Os “escândalos” do… Ecos do Vouga

24/10/2013

Os “escândalos”  do… Ecos do Vouga

Depois de muitas semanas a elogiar Afonso Costa pelo, no seu entender, bom trabalho como chefe do governo e a fazer eco das homenagens que lhe foram prestadas, de Norte a Sul do País, a seguir à sua demissão, a Imprensa lafonense vira-se para os eventuais escândalos que estariam a acontecer em S. Pedro do Sul, a nível da liderança da autarquia.

O Ecos do Vouga tinha, desde a sua fundação, um inimigo de estimação, ao qual dedicava todas as semanas alguns “mimos” particulares, sobejamente depreciativos,  chamado Dr. Ferreira de Almeida. Este influente médico, que trazia da Monarquia já um interessante curriculum, pelos cargos que acumulou ao longo de vários anos,  continuava, após a implantação da República, a ser o  médico responsável pelas Termas,  Presidente da Câmara, conseguido através de eleições, e ainda dono  do Jornal de Lafões, digamos que a “bête noir” do semanário republicano.

É nesta conjuntura, perante os “fumos de corrupção” que viriam do lado da sede do Município, que o jornal de Moreira de Figueiredo se vira para os supostos negócios menos claros, em que o então Presidente da Câmara estaria envolvido, a propósito do lançamento de duas importantes obras no concelho: a Avenida Conselheiro José Vaz, conhecida por Avenida da Estação, na vila, e uma avenida nas Termas que, sinceramente, hoje não consigo com precisão localizar.

Baseado nestes pressupostos, o jornal inicia, em 24 de Maio de 1914, uma série de artigos, visando o conhecido médico e político, numa luta editorial e partidária sem fim à vista, dados os visíveis ódios pessoais e políticos antigos, que irão alimentar esta picante “novela” que, tal como hoje, seria acompanhada pelos leitores do jornal com o habitual interesse que estes temas sempre despertam.

Com o título:  “No Imperio do Escandalo”, e subtítulo: “Como se devoram doze contos” , o semanário escreve: “Prometemos, no número anterior, relatar, em seus pormenores,  o formidando escandalo que constitue a questão das avenidas da vila e Termas, chegado agora ao áuge, quando, para custear-lhe as respectivas despezas, se pretende meter as unhas  no ultimo emprestimo municipal de 12 contos, que vai ser uma sangria exgotante às economias do povo.

Em numeros sucessivos deste jornal, provámos que o traçado da avenida das Termas, tal como se vai pôr em pratica, representa um proteccionismo inclassificavel a compades, um dos quais tem a “virtude” de ser dedicado correligionario politico da maioria da Camara, ou seja monarquico “enragè”, com honras de conspirador. Quasi o mesmo podemos dizer pelo que respeita á avenida da vila.

Agora, porem, que vemos o escandalo mais ao vivo, agora que as avenidas estão a construir-se, agora que os 12 contos passaram ás mãos dos politiqueiros ferreiristas, temos ocasião de assinalar que o concelho está perdido, que o municipio vai ao fundo, pela falencia que o espera na sua vida financeira e economica……”

E continua: “……..Após o anuncio da praxe, realisou-se, no dia 14 do corrente, a arrematação dos trabalhos de construção das avenidas da vila e Termas.

Como sempre, a parcearia fêz negocio chorudo à custa dos dinheiros municipais.

A adjudicação fez-se a um compadre que, servindo de editor responsavel, proporcionou a outros concorrentes e intermediarios larga maquia.

Eram os concorrentes os srs. João Pereira de Lima e Adelino Pereira, de sociedade; Eduardo Souto e João Bernardino, individualmente. Este ultimo foi o felizardo, quem teve a sorte grande da adjudicação.

Para isso, porém, usaram-se todos os expedientes, desde a ameaça ao suborno daqueles concorrentes que faziam sombra……”

Para terminar: “………As revelações que hoje fazemos ao publico causarão, por certo,  assombro aos mais ingenuos apaniguados do dr. Ferreira.

Nós não nos espantamos, porém.

Este homem é o mesmo que fez, em tempo da monarquia uma ruinosa administração, tão cheia de falