Parabéns Isabel Silvestre!

"Cantar é ter a capacidade ou ter a sorte de a ter, de pegar em palavras e na música, pois seria a música dentro da palavra e a palavra dentro da música, com emoção e a capacidade de ela chegar ao outro com a mensagem que a gente lhe quer dar. E só assim é que eu entendo o que é cantar, porque de outra maneira não se canta”.

Fotografia da autoria do sampedrense António Homem Cardoso e foi usada na capa do LP Vozes da Terra do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce, editado em 1990 pela EMI-Valentim de Carvalho, Música, Lda

Evocar a professora Isabel Silvestre é chamar à narrativa um dos expoentes de um património que a todos nós diz substancial respeito. Tendo em consideração todas e todos que, sem exceção, mantêm vivas as tradições culturais do nosso concelho, a expressiva entoação da voz de Isabel Silvestre encarna a soma de todas as vozes que, ao longo dos tempos, sustêm as práticas musicais de matriz rural de São Pedro do Sul. Celebrar os seus 80 anos, desabrochados no telurismo das montanhas, significa também descerrar a imaterial herança das almas dos que cantam e dos que dançam. No próximo dia 4 de março celebraremos o seu aniversário. Por motivo dessa efeméride, atendendo que as homenagens devem prestar-se em vida, nas páginas seguintes, os que cruzaram o seu percurso, dedicam-lhe o seu testemunho. Parabéns professora Isabel Silvestre, a sua história, indubitavelmente, permanecerá como parte da nossa própria história.

 

VOZ NA TERRA A VOZ NOS MUNDOS

• Rui Reininho (Vocalista da banda GNR – Grupo Novo Rock)

Quando o instrumento primordial surgiu pela primeira vez na face da Terra, espelhando a vontade divina, antes mesmo de ser palavra, ele era o som do cosmos, era a Voz:  Sendo sublime e vencendo todos os elementos e acompanhada ou não por futuros instrumentos, ela escolheu e ditou o seu destino, guiando a humanidade, pedindo leite materno, declarando Amor, gritando Vitória ou implorando clemência. O destino dessa Voz é encantar e enfim cantar. Aqui descobrimos factos tão perto do chão que dá pão, azeite e uvas e chega aos céus em apelos, interrogações e súplicas e onde encontramos Isabel Silvestre, majestosamente serena e elegante ecoando no espaço sem tempo sem nos interrogarmos donde esta Voz veio, quem a trouxe e onde nos levará. Nada como viajar na memória e procurar a altura em que os nossos mundos, aparentemente tão distintos na vivência se encontraram e descobrimos a simpatia, a singeleza, a curiosidade amável e a disponibilidade para em conjunto criarmos e actuarmos em circunstâncias tão imprevisíveis que só o talento inato, o dom e a intuição de Isabel Silvestre puderam ultrapassar. Como criar e sugerir para a diva do povo, femina das serras, eco do passado e ululante prece dum futuro optimista sem pisar o seu chão sagrado de urze e pedraria ancestral? Como abordar a artista, a mestra, a simpática figura de timbre alto e conquistar-lhe a ternura e a amizade recíproca, sentir ao seu lado a vertigem das multidões ululantes mudas & quedas respeitosamente atentas perante a nossa… Pronúncia do… Mundo? Com eterno respeito e elevação destes amigos GNR`s, oficiais da Música Moderna Portuguesa, pelo seu porta-voz.

 

Da empatia, da cumplicidade, do canto, da vida

• Margarida Silva (Vice Presidente da Associação Canto a Vozes – Fala de Mulheres)

Ver, ouvir, sentir, cheirar é com a terra que aprendemos (Isabel Silvestre).

Falar de Isabel Silvestre não é tarefa fácil. Conhecida como a voz de Manhouce, Isabel Silvestre é bem mais do que essa voz. Ela é a voz das mulheres que fazem do canto a sua forma de estar na vida, em todas as suas dimensões e em todos os momentos do seu quotidiano. Quando um dia se escrever a história da música tradicional portuguesa e, em particular a do canto de mulheres a cappella, Isabel Silvestre terá lugar de destaque.

Mulher lutadora, de grande sensibilidade e emoções profundas, amante de música e do território da sua infância onde se cantava por tudo e por nada, aberta ao mundo, dona de uma voz e timbre únicos, tem sido, ao longo da vida, a grande divulgadora de um canto definidor da nossa identidade.

Conhecer o passado e preservar o presente para construir o futuro, parece ser o seu lema. Por isso, do alto dos seus 80 anos, reformada da sua profissão de professora, continua a recolha de novas cantigas, adivinhas, contos, provérbios, receitas e saberes da sua Manhouce que regista em livro.

Em 1978, Isabel Silvestre co-criava o Grupo de Cantares e Trajes de Manhouce. A muitos quilómetros de distância, nascia, em 1979 em Oeiras, outro grupo, o Cramol, ao qual pertenço. Uma paixão comum pelos cantos de mulheres que se entoam do berço à cova, unia-os sem que soubessem ainda um do outro.

Isabel Silvestre tornou-se uma voz incontornável do canto a vozes o que veio dar um outro ânimo às mulheres que moldavam a sua vida quotidiana com o canto. Pelo seu lado, o Cramol influenciou a criação de outros grupos citadinos como ele. Estes caminhos foram paralelos até que Isabel Silvestre e o Cramol se cruzaram pela primeira vez nas gravações de Pangea, o Hino da Expo 98 da autoria de Nuno Rebelo. A grande generosidade da Isabel levá-la-ia a partilhar connosco um dos palcos da Exposição que era seu nesse dia.

Foi aí que a nossa relação de empatia e cumplicidade se iniciou. A admiração pela voz e pelo trabalho de alguém, toma outra dimensão quando os espíritos se encontram.  Quando nos cruzamos, por acaso ou não, é como se nos conhecêssemos há muito.  A conversa e as gargalhadas fluem.

A paixão comum pelo canto viria a juntar-nos de novo. Desta vez para dar voz e visibilidade maiores ao canto de mulheres.

Depois de muito caminho andado, a “Associação Canto a Vozes – Fala de Mulheres” é, desde 1 de Março de 2020, uma realidade e reúne mais de cinquenta grupos.

Isabel Silvestre que a ajudou a criar, é um dos membros do seu Conselho Consultivo.

Está mais perto a inscrição do canto a 3 ou mais vozes no Inventário Nacional do Património Imaterial.

As nossas conversas, enquanto durarem estes tempos que nos causam estranheza, são agora apenas à distância, mas o desejo expresso de outras aventuras em conjunto tornar-se-á, ele também, uma saborosa realidade.

Longa vida, Isabel!

 

Isabel: uma voz Silvestre

• José Barros (Cantor, Produtor, Compositor e Músico)

Conheci a Isabel Silvestre quando me interessei pela música tradicional portuguesa, penso que logo em 1981. Quem, como eu, tem a paixão pela cultura portuguesa, pela música, pelos instrumentos, pela voz e pelas vozes, pelo canto tradicional, facilmente chegava à conclusão que Isabel Silvestre era, conjuntamente com Catarina Chitas, de Penha Garcia, duas das mais belas e representativas vozes da música e da cultura tradicional portuguesa. Ainda hoje, a Isabel é a mais bonita voz do canto tradicional

português. Seja a vozes, como no caso das Vozes de Manhouce, seja a solo.

Pessoalmente, conheci a Isabel em 1997 a propósito do convite do João Gil, na qualidade de produtor, para gravar o primeiro disco a solo da Isabel: A Portuguesa, assim se chama o disco. Nesse mesmo ano comecei a dirigir os imensos espetáculos ao vivo, cujo ponto alto foi o grande concerto apresentado na Expo98, em Lisboa. Começou aqui uma ligação pessoal e musical, de identificação cultural muito forte, com a Isabel, até aos dias de hoje, até ao disco Cânticos da Terra e da Vida, por mim gravado, produzido e editado em 2016.

Grupo As Vozes de Manhouce

A Isabel faz parte do património cultural vivo deste país e, neste mundo globalizado, são pessoas assim que mais fazem a diferença. Porque não é só a Isabel cantar: é saber cantar; é saber porque canta; é saber e conhecer bem tudo o que canta; é saber como cantar onde se apresenta e como se apresenta; é saber dizer não a iniciativas que nada lhe dizem; é saber estar seja em que situação for, sempre, mas sempre, na qualidade daquilo que se tornou, ou no que o tempo a tornou: uma das maiores defensoras da memória e do património imaterial português, de forma natural, porque é essa mesmo a sua forma de ser e de estar no mundo.

