Partiu o Manuel Vinagre

A serra está mais pobre

 

• Texto de Fernando Luís Santos

 

O amigo Manuel Vinagre deixou-nos na véspera da festa de São Macário, o santo padroeiro desta serra que ele bem conhecia e amava.

Identificava todos os cantos e calcorreou a maioria, senão todos, os seus caminhos e veredas. Quis o tal destino que fosse numa das estradas onde certamente passou dezenas ou centenas de vezes a sua despedida da vida. Esta natureza que lhe serviu de berço acolheu-o também no último momento.

Conheci o amigo Vinagre nas deambulações pela região, na recolha de material para o meu programa O Som da Gente.

Foi o amigo comum, o Adriano Azevedo que o indicou. A ele agradeço a lembrança e grato fico também à Rádio Lafões e ao Paulo Fernando por me terem ajudado neste dever de divulgarmos personalidades que marcam as nossas terras como foi o caso do Manuel Vinagre.

Com ele gravei três programas: um sobre a pesca com chumbeira, outro sobre apicultura e ainda outro sobre a caça.

Na abordagem a estes tópicos vinham sempre, em catadupa, agarradas muitas lembranças, tradições da serra e histórias da tropa e da guerra colonial que, na altura, era o primeiro destino da nossa juventude.

Manuel Vinagre tudo explicava e enquadrava numa narrativa apaixonante.

Falava-nos da vida que girava à volta da Paiva, das lendas e dos ditados populares: por São Marcos barbos aos sacos. E lá nos exemplificava, em pleno rio, a arte de lançar a rede na cascalheira (foto ao lado).

Falava com o vento, interpretava o rumor da folhagem e previa o tempo pelo cantar da passarada ou pela espuma da água, no recanto das levadas.

Das abelhas, do mel e do melaço também sabia tudo. Aproveitou as encostas de Bordozedo e Meitriz para colocar as suas colmeias que teimava em tratar e onde combatia as diversas doenças e pragas como a das vespas asiáticas que ultimamente lhe davam mais trabalho que os turras em Angola.

Na caça, com destacado papel no associativismo, revelava-se cuidadoso na protecção das espécies.

Foi quando o acompanhava, neste passatempo, pelos montes de Covas do Rio que me falou de alguns episódios arrepiantes da sua passagem pelo ultramar.

A sua maneira de ser, aliada a uma estampa física, moldada na vida rude da serra, foi o perfil perfeito para a promoção deste soldado a comando.

Era com muito orgulho que falava do ambiente de cooperação e camaradagem que viveu no tempo do serviço militar. Exemplar desempenho valeu-lhe a alta distinção de Cruz de Guerra.

As amizades criadas nessa altura, permaneceram para sempre. Muitas vezes organizou encontros da sua companhia onde nunca faltava.

Tinha orgulho na terra que o viu nascer, Meitriz, e era com um brilhozinho nos olhos que nos falava dos costumes e tradições do seu e dos outros lugares serranos.

Nos encontros do Grupio, no Ratinho, na falta do violino, era ao som da concertina da pequena Lúcia que, com entusiasmo e suor, dirigia a contradança.

As diferentes ideologias política, em que cada um de nós militava, nunca foi obstáculo ao nosso entendimento.

No amigo Vinagre sempre encontrei a pedra firme onde assenta o diálogo apetecível, o são convívio.

No seu vaivém do dia a dia, frequentava Arouca e S. Pedro do Sul. Não tivesse ele nascido no concelho vizinho e fixado depois residência no de S. Pedro do Sul.

Este homem, conhecido em toda a região, revelou-se numa força da Natureza. Também por isso, a serra, de Janarde, onde fixou a sua última morada, ao alto de São Macário, com as urzes que a cobrem na Primavera, as águas da Paiva que barulham, de pedra em pedra, no Inverno, agora, murmuram baixinho, como que a chorar a partida de um dos seus.

Nota: Neste texto, o autor não seguiu as normas do novo Acordo Ortográfico

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