Rás-te-parta, Rompe Sempre!

Sobre a força dos encontros - Texto de Susana Rocha

Rompem-se as solas das chuteiras, mas não se rompem as ideias Os cartazes de Abril ganham pó, rás-te-parta, mas na bancada encontramo-nos, com solas rompidas continuamos a poder dançar

*artigo dedicado e composto com o Sr. Camilo Moreira, vilamaiorense, cidadão que nos ensina a ser mais cidadãos, amigo que guardamos, que é coisa que vale milhões

 

“Às 9 ou 10 horas da manhã entrava uma descarga de foguetes. Olha, há bola!” Estávamos em Vila Maior. Num tempo em que as camisolas vestidas em campo eram feitas à mão pelas costureiras, com as fazendas da loja do Sr. Camilo Moreira, e as chuteiras que se iam rompendo na corrida e na bola tinham vindo num saco, trazido do Académico de Viseu: “O Vilamaiorense…havia cá (bola), desentenderam-se e formaram dois grupos: o Atlético e o Rompe Sempre, e fizeram um campo de futebol para cada um. (…) ‘O pá, eu estou lá no Académico, arranjo para cá botas e equipamentos e isso tudo, se acabarmos com isso (dos desentendimentos) e fundarmos um grupo novo!’ Fizemos então a reunião, chamou-se à atenção, concordaram e formámos então a União Desportiva Vilamaiorense, eu estava lá no Académico e íamos lá aos treinos, tinham lá muitas botas daquelas que se chamavam chuteiras nessa altura e tinham aos montes daquilo, compravam-nas novas e punham aquilo (fora). Depois, eu disse ao Hélder, que era o treinador, ‘Ó Helder, essas botas, isso para que é?’ ‘Olha, estão aí, nós não (as usamos), vêm novas!’ ‘E então eu posso levá-las?’ ‘Podes, leva as que quiseres!’ Fui buscar um saco e trouxe as botas para cá, depois mandaram aqui os sapateiros, que havia aqui os sapateiros, compuseram, puseram aquilo tudo novo, foi logo as primeiras botas que eles tiveram para aqui’. A União Desportiva Vilamaiorense (U.D.V.) foi fundada em 1944, tempos em que ainda se vivia a 2ª Guerra Mundial, em que ainda se trabalhava no minério e em que Vila Maior ainda não tinha luz eléctrica. Aos mais novos, para conseguir imaginar a euforia de um dia de bola como estes, talvez ajude ouvir os cânticos da recém-formada claque de apoio ao Vilamaiorense, a Juventude Maior, ou então olhar para o bar por onde se passa antes de entrar para o campo do Estádio da Belavista, esse sim, com um ar intemporal, que nos faz acreditar que os bares e os cafés são lugares de encontros que existem desde o início dos tempos, sem os quais nada faria grande sentido.

Os pais do Sr. Camilo também tinham um, ou melhor, uma loja, uma ‘Venda’, a Casa da Venda, “porque as lojas eram as Vendas, era o Milo da Venda, o Neca da Venda, que era o meu irmão, éramos conhecidos por ‘os da Venda’, porque o meu pai era o Marcelino da Venda”, conta-nos o Sr. Camilo, e era aqui que muita da juventude se juntava, a de Vila Maior e a de outras freguesias próximas, “tínhamos muitos jovens que vinham lá, juntavam-se lá comigo na minha casa e pronto, ‘Vamos fazer isto?’, e vinham, não só de cá, até dali de São Félix, e de Pinho, vinham também aqui, juntavam-se aqui a nós”, e faziam, foi daqui que saiu a ideia do futebol, mas também a de formar uma associação de caçadores, ou a de criar um rancho para inaugurar a Residência Paroquial, ou para ir a São Pedro do Sul participar num cortejo de oferendas para as obras do hospital. Foi também aqui que o Sr. Camilo aprendeu a tocar guitarra, com aquele que viria a ser o ensaiador de um grupo de teatro: “era esse senhor, chamavam-no Augusto Loureira, esteve em Lisboa, fez parte lá de uma revista, era artista lá numa revista, e depois veio para cá, que estava com a tuberculose, fazia o tratamento, (…) tinha cá os pais, (…) e ele depois também ia fazendo qualquer coisa em canastreiro, mas sabia disso de teatro e então fundou-se o grupo de teatro, até era engraçado, que o grupo de teatro era o Rás-te-Parta. Depois um senhor que veio de Lisboa, que estava lá muito bem e que tinha lá uns estabelecimentos em Lisboa, depois acabou por vir para cá, pôs ali um palacete na Cobertinha, mas uma vivenda, que era o Sr. Almeida (…) cedeu o rés-do-chão de casa e fez bancadas e fez isso tudo e o palco, para fazermos lá teatro!”.

