Os livros da crise…
Manuel Veiga
Gosto de me mover no meio de livros. Um ritual que, por alguma qualquer razão, me apazigua. A verdade é que sempre gostei de livros, (mesmo antes de o saber), desde que, maternalmente, aprendi a soletrar as primeiras letras, em jornais atrasados, ou outro qualquer papel, servindo de cartilha.
De facto, existiam poucos livros lá em casa, nos tempos da minha meninice. Apenas, na estante do oratório, debruada a linhos e bordados, como sacrário, que se oferecia, no gineceu da casa, a femininas devoções e novenas, uma Bíblia já gasta e um precioso “Livro de Horas” de capa lacada. Ou algumas biografias de santos com folhas soltas e rasgadas e outras publicações religiosas, herdadas de tias de piedosas.
Talvez o gosto pelos livros provenha daí, desse afago quente e cúmplice das primeiras letras e dessa inacessibilidade primeva ou do deslumbramento infantil perante a iconografia daquele santuário familiar.
Seja como for, hoje, os livros mantêm uma espécie de aura, que gosto de frequentar. Ao longo da vida tenho adquirido alguns, não tantos como por certo desejaria, mas bastantes para ter a certeza que muito deles não terei tempo para ler.
Ultimamente, surpreendo-me a adquirir livros como quem faz testamento. Isto é, como quem deseja que, depois de mim, fique o registo de que de mim fale, na falta de outra glória, riqueza ou talento que me acompanhe. E tenho esperança que os livros serão lidos. Será, de alguma maneira, a minha forma de moldar o futuro…
Sabem, por certo, os meus amáveis leitores que Jorge Luís Borges, num conto fantástico (A Biblioteca de Babel), afirma que o Universo é uma Biblioteca por onde peregrinamos em busca de um livro (ou será o Livro?), mas a biblioteca é interminável. Não ouso assomar sequer, quanto mais percorrer, os escaninhos labirínticos da Biblioteca de Borges, mas não me coíbo de passar os dedos pelas lombadas dos livros ao meu alcance, leve que seja o desejo e o entendimento.
Deambulo, portanto, sempre que a ocasião se proporciona, pelas livrarias; não com a pretensão de um dia encontrar a decifração da verdade, mas em qualquer caso, para procurar algum alento contra a mentira.
E, nestas peregrinações, me vou gastando e melhor conhecendo o Mundo…
Há alguns anos a esta parte, surgiram em Lisboa, em algumas estações do Metropolitano espaços de venda, onde os livros se derramam numa espécie de bric-à-brac horizontal, como se um capricho invisível tivesse apeado a imponência majestosa das velhas livrarias e a Biblioteca de Babel fosse, já não a infinita cornucópia labiríntica de que fala Borges, mas antes a rasoira implacável do deus-consumo, que tudo expele e degrada. Até os livros…
No entanto, nesses espaços de reciclagem, por entre restos e lixo editorial, descobre-se, por vezes, uma pérola ou outra, que como caçador de tesoiros me gratifica e conforta, breves que sejam os momentos…
Na sequência de uma dessas incursões colhi um singelo apontamento do quotidiano, que passo a narrar, um quase-nada, um pequeno detalhe tão denso de significado que, como breve centelha de esperança, ilumina a vida e preserva intacto o futuro. Pelo menos perante meus olhos, nunca cansados de deslumbramento e de surpresa…
Ora vejam…
Foi uma tarde de Domingo, pelas 16 horas da tarde. O centro comercial, regurgitava. Massas humanas atropelavam-se numa moleza de autómatos, nas escadas rolantes e nos espaçosos corredores, espreitando as vitrinas e mastigando a angústia e o vazio. Crianças pela mão, exigentes nas solicitações, que as coloridas promessas, ali à mão, se ofereciam nas lojas e no esplendor dos enfeites…
E os pais, sabe-se lá qual com que mágoa: “Não pode ser, não pode ser…” – puxando pelas crianças lacrimosas, num gesto de impaciência mal contida…
Rumei, pois, nas minhas deambulações. E, em breves instantes, deparei-me com um desses espaços de venda de livros, onde entrei, não sei bem se para aplacar a angústia da tarde, se arrastado pelo hábito. Tive sorte. Dos escombros em saldo, por entre publicações de erotismo de pacotilha e outras esotéricas, com promessas de felicidade futura, veio parar-me às mãos um volume, há muito cobiçado, da obra de um dos grandes vultos da cultura europeia do século XX.
Dei o dinheiro (cinco euros) por bem empregue. E, saboreando a minha descoberta, dirigi-me a caixa. À minha frente, na fila de pagamento, o momentâneo prodígio. Um jovem, com menos de trinta anos, manifestamente de formação académica superior, de ténis gastos e roupa poluída mas de bom gosto, rosto marcado e expressivo, olhar firme e magoado surgiu, perante no meu espírito inquiridor, como um digno exemplo da geração dos € 500 euros, não sei se no desemprego, se aguardando a oportunidade de emigrar.
Insisti no olhar, o que manifestamente o incomodou. Mas então a minha curiosidade já se deslocara. O centro agora era a doçura de criança como menos de três anos, loira e encaracolada, que segurava pela mão. Falava pelos cotovelos a rapariguinha. E perante o meu mal contido desvelo e meu sorriso babado, a menina estendeu-me um dos livros infantis do monte, que segurava com dificuldade: “O papá compra!…” – esclareceu-me em seu linguajar…
Vinte euros! – anotei no registo da máquina. O preço da felicidade de pai jovem e desempregado. E de uma filhinha linda…
“Só pela sede se aprende a água…” – balbuciei intimamente, apaziguado e comovido.Redação Gazeta da Beira
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