QUANDO A DIREITA ERA HUMANISTA, SOLIDÁRIA E POPULAR (2ª parte)

Manuel Silva

Soares Carneiro era bastante inteligente e culto. Politicamente era conservador, à direita de Sá Carneiro, mas identificava-se com  os objectivos  da AD em criar um Portugal mais rico, justo e inclusivo. Provou ser democrata, contrariamente ao afirmado pelos seus detratores . Na hora da derrota, aceitou com toda a humildade o resultado obtido pela sua candidatura , regressando à vida militar. Acabava ali a sua aventura política.

Porque quando  exerceu funções administrativas em Angola mandou internar militantes anti-colonialistas no Campo de S. Nicolau, a esquerda, à falta de outros argumentos, chamou-lhe “fascista”, “golpista”, “Pinochet” e outros nomes do género. C omo os factos provaram, Soares Carneiro aceitou as regras do regime democrático, disciplinou as FA no respeito e submissão ao poder político eleito pelo voto  popular, independentemente de quem fossem os seus detentores.

Se todos os militares que passaram em missão pelas ex-colónias , onde praticaram, porque a tal eram obrigados pelo regime, acções violentas contra os movimentos independentistas,  fossem eternamente considerados fascistas, entre estes estava, certamente, a maioria dos heroicos capitães de Abril. Também o cérebro operacional da Revolução , Otelo Saraiva de Carvalho, deu umas instruções à velha Legião Portuguesa.

Como era possível acreditar que pessoas como Vitor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente, Proença de Carvalho, Manuel de Lucena, Silva Marques e outros, antigos militantes do PCP e/ou de extrema-esquerda, apoiantes – Cunha Rego, Pulido Valente e Lucena fizeram parte da estrutura central da candidatura –  de Soares Carneiro quisessem  o regresso a um regime que os perseguiu, prendeu  e obrigou  alguns  deles à clandestinidade e ao exílio? No entanto, as acusações da esquerda da época resultaram. Eanes foi reeleito, o que aconteceria mesmo que Francisco Sá Carneiro não tivesse morrido a poucos dias das eleições.

Passados mais de trinta anos e tendo em conta as mudanças verificadas a nível interno e externo, a dialéctica fascismo-anti-fascismo passou à História. Ainda bem para a democracia. O PSD e o CDS encontram-se novamente no poder. Só que não são os partidos fundados por Sá Carneiro e Freitas do Amaral. E o PSD, hoje, contrariamente àquele tempo, é mesmo de direita. Não é excessivo dizer que está à direita do próprio CDS. Por outro lado, esta direita não é solidária, nem tem alma. Submeteu a “res publica” ao “deus” mercado, em nome do combate à má situação financeira tem  destruído a economia, provocado um elevadíssimo desemprego , a destruição da classe média e o empobrecimento generalizado. Os  mais ricos, esses, são as estatísticas oficiais que o dizem, estão ainda mais ricos. A crise financeira, essa continua. O défice, sem receitas extraordinárias, ultrapassa os 5%. Segundo o memorando da troika, deveria estar em 3% no final de 2013. A dívida não para de aumentar. Nos últimos 3 anos aumentou mais que nos 6 anos do governo de José Sócrates.

Portugal voltou a ser “um país onde os velhos não têm presente e os jovens não têm futuro”. Aqueles que acreditam na social-democracia e na democracia-cristã não podem rever-se em  partidos e dirigentes traidores da causa dos seus fundadores.

Uma alternativa a este neo-liberalismo conservador, classista a favor dos de cima, incompetente, tacanho, inculto e provinciano passa pela aliança dos verdadeiros democratas-cristãos e sociais-democratas, sem complexos de esquerda, com todos os que querem um Portugal diferente, onde volte a haver crescimento acompanhado de justiça social e melhor distribuição da riqueza produzida, a fim de acabar com este economicismo e financeirismo sem sentimentos, imperante em Portugal  como na maior  parte do mundo. Assim poderá ser recuperada a esperança que andou à solta há 40 anos.

• Manuel Silva

Redação Gazeta da Beira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *