Paula Jorge

Conto de Natal “O Beijo Eterno”

• Paula Jorge, conto integrado em “Lugares e Palavras de Natal”, volume VIII, Lugar da Palavra Editora, 2019

Era uma tarde de inverno. Os ventos revoltavam-se com as folhas das árvores e dançavam ao som da mais forte trovoada. Entre relâmpagos e chuva intensa nós nos beijávamos como se o tempo estivesse a nosso favor. E estava! O tempo queria que estivéssemos juntos para sempre, porque nos unia a cada instante. Ele torcia por nós contra o mundo inteiro. Foram muitas as noites de amor, foram tantas as horas em que nos entregámos à envolvência dos nossos corpos. O beijo elevava-nos ao mais alto dos céus e nada mais importava para nós. Este beijo foi o começo de tudo e o fim do nosso amor!

Acordei, já não estavas ao meu lado. Partiste. Levaste contigo o mais puro sentimento. Agora tudo acabou. Foste embora. Simplesmente. Sem deixar rasto. Apenas marcas eternas no meu coração.

Bernardo era um jovem empresário de sucesso, amava a natureza e tudo fazia pelo bem-estar comum. Era alto, elegante e tinha um olhar maravilhoso. Daqueles olhares que penetram com intensidade.

Paula era uma mulher perspicaz e inteligente. Enfermeira de profissão e apaixonada pelas tradições e cultura popular dos povos.

Os dois conheceram-se na praia, num daqueles passeios solitários que ambos gostavam tanto de fazer para recarregar energias. A praia preenchia-lhes a alma, tranquilizava-os e ambos necessitavam da calma que esta lhes transmitia. Mesmo em pleno inverno, o mar era incrível. Por vezes calmo, por vezes revolto e agitado. Tal e qual os sentimentos de Bernardo e de Paula.

Numa tarde serena de inverno, os dois foram dar um dos seus passeios habituais. Uma gaivota atrevida, no preciso momento em que passavam um pelo outro, resolveu fazer as suas necessidades por cima de Paula, o que provocou aos dois uma enorme gargalhada. Bernardo, prontamente prestou ajuda a Paula e tocaram-se como se já se conhecessem há muito tempo. A situação deu origem à conversa e Bernardo convidou Paula para tomarem um banho. De imediato, Paula despiu-se e em roupa interior correu para a água. Por incrível que pareça não sentiu frio, mas um enorme fogo por todo o corpo. Os dois nadaram no mar sereno que se preparou para este encontro encomendado pelas estrelas. Bernardo aproximou-se de Paula, olhou-a nos olhos e beijo-a. Beijaram-se tão ardentemente que a paixão entre os dois despertou para sempre. A partir deste momento, os dois jamais se largaram. Foi a noite mais maravilhosa que o mundo testemunhou…

Paula e Bernardo fizeram planos e partilharam projetos. Escolheram destinos de férias e planearam a vida para viverem juntos. Tudo acontecia de forma rápida como a paixão que sentiam um pelo outro. As famílias aceitaram bem este novo casal e tudo se encaminhava para um final perfeito.

De súbito, Bernardo começou a sentir-se cansado e doente. Paula tranquilizava-o.

– O que poderia ter um jovem tão belo em plena flor de idade?! Nada estragaria a sua felicidade! Nada! – Dizia Paula para si própria.

De facto, os homens fazem os seus planos, mas Deus faz outros… Bernardo estava gravemente doente. Começou os seus tratamentos, mas já pouco havia a fazer. Paula manteve sempre a fé e juntos foram lutando, dia após dia.

Numa manhã fria de inverno, Paula revelou a Bernardo que estava grávida. A esperança, nesse preciso momento, tomou conta de Bernardo e agora sim começou a lutar com todas as suas forças. Sabia que a partir daqui teria uma responsabilidade acrescida. Aquele filho seria mais um elo forte de ligação entre os dois e um elo para se agarrar à vida.

Nasceu finalmente a Vitória. Os seus pais beijaram-na com o beijo mais sentido que alguma vez tinham dado. Eles sentiam-se fortes e unidos para a poderem ver crescer. Bernardo estava a melhorar de dia para dia e agora havia muita esperança no sucesso do seu tratamento. Vitória crescia e cada vez se tornava mais bela e inteligente, orgulhando-se do castelo de amor que a família tinha construído à sua volta.

Mais um Natal tinha chegado e a família celebrava em harmonia todos os preparativos desta festa. Pela casa espalhavam-se luzinhas e bolas e no canto da sala estava a grande árvore de Natal com o presépio. Neste nada faltava: Jesus, Maria e José, as ovelhinhas, os burros, as vacas a aquecer o menino, os pastores e os três Reis Magos. Vitória não se esquecera de nenhum elemento. Como se aquele presépio representasse a paz e o amor que se pretendia em cada família.

A noite foi mágica e em família tudo estava perfeito. Foram dormir mais tranquilos e felizes do que nunca. Esta paz não durou muito. Acordaram no meio das chamas e os gritos de dor atormentavam os seus corações. Os três andavam perdidos entre a confusão do fumo denso, dos pedaços de teto que caíam e das chamas que explodiam por todos os lados. O terror apoderou-se e nada mais sobrou.

Paula e Bernardo acordaram, dias depois, no mesmo quarto de hospital… sem a Vitória…

Vitória não resistira às queimaduras e partira. Aquele anjo passara nas suas vidas para lhes mostrar, num só ser, toda a beleza e força. Partira deixando marcas de amor eterno, deixando a mais bela prova de amor.

