malandro do telemóvel com som desligado

E o fixo não atendia por me ter ausentado.

 

Telefona a minha neta várias vezes e nada

Telefona para a mãe que estava em reunião

E liga para a minha amiga Isabel preocupada

E armou-se sem eu saber tamanha confusão

A que depois eu assisti, confesso, divertida

E que deixou a minha filha bem fula da vida

 

Saiu a minha filha da reunião e disparada

Apanhou a auto estrada para vir mais depressa

Já estava à minha porta outra viatura parada

Com a Isabel assustada e a neta Vanessa.

Todas ao mesmo tempo a barafustar

Querendo saber o que se estava a passar.

 

Como é que eu não me havia de divertir

O que não causou nada boa impressão

Eu estar inteira para ali daquilo a rir

Quando todos ainda tremiam de aflição.

E para o assunto a solução encontrada

Foi decidir que a seguir havia jantarada.

 

Graças a Deus, digo ainda novamente,

Fiquei de cozinhar ainda dispensada

Custou-me ter preocupado tanta gente

Mas, coitada de mim, sem ter culpa de nada

Na minha montanha não existe solidão

E o meu cobertor é o amor que me dão.

13/07/2023


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