Foi também na Venda, ou melhor, no café, mas em Lisboa, num intervalo entre reuniões na Assembleia da República com a Comissão da Linha de Apoio ao Vale do Vouga, que o então Ministro da Cultura e Coordenação Científica se abeirou do Sr. Camilo: “fomos tomar café e estava lá o Secretário da Cultura, era o Lucas Pires, que era do CDS até, e depois perguntou ‘Então é de São Pedro do Sul?’ ‘Sou!’ ‘Então e como é que vai lá a cultura lá em São Pedro?’ Era o Cénico, o Dr. Jaime Gralheiro… ‘Ah sim senhora, eu até tenho lá família’ E depois eu lembrei-me ‘Mas olhe, nós até estamos lá na minha terra, trabalham lá na minha casa (a Associação Cultural de Vila Maior), mas queremos fazer uma sede!’ ‘Então o que é que vocês querem?’ E foi buscar uma minuta e deu-nos para fazermos um requerimento para mandar imediatamente para lá, e mandámos, e ele mandou-nos logo 300 contos e o diploma de utilidade pública assinado pelo Mário Soares”. Foi assim que o teatro ganhou um novo palco, por onde passaram também o Cénico, o Grupo das Concertinas Dr. Gonçalo Sampaio, de Braga, ou os Cantares de Manhouce, “e fazíamos ali muita festa dessas”.

“O convívio é que era o principal, pronto. Era o convívio, a amizade e muitas vezes também ideias! (…) Era o principal, isso (hoje) perde-se muito, porque deixa de haver aquele convívio, aquela amizade que havia, às vezes não era uma questão de lucros, nem de dinheiro, era uma questão de amizade”. E a prova de que é destes encontros que as ideias se formam, na bola, na Venda, na Padaria do Sr. Camilo que durante alguns anos foi a sede da A.C.V.M., ou acolheu o bar que se explorava para arranjar dinheiro para a associação. Ou no rés-do-chão da casa do Sr. Camilo, onde também se falava das ideias contra o regime.

“(A oposição ao regime) funcionava clandestinamente, faziam reuniões e era tudo clandestino. Havia maiorais também, que até eram membros das câmaras, faziam a jogada de que não eram (contra o regime), mas clandestinamente fazíamos reuniões, fazíamos reuniões com os revolucionários.”

E isto acontecia aqui mesmo, onde estamos a conversar: “Era, fazíamos aqui as iniciativas para pôr cartazes e para outras coisas aqui. Tratávamos que éramos contra o nazismo, contra o salazarismo, a luta era contra o salazarismo e o nazismo, e então fazíamos lutas clandestinas, de noite, púnhamos cartazes”. Em Vila Maior, “os Republicanos, aqueles que eram Republicanos, que já eram a favor da República, que eram contra a monarquia, estavam mais ou menos todos ligados (à luta contra o regime), por exemplo, a minha família, a família dos Moreiras, éramos Republicanos, portanto, não alinhávamos já com o salazarismo, tanto que eu fui delegado de lista, de Humberto Delgado e todos os que concorreram para as campanhas eleitorais do Norton de Matos, Quintão Meireles, o Arlindo Vicente… Que é que era delegado de lista? Eles mandavam umas listas para pôr nas urnas, e a gente então passava e ia entregar particularmente para eles meterem, porque eles tinham as listas que eles davam, lá os salazaristas, e nós dávamos as outras, e eles aproveitavam e em vez de meterem a que eles davam, metiam a nossa e eu era delegado de lista, andava de casa em casa, de noite, e entregava-lhes a eles para eles votarem”

“O nosso objectivo maior era esse, direitos e deveres iguais. Não é uns só terem direitos e não terem deveres nenhuns, e outros só terem deveres e não terem direitos. Portanto, é isso que é o verdadeiro socialismo, pronto. Direitos e deveres iguais. Não é uns só têm direitos e outros só têm deveres. E hoje vamos por esse caminho também, nós temos de pagar as contribuições, e outros têm os direitos, estão isentos disto e daquilo, portanto, isso não é socialismo nenhum. Socialismo é direitos e deveres iguais, mais nada. Nós temos direitos de comer e de beber e à saúde, e direito a termos médicos, não é uns terem médicos e terem saúde, e outros não terem. Isso não é socialismo nenhum, isso é conversa.”

Rás-te-parta, rompe sempre, rompem-se as solas das chuteiras, mas não a força das ideias, o brilhozinho nos olhos do Sr. Camilo é o mesmo que se imagina no retrato do 1º de Maio em São Pedro do Sul, que tem pendurado na parede no escritório, aqui onde estamos a conversar, “liberdade e solidariedade, a gente ser para os outros”. A sala não era aberta há algum tempo e os cartazes de Abril junto à porta onde eu própria me lembro de parar quando descíamos a correr da Escola Primária, têm algum pó, mas o brilhozinho passa de olhos a olhos e para isso basta haver encontros. Continuemos a fazer Vendas, cafés, bancadas de dias da bola anunciadas com rajadas de foguetes, rodas de dança onde se rompem as solas, onde trocamos mãos e pés e ideias, palcos onde sabemos melhor quem somos, lugares onde nos sentamos a conversar, rodas para contar histórias, patuscadas e petiscos, um amigo que chega e nos diz bom-proveito, lutar-se por tudo o que se leva a peito, dar-se a volta ao medo e dar-se a volta ao mundo, não se perder em cantigas, costurar-se camisolas para lhes ter amor, imprimir lonas para levantar, ser uma Juventude Maior, a gente ser para todos, todos serem muitos, ou poucos que juntos se fazem muitos, “a gente ser para os outros”. É que hoje fiz um amigo, e coisa mais preciosa no mundo não há…

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