Não seria possível avançar sem a sua menina. Não seria possível continuar a viver com aquela perda. O mundo tinha desabado e os seus corações estavam destroçados com tamanha dor. Já nada fazia sentido.

Paula e Bernardo sentaram-se um ao lado do outro e olharam-se. Perceberam que o tempo tinha passado por eles. Onde outrora havia brilho no olhar, agora havia tristeza e desolação. Onde outrora havia um desejo arrebatador, agora havia vontade de morrer. Nem vontade tinham mais de dar o seu beijo. Aquele que se elevava aos céus e os transportava para outra dimensão.

Deitaram-se sem se conseguirem tocar. Apenas o silêncio. Um silêncio avassalador…

Acordei, já não estavas ao meu lado. Partiste. Levaste contigo o mais puro sentimento. Agora tudo acabou. Foste embora. Simplesmente. Sem deixar rasto. Apenas marcas eternas no meu coração.

Compreendo que não entendas o que aconteceu na nossa vida. Tudo começou de repente. Tudo acabou de repente. Precisamos de tempo para pensar em tudo o que nos aconteceu. Precisamos de digerir esta dor. Talvez nunca consigamos ultrapassá-la. Talvez o tempo nos volte a juntar, meu amor… Talvez… Já não há certezas. Apenas dúvidas, incertezas, perguntas no ar…

Os dias, as semanas, os meses, os anos vão passando. A minha perda tornou-se agora muito maior. Deixaste-me sem me dizer adeus. Deixaste-me para não me veres sofrer. Deixaste-me para eu não te ver sofrer. Ao nosso anjo do céu junta-se o nosso beijo eterno. Está congelado e parece que nunca existiu. Está a dormir ou morreu para sempre?

– Ó meu amor, vem para mim. Só me restas tu…

Paula não aguentou tanto sofrimento. O da perda e o do abandono. Voluntariou-se como missionária para África. Esteve ao serviço dos mais desprotegidos e carenciados, tentando preencher o maior vazio que sentia: o vazio do Amor. Em cada cenário de guerra que encontrava, por mais dura que fosse a realidade, nada se assemelhava à dor que o seu peito carregava. Salvou vidas, ao lado de médicos, padres, assistentes sociais e professores. Vidas que nunca conseguiram compensar as perdas que carregava no seu coração. Viveu no limite da pobreza, viu a degradação da dignidade humana, mas o seu ser tinha morrido para sempre há uns anos atrás.

Numa tarde de inverno, chegaram ao acampamento sete crianças em estado muito crítico. De imediato, a equipa se mobilizou para os primeiros socorros. Todas se conseguiram salvar. No meio destas crianças havia a Vitória, uma menina negra que ficara sem pais. Paula percebeu aquele chamamento de Deus. No entanto, tornara-se uma mulher dura e com uma capa implacável contra emoções. Nada mais a abalava como outrora. Nada mais a fazia cair. Nem aquela pobre criança. Paula sentiu que estava na hora de regressar. Beijou Vitória e regressou sem olhar para trás.

Voltou à sua praia na esperança de encontrar Bernardo. Voltou no dia seguinte e no seguinte e no seguinte.

Numa tarde serena de inverno, ao longe avistou Bernardo. Foram caminhando como que em câmara lenta. Os sentidos despertaram de novo. O turbilhão de emoções tomou conta de ambos e as pernas tremiam de sentimento puro. Aproximaram-se, olharam-se nos olhos e dirigiram-nos para o céu. Sorriram para o seu anjo e Paula espreitou pelo canto do olho para uma gaivota que estava a passar. Despiram-se e tomaram o banho que lhes faltava tomar: o de limpeza da alma. Bernardo tocou nos seios de Paula e beijou-os com o respeito de alguém que já amamentou o seu pequeno amor. Os dois envolveram os seus corpos na areia deserta e completaram-se num só. A paixão era agora de uma plenitude inigualável. Sentiram que nunca tinham estado longe um do outro.

Passados nove meses nasceu o Salvador. Paula e Bernardo beijaram o Salvador com todo o seu amor. O Salvador teria o seu lugar. Seria a esperança no meio da tristeza, que ia dando agora lugar a uma paz indescritível. O Salvador viria salvar estes corações revoltados e adormecidos.

No Natal que se aproximava, Paula estava inquieta e angustiada. Bernardo sabia a razão desta angustia e tudo fazia para acalmar o seu coração. Estavam de novo felizes com o Salvador e o anjo no céu que todos os dias lembravam e a quem rezavam.

Foi então que Paula contou a Bernardo sobre a menina que havia conhecido em África, a Vitória. De imediato, Bernardo percebeu que a teriam de ir buscar e trazer Vitória para o seu lar.

Vitória veio juntar-se a Paula, Bernardo e Salvador. O anjo que estava no céu guiaria para sempre os seus caminhos. Um caminho que se quer de amor. Um caminho onde para sempre reinou a paz.

Paula e Bernardo caminham agora tranquilos na sua praia, ao lado de Salvador e de Vitória, agradecendo a Deus a esperança que o seu anjo lhes ensinou a ter.

Paula e Bernardo amam-se com a força de se quererem conhecer melhor em cada dia que passa.

Amam-se com o seu beijo eterno, intenso, de desejo, de prazer, de serenidade, de agitação. Tal e qual o mar…

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