Produção de leite em Lafões ameaçada pelo fim das quotas leiteiras

Há quinze anos eram mais de 600, hoje Lafões tem cerca de quarenta produtores

É o adeus às quotas leiteiras, depois de 30 anos. Até agora, o sector da produção de leite, na União Europeia tinha esta regulação, um sistema que evitava os excessos de produção. Agora é cada um por si. As quotas leiteiras terminaram no passado dia 31 de março. À Gazeta da Beira, alguns produtores da região de Lafões dizem temer não conseguir aguentar os sucessivos abaixamentos de preço e competir diretamente com outros países. Se o Governo português, não intervier pode ser o fim de muitos produtores na região, sublinham.

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 Por todo o país, os pequenos produtores temem que o fim das quotas leiteiras possa pôr o sector da produção de leite em risco. Temem não conseguir competir com países com outras condições edafoclimáticas e com sistemas mais modernizados.

Lafões não é exceção. Como explica Manuel Joaquim, da Cooperativa Agrícola de Vouzela, “A partir do dia 1 de abril, o mercado passa a ser livre, cada um, dentro da União Europeia, passa a produzir aquilo que quer. Ora, isto vai ser muito prejudicial para os nossos agricultores. Há países muito mais apetrechados que Portugal que vão produzir muito mais leite. Especialmente a Espanha, que está aqui muito perto de nós vai conseguir fazer entrar muito mais leite em Portugal”.

“Pequenos produtores têm tendência a acabar”

Segundo dados avançados pela Cooperativa Agrícola de Vouzela, atualmente em Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul há cerca de 40 produtores. Todos os dias a Cooperativa recolhe cerca de 10 mil litros, de um total de 18 produtores. É o maior posto de recolha da região. Números bem diferentes do passado. Há 15 anos, nos seus registos, a Cooperativa contava com 600 produtores. Manuel Joaquim diz que “os pequenos produtores têm tendência a acabar. Os maiores têm aumentado a produção e substituído os mais pequenos”. O fim das quotas leiteiras é mais um golpe para o sector, diz, muitos podem não sobreviver às sucessivas descidas do preço. “Os outros (os maiores) ainda se vão aguentar algum tempo, mas não muito, vai tudo depender do preço do leite. O leite tem estado a baixar. Em 2014 baixou 12 vezes. Baixou outra vez no dia 1 de abril e os produtores já estão a sentir muitas dificuldades para a alimentação dos animais e para sobreviver à vida no dia-a-dia”, constata.

Preço pago aos produtores em queda

José Luís Morujão, com uma exploração em Bordonhos, S. Pedro do Sul produz diariamente cerca de 600 litros de leite. Uma tarefa cada vez mais difícil tendo em conta os sucessivos abaixamentos de preço. “Já baixou 3 cêntimos no início do ano, mais 1 cêntimo agora, tendo em conta uma produção de 20 mil litros estamos a falar de uma redução de 800€ por mês, é para muita gente, muito mais que um ordenado”, explica.

Morujão diz que com o fim das quotas leiteiras, “não prevemos nada de bom. Os países com capacidade e melhores estruturas vão tomar conta da produção”. Se a tendência continuar a mesma: a redução do preço pago ao produtor, pondera mesmo desistir. “Tenho aqui um investimento brutal, contudo, se tudo continuar desta maneira, começo a pensar em fechar a curto prazo. Se neste momento já não estou a ter prejuízo, posso dizer que certamente já não estou a ganhar dinheiro”.

Uma situação semelhante encontramos em Campia, Vouzela. Albano Martins produz todos os dias mais de 850 litros e é com desânimo que encara estas últimas notícias. “Estamos cada vez pior. Se já ninguém gosta de trabalhar para aquecer quanto mais para ter prejuízo. Com o fim das quotas leiteiras vamos ser inundados de leite muito mais barato, preços com os quais não conseguimos competir, não sei onde é que vamos parar”.

Intervenção do Governo é única solução, dizem

Para os produtores de Lafões a única solução é a intervenção do Governo, através de algumas medidas compensatórias. “Portugal terá que ajudar os produtores numa primeira fase para que possamos aguentar o abaixamento dos preços pagos à produção. Há ainda as margens das grandes superfícies que não se admitem e que o Governo tem o dever de regular. Caso contrário, é o fim de grande parte da produção do leite em Portugal. É uma questão matemática, milagres ninguém os faz”, defende José Luís Morujão.

Também Albano Martins considera crucial, nesta fase de transição o apoio do Estado. “Só conseguiremos competir com a Europa se tivermos a intervenção do Governo. Não falo em subsídios para ajudar a produção, mas, pelo menos, a redução dos preços dos produtos que necessitamos… por exemplo, a redução do preço de gasóleo”.

O que são as quotas leiteiras?

As quotas leiteiras, em Portugal desde 1991, permitiam um equilíbrio entre a oferta e a procura entre os diversos Estados-Membros. Quase 70% da produção da União Europeia está concentrada em apenas 6 países: Alemanha, França, Reino Unido, Holanda, Itália e Polónia. As quotas leiteiras abriam, assim, espaço no mercado para países mais vulneráveis. Isto porque, cada País tinha um limite de produção que não podia ultrapassar. Agora não há limites, o mercado é liberalizado e, portanto, os produtores portugueses temem que o mercado passa a ser dominado pelos países mais competitivos.

Bloco e Partido Comunista exigem intervenção do Governo

Bloco de Esquerda (BE) e Partido Comunista Português (PCP), através de dois projetos de resolução distintos, que já entraram na Assembleia da República, mostram-se preocupados com o fim das quotas leiteiras e exigem uma tomada de posição do Governo.

O Partido Comunista Português exige que o Governo desenvolva esforços junto das instituições europeias para a manutenção de um quadro de regulação do mercado. Nomeadamente: “a garantia de preço justo à produção e a garantia de proteção do mercado nacional face à entrada de leite estrangeiro”. Para além de uma regulamentação efetiva, os comunistas pedem “a fiscalização da atividade especulativa das cadeias de distribuição alimentar, impondo limites ao uso das marcas brancas, bem como estabelecendo “quotas” de vendas da produção nacional”. O Partido Comunista considera assim que o Ministério da Agricultura deve criar mecanismos para “garantir que os preços a estabelecer nos “contratos” tenham de ter em conta os valores locais dos fatores de produção”.

Também o Bloco de Esquerda propõe uma série de medidas ao Governo. Primeiro, pede que “intervenha a nível nacional e no âmbito da União Europeia para a criação de ferramentas que garantam a regulação do mercado do leite, desde a produção ao consumidor final, de modo a garantir a justa distribuição das mais-valias ao longo da cadeia”. Depois, sugerem uma alteração da PAC, através de uma reformulação da aplicação das ajudas diretas aos agricultores e a criação de um regime de incentivos à reestruturação das explorações leiteiras que “por via da evolução do mercado após a liberalização da produção (fim das quotas), percam viabilidade económica e se vejam obrigadas a encerrar a atividade”. Entre as medidas propostas pelos bloquistas, destaque ainda, para a criação de Redes de Inovação Agro-Rural que “permitam o trabalho em rede e em parceria entre agricultores, organizações de produtores, serviços competentes do Ministério da Agricultura e as adequadas estruturas de investigação e experimentação agrárias”.Redação Gazeta da Beira

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