Os motivos e o pretexto

Mário Pereira

A entrevista do eng José Sócrates à TVI, em que ele apresentou a sua versão do processo em que é acusado, tem feito correr muita tinta, mas não resisto a dar a minha opinião.

É verdade que algumas das situações em que ele próprio confirma ter estado envolvido, nomeadamente os empréstimos do amigo, podendo não ser crime, não são muito recomendáveis,

Tendo as coisas acontecido como o eng. Sócrates contou é evidente que o Ministério Público tem vindo a cometer uma série de atropelos.

É minha opinião de que a verdadeira causa destes atropelos foi o facto, de desde há muito tempo a esta parte, estar formada a convicção de que o José Sócrates terá cometido, enquanto governante, atos criminosos, nomeadamente crimes de corrupção.

Nas conversas sobre José Sócrates entre amigos e também, nas que calhou ter, com várias pessoas ligadas à justiça muito raramente alguém admitia a mínima possibilidade de ele não ser corrupto.

Esta convicção cresceu com todos os processos judiciais em que ele apareceu referido dos quais o mais famoso foi o Freeport.

Esse consenso, de que ele seria criminoso, mostrou-se na plenitude quando o Procurador Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça foram severa e amplamente criticados por terem tido intervenções desalinhadas da verdade aceite.

A sua vida em Paris, com grandes despesas e sem rendimentos que as suportassem, contribuiu para reforçar essa convicção entre a comunicação social e a população em geral mas também  junto do Ministério Público e dos Juízes.

Motivos havia muitos, mas faltava um pretexto.

Quando surgiram os empréstimos do amigo, mal explicados, o Ministério Público e o Juiz de Instrução pensaram ter encontrado o motivo que ao longo de anos lhes havia escapado. Daí que tenham atuado sem as cautelas que o caso recomendaria.

Depois da entrevista ouvi alguns comentadores, daqueles que assumem que José Sócrates além de mau político é também um corrupto, usarem como último argumento que ninguém tem amigos que emprestem ou deem dinheiro sem condições.

Eu não tenho amigos assim, mas é público que um construtor civil deu um presente de oito milhões de euros ao dr. Ricardo Salgado, quando este ainda era presidente do BES.

Talvez por mera coincidência veio a saber-se que esse senhor é um dos maiores devedores do BES, nomeadamente do BES Angola.

Até hoje não vi o Ministério Público investigar com o mesmo afã aquela oferta, que nos termos da lei bancária constitui crime.

Um amigo especial tinha também o professor Cavaco Silva que, na qualidade de presidente do BPN, lhe vendeu ações a um determinado valor e passados algum tempo lhes comprou pelo dobro.

O próprio professor Marcelo Rebelo de Sousa também já assumiu que gozou férias oferecidas pelo Dr. Ricardo Salgado.

Amigos foram os gestores do PT que ofereceram 900 milhões de euros aos amigos do BES.

Muitos figurões da nossa sociedade também tiveram amigos nos bancos que lhes emprestaram dinheiro a rodos sem garantias adequadas e que eles aproveitaram para derreter ou passar para sociedades offshore, muitas vezes recorrendo a falências  fraudulentas.

O  jornal Expresso de 23 de dezembro explica como funcionavam alguns desses esquemas entre amigos e que só em prejuízos dos bancos  já custaram 40  mil milhões de euros. Que nós vamos pagar com língua de palmo.

Como se vê, anda por aí muita gente importante que recebeu de ou deu a amigos quantias imensas de dinheiro que muitas vezes não era deles mas nosso.

Se ter amigos que emprestam ou dão dinheiro de forma duvidosa é critério para ser investigado  pelo Ministério Público fico à espera para ver.

Como espero também ver a comunicação social investigar com empenho estas teias de amizades.Redação Gazeta da Beira

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