Para mim, que sou seu amigo, saber que a Isabel continua Silvestre, como sempre foi, rustica quando quer, citadina como nenhuma outra, emancipada na sua qualidade de mulher forte e independente, de uma beleza rara que podia até ser busto da República Portuguesa, tais são as suas expressões identificativas do que será (ou poderia ser) a mulher portuguesa, é uma rara aparição na vida de um povo, de um país.

A Amália que todos sabemos quem é, sabia muito bem quem era a Isabel Silvestre, porque em termos culturais e musicais, a tradição e a imagem de um povo poderiam estar todas no olhar, no saber e na voz de Isabel Silvestre.

 

Homenagem à minha querida Isabel

• António Homem Cardoso (Fotógrafo)

Memória maior da minha geração e das minhas gentes, a Isabel Silvestre fez-se uma lenda nos trilhos prodigiosos do canto.

Austera e belíssima, porte fidalgo e nobreza de caracter, uma rara intuição para o divino dos sons…. e, eis a Morgada que abriu as portas de S. Pedro do Sul ao mundo.

O oráculo de Delfos teria adivinhado. Portugal ensaiava a sua modernidade e uma nova visão da sua História, concedendo a Manhouce o título de segunda aldeia mais portuguesa de Portugal. Tocaram os sinos, estalaram foguetes, Manhouce engalanou-se com festas e folguedos nunca vistos.

Dignificada, a Aldeia pouco tempo depois retribuiu com a grandeza das gentes serranas: Embrulhou em linhos de fantasia e paixão uma bebé gentil e sorridente e ofereceu-a à Nação para que o nome de Manhouce e da Isabel ficassem gravados na eternidade da alma portuguesa.

Admirada sem reservas pelos maiores da sua arte, a voz da Isabel consegue o sortilégio de nos transmitir a memória genética que paira na poalha do tempo para nos devolver, inteira, a condição terrena e divina de que somos feitos. O corpo e a alma, quero dizer.

Na voz da Isabel “vejo” imagens de muito do que amo na vida. Do silvo agudo do pássaro azul que anuncia a madrugada até ao bater de asas do restolho na brisa da tarde de uma colheita de verão.

Parabéns Isabel. Nem sei dizer quanto gosto de ti.

 

Isabel Silvestre – Bem hajam os cânticos que emergem da sua voz puríssima

• Carlos Matias “da Ponte”

No ano de 1969 nas Termas de São Pedro do Sul ocorreu o I Colóquio Regional de Turismo e Termalismo de Lafões. Estiveram presentes – estávamos na Primavera de Braga – membros do governo ligados ao setor e os principais quadros da administração central. Os Cantares de Manhouce com Isabel Silvestre foram convidados para atuarem na cerimónia de encerramento. Os presentes ficaram perplexos com os cânticos que escutaram. A começar por nós próprios, sampedrense da Ponte que não conhecíamos a singularidade daquela realidade. Depois a Casa de Lafões de Lisboa convidou Isabel Silvestre e o grupo para uma atuação. Estivemos presentes e dadas as funções específicas que então desempenhávamos na função pública achámos que era altura de pormos Isabel Silvestre e os Cantares a servirem e a divulgarem aspetos específicos da cultura portuguesa. Depois de participarem no Festival de Folclore do Algarve, começaram a ser convidados e contratados para atuarem em cerimónias e espetáculos em todo o país. Passámos também a acompanhar o grupo a Espanha, França e Brasil, depois de se criarem os estatutos respetivos, para que juridicamente o grupo existisse. Um dia descobrimos que Natália Correia conhecia os Cantares e Isabel Silvestre, escreveu “Da magia do Coral de Manhouce se eleva como uma auréola musical a voz puríssima de Isabel Silvestre em que se ouve o marulhar das águas maternas da origem. Bem hajam os Cânticos que adormecem os corações insones destes tempos escurecidos pela peste do ter, que incendeiam a História” para a capa de um dos discos editados pela EMI-Valentim de Carvalho, onde David Ferreira e Mário Martins pontificavam. O Secretário de Estado do Turismo, admirador da Isabel Silvestre e dos Cantares, confere-lhes a menção honrosa de 1º Grau de Mérito Turístico por divulgação dos Cantares Tradicionais no país e no estrangeiro.

O Presidente da República Jorge Sampaio, melómano, em cerimónia solene em Guimarães atribui a Isabel Silvestre a Comenda da Ordem do Infante. O Presidente da República antecessor, General Ramalho Eanes e D. Manuela Eanes admiradores do grupo e de Isabel Silvestre visitam Manhouce e recebem o grupo no Palácio de Belém. Quando de uma das idas ao Brasil, torna os Cantares portadores de uma mensagem pessoal que seria lida em todas as atuações. O Presidente da Assembleia da República, Fernando Amaral convida Isabel Silvestre e os Cantares para uma cerimónia de receção a deputados ingleses, o que deu ensejo a uma intervenção sobre folclore, no Plenário, aplaudida por deputados de todos os partidos e independentes. Amália Rodrigues convidou Isabel Silvestre e o Grupo de Cantares a cantar em sua casa. Nesta altura, em que se saúda Isabel Silvestre, não podemos deixar de referir um dos momentos mais impressionantes que vivemos com o grupo, que o correspondente da Tribuna de Lafões relatou emocionado. Na Igreja de Nossa Senhora da Candelária no Rio de Janeiro, numa Missa que aí teve lugar dita pelo Padre de Manhouce. Conjuntamente com o padre daquele templo, o organista, após cânticos solenes e solos de Isabel Silvestre em que se ouviu “o marulhar das águas maternas da origem”, no momento da Elevação da Hóstia, arranca do seu órgão os acordes do Hino Nacional Português. Ainda hoje, ao lembrar “isto” sentimos algo em comum. Na vinda combinara-se entregar no edifício da Câmara a bandeira do município que se levara. Por motivo de um desastre em Vouzela chegámos atrasados. O vereador respetivo – o Presidente da Câmara estava ausente por motivo de férias – não recebeu o grupo pois encerrara as portas do edifício. A bandeira que se prestigiou foi entregue ao povo presente. Mas dezenas de anos depois, após governo, presidentes da república terem louvado e condecorado Isabel Silvestre, a Câmara da sua terra rendeu-se e homenageou-a numa cerimónia em que outros distintos sampedrenses foram louvados naquele dia de São Pedro. Parabéns Isabel Silvestre. Daqui a umas largas dezenas de anos ninguém “falará” das pessoas havidas como importantes hoje na região. Mas a Comendadora Isabel Silvestre permanecerá na lembrança dos tempos e tornar-se-á uma lenda.

 

Memórias e ressonâncias na voz de Isabel Silvestre

• Maria do Rosário Pestana (Docente na Universidade de Aveiro)

E é da persistência desse hoje comprovado património em que se inscrevem arquétipos matriarcais provindos de uma teologia do feminino provectamente anterior à religião patriarcal dos hebreus que, da magia do Coral de Manhouce, se eleva, como uma branca aureola musical, a voz puríssima de Isabel Silvestre em que se ouve o marulhar das águas maternas da origem

(Natália Correia 1990).

Só uma poeta como Natália Correia faz das palavras um trilho até ao âmago da mulher, da voz de Isabel Silvestre e das suas múltiplas ressonâncias. Confrontada com o desafio da Gazeta da Beira, pergunto-me o que possa eu escrever que desdobre aquelas palavras sem fragmentar o seu alcance. Opto por lançar mão de lembranças, de notas e reflexões que registei no caderno de campo para assim, espero, esboçar facetas de um grande vulto da música portuguesa.

Foi no início dos anos noventa do século passado que, pela primeira vez, conversei com Isabel Silvestre. Abriu-me a porta da Casa da Benta, em Manhouce. A saudação ‘Ora, boa tarde …’ foi acompanhada pelo gesto acolhedor de encaminhamento para dentro da sua residência. Sentámo-nos lado a lado e entreguei-me à escuta de memórias pela voz que conhecia tão bem. Fora ‘o grão’ daquela voz que me levara a Manhouce. Rendia-me agora à beleza do timbre texturado da sua fala. A conversa não foi bem uma conversa. Foi mais um ouvir e um dizer memórias, memórias que ligaram todos os tempos e todos caminhos a Manhouce, à rua e à casa dos Silvestre.  Isabel Silvestre falou do concurso A aldeia mais portuguesa o qual, em 1938, levou a Manhouce uma comitiva de figuras ilustres; falou dos grupos de cantadeiras que aguardavam, na rua, o compasso pascal em Manhouce; do folclorista Armando Leça que em finais dos anos 1950 permaneceu em sua casa,… encadeou os casos, os acontecimentos, os lugares, as pessoas, numa lógica verbal e vocal, épica e encantatória. Sim, porque o corpo apagava-se, a favor da vocalidade, do olhar, do leve tombar sobre o braço direito ou esquerdo. Apesar de já conhecer muitos dos factos, rendi-me à escuta da voz que me conduzia à experiência dos tempos, lugares, acontecimentos narrados, lado a lado com as pessoas evocadas.

Nesta e noutras conversas, ou nos múltiplos palcos em que ouvi a sua voz, Isabel Silvestre transformou o dizer e o cantar num espaço cénico muito próprio, mas relacional, aberto à construção de múltiplos sentidos, nomeadamente em diferentes domínios da música. Na sua voz ouvimos o ‘padrão aprendido’, as posturas articulatórias próprias dos cantares de Manhouce, a nurture ou os arquétipos matriarcais referidos por Natália Correia. Mas não só.  No vocálico de Isabel Silvestre dão-se a ouvir esses coletivos (seja a sociedade matriarcal, ou a cultura de Manhouce) ao mesmo tempo que a matéria vibrante da unicidade do seu dizer e da sua qualidade vocal ressoam em nós, ouvintes, de modo intangível.

 

Aniversário da Isabel Silvestre

• Mário Martins (ex-produtor e A&R da editora EMI-Valentim de Carvalho)

Aproxima-se a data do aniversário da Isabel Silvestre e ao mesmo tempo sou abordado por quem me pede um testemunho destinado a um órgão de comunicação. Em vez de responder com a adequada reação, mas porquê eu anónimo ancião já sem préstimo? Reflito e ocorre-me: com a minha idade já tenho obrigação de saber que as entidades que deviam aproveitar a oportunidade para cumprimentar a Isabel e agradecer-lhe a generosidade com que ela ao longo da vida se propôs distribuir por todos nós, sem distinção, o quinhão de mérito com que a vida a presenteou. Esses, os responsáveis pela cultura esquecem na grande maioria dos casos de cumprir a sua obrigação. Que é a de agradecer a quem voluntariamente se dedica a melhorar a vida de todos nós concedendo-nos o bem-estar espiritual que devia ser a função das entidades que administram a Cultura. Bem, a ocasião é de regozijo por continuarmos a usufruir da presença da nossa querida Isabel e eu em vez de chorar a ausência da justiça, quero aplaudir o facto de continuarmos a beneficiar da riqueza que é a Isabel que sem pedir nada nos tem dado tudo, todo o tesouro de qualidades com que a vida a premiou. Eu, que além de admirador fui agraciado com o privilégio de ter podido ajudá-la a distribuir o talento, posso dizer que sou o garante do desinteresse material com que a Isabel partilhou com todos nós o seu tesouro. A Isabel é um ser humano raro por ter sido escolhida e abençoada com tantas qualidades, bem merecidas afinal, porque não se limitou a usufrui-las, constituiu-nos desde sempre seus herdeiros com direitos indiscutíveis ao seu legado. Bem-haja Isabel, por ter sido abençoada e acima de tudo pelo gesto de generosidade que tem sido ter partilhado connosco seus admiradores, as suas tão grandes qualidades artísticas e humanas.

 

Isabel Silvestre no seu 80º aniversário

Testemunho pessoal

• Teresa Sobrinho (Vereadora da Cultura na Câmara Municipal de S. Pedro do Sul)

A voz que da Isabel Silvestre sai… Não. Não é só uma voz. É uma coisa mais profunda, telúrica, uma coisa que sai do pensar e do sentir de um povo ancestral usando por intermediária a sua voz. O que da Isabel Silvestre sai é a própria Manhouce!

Essa voz manhoucense, nascida entre o interior e o litoral, ecoou por serras e vales, desceu a S. Pedro do Sul, cresceu no distrito, deu-se a conhecer por todo o Portugal, para depois correr mundo fora com as cantigas da sua terra.

E, a Isabel Silvestre, sua intérprete, é agora a maior embaixadora da etnografia regional lafonense nos cinco continentes!

Quem, sem a conhecer, com ela se cruzar num salão repleto de gente, percebe imediatamente que a Isabel Silvestre é luz que fulgura. Vê uma figura manhoucense: pose majestática, rosto expressivo, figura enérgica e trajada a preceito. E, na sua sensibilidade de mulher, vê uma personalidade lutadora, persistente, que tudo concretiza com a leveza de um sorriso que é espírito e de uma voz que é coração.

As cantigas tradicionais, na vida artística da Isabel Silvestre, são praticamente tudo, sem, no entanto, serem tudo. Ela é uma autêntica locomotiva cultural. Leva consigo outras carruagens: os grupos corais que cria e dinamiza, a preservação e divulgação da etnografia local em publicações e na comunicação social, as participações em projetos culturais de S. Pedro do Sul e dos artistas seus amigos, os discos e os espetáculos a solo, a força imprimida para a candidatura do Canto Feminino de Manhouce a Património Imaterial da Humanidade… E mais, tanto mais! É, na sociedade local, e no panorama nacional, uma referência cultural, com alma de artista maior.

Profissionalmente, a Isabel Silvestre, durante anos, esteve ligada ao ensino primário. E, na causa pública, exerceu funções autárquicas na Junta de Freguesia de Manhouce.

Mas, o que, livre e sem esforço, corre no sangue da Isabel é a expressão feminina do canto tradicional da sua terra.

Brindando à vida e à nossa amizade, o que eu mais desejo, para o 80º aniversário da nossa cantadeira, é que, nos próximos 80 anos, continue com as suas cantigas e que S. Pedro do Sul e o mundo a continuem a ouvir!

 

A representante da cultura tradicional portuguesa

• Dom Duarte de Bragança

Foi-me apresentada há bastantes anos pelo nosso comum amigo Mestre António Homem Cardoso. A convite da Isabel fomos a Manhouce com a minha Mulher e os nossos filhos Francisca e Afonso. Fomos recebidos com os belíssimos cânticos tradicionais de Manhouce que nos impressionaram. Os nossos filhos passaram a referir-se à Isabel não como a “amiga cantora”, mas “a amiga encantadora”…

Tenho dito em muitas ocasiões,  em algumas entrevistas, na rádio e na televisão que a Isabel e o Grupo de Cantares de Manhouce representam um exemplo de como a cultura tradicional portuguesa atinge uma qualidade excepcional entre as várias culturas europeias e que, quem cultiva com qualidade, merece o reconhecimento de todos nós!

Na maior parte dos países europeus, aliás, de todos os países do mundo, as culturas tradicionais dos seus povos são consideradas elemento fundamental de sua identidade. Infelizmente, grande parte das auto proclamadas elites culturais portuguesas trata a nossa cultura com condescendência ou mesmo com um certo desprezo. Isto deve-se sobretudo a uma lamentável falta de auto-confiança nas nossas raízes e por vezes mesmo uma certa insegurança quanto às suas próprias raízes familiares. Esta falha cultural manifesta-se na destruição da beleza arquitectónica das nossas povoações, em particular visível no modo como tantas cidades, vilas e aldeias têm sido desfiguradas com autorização das autoridades responsáveis.

Os habitantes de Manhouce, graças à influência cultural da Isabel e do Grupo de Cantares têm sabido preservar a sua herança arquitectónica inclusive nas construções mais recentes. Perceberam que o modelo tradicional de casa, beneficiando do confortos modernos, é muito mais belo e até confortável do que o modelo habitual dos nossos tempos que destoa completamente do seu ambiente. Este erro tanto acontece em casas rurais, como, mais grave, em construções realizadas pelo Estado. O contributo da Isabel Silvestre para a preservação da identidade cultural portuguesa tem sido muito valioso e importante. Faço votos para que o povo de Manhouce e de toda a região saibam fazer frutificar este trabalho.

Despeço-me com votos afectuosos da minha Família e meus, pelo seu aniversário, e de que Deus a abençoe!

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