Raízes

Sandra Fonte

Agosto. 28 graus e uma imensidão de vida aos seus olhos. Naquela aldeia, em Amiais, Couto de Esteves, onde crescera, de pés descalços e com sorriso fácil o pouco significava tudo. Aquelas gentes, aqueles tempos, no fundo, aquilo que o fez viver assim tão afortunado pela envolvência da Natureza. Os anos passaram.

Sessenta anos depois, os cheiros mudaram e a mudança acontece, os tempos assim o ditam.

Hoje, ele já não acorda deslumbrado com aquilo que a Natureza lhe oferecia noutros tempos, já não se levanta para percorrer trilhos que só ele conhecia, já não contempla a beleza daquela Aldeia que o viu nascer. Ou será que sim? As gentes mudaram, o vale agora é uma profundidade de água que levou com ele as histórias do povo mas não pode levar as suas memórias. E essas são tantas e tão singulares. Foram gerações que ali cresceram, famílias que viveram com o pouco que existia, o pouco que afinal era tão pouco mas fazia tanto sentido. O seu olhar alcança agora aquilo que o coração guardou assim como se guarda o essencial. Uma imensidão de água, um azul que chegou para permanecer, substituindo a beleza de outrora por esta, incomparáveis é certo, mas ambas tão genuínas e tão puras. Hoje, a sua rotina mudou, não por vontade própria, mas seguindo a evolução dos tempos que avança sem pedir permissão. A Aldeia tornou-se ponto de visita obrigatória, são muitos os que vêm admirar a vista, e desfrutar daquilo que esta lhes oferece aproveitando sempre para conviver com quem cá vive há tantas décadas e tanto sabe destas raízes. Quem diria, eu, gaiato livre, crescido nesta profusão de sentimentos e sentidos, ver hoje a minha Aldeia ser falada em tantas linhas, tantas imagens que tão bem a caracterizam mas nada dizem daquilo que ela para mim já foi. Adaptei-me, e não me canso de a elogiar nesta invejável beleza que possui hoje e, com certeza, assim continuará, através da  mão humana que aqui marcou presença. A minha história começou aqui, por aqui percorri com a ajuda da amiga bengala (que a idade já não ajuda em nada) tantos caminhos. Vi partir muitos daqueles que comigo partilharam a vida, muitos daqueles que aqui se tornaram Homens e Mulheres, e que nunca acreditaram numa mudança desta enormidade. Fiquei para assistir, entre poucos, e por cá continuo, sereno e feliz. E o futuro? Dou por mim a pensar no que farão da minha Aldeia, que projetos têm guardados e por que desvios passará. Mas isso, com muita tristeza posso afirmar que os meus olhos não irão ver. Aqui ficam muitas histórias, muitas vidas, muito sofrer e muito trabalho. Aos que daqui abalaram, tenho imensa pena daquilo que eles perderam. Com certeza um dia voltarão. Só quem aqui está sabe do que falo, só quem aqui está partilha estes sentimentos, quem cá vem “bebe” deste concentrado de pureza. A minha história certamente não interessa a todos. Mais um velho louco que não sabe o que diz, que aproveita para passar o resto dos seus dias relembrando o que a vida lhe proporcionou e aproveitando para agradecer, coisa que é tão rara nos dias de hoje. Louco talvez, mas consciente daquilo que outros preferiram ignorar, preferiram não sentir. Ou então não o souberam fazer. Aqui conheci a mulher que me ampara a tantas décadas que lhes perdi a conta. Aqui criei filhos e netos. Esta Aldeia sou eu. É a minha identidade, os meus costumes, as minhas memórias, os meus pés descalços, é a ribeira que ainda corre, o moinho que já não roda, o tanque onde já não se lava a roupa, a fonte onde ainda corre um fio de água e a calçada que permanece, mas na qual já não se vêm crianças a brincar. É os cantares, as desfolhadas, as eiras, o verde, o azul, o vizinho do lado a quem tantas vezes pedi emprestado, a chegada do merceeiro, do padeiro, do peixeiro, que traziam até nós tudo aquilo a que dificilmente tínhamos acesso. Que belos tempos! Agora já não se vêm as gentes da terra reunidas como no meu tempo. Abalaram todos para centros mais desenvolvidos, curioso, regressam para passar cá as férias. Regressam no Verão os imigrantes, e a Aldeia ganha vida. E como gosto de a ver assim! Ambiciono um dia poder assistir a este regresso às raízes, esteja eu onde estiver. Os anos passaram por mim a voar, cheguei a esta bonita e cansada idade assistindo a tudo isto sem nunca opinar sobre nenhum assunto. Mas agora que me sinto cansado e pronto para partir deixo o meu testemunho a quem o quiser entender. Talvez não faça nenhuma diferença mas a mim alivia-me, satisfaz-me. É tão gratificante poder agradecer aquilo que a Vida nos proporcionou. Não tenho muito mais para partilhar convosco, apenas um pedido a fazer. Olhem a minha Aldeia atentamente, com olhos de ver e coração de sentir. Não a esqueçam, nem a deixem despovoada e abandonada como tantas outras, o nosso Património está aqui, é aqui que pertencemos, e depende de todos nós o seu futuro risonho. De tanta Vida que aqui se entranha, muito mais Vida por aqui passará.Redação Gazeta da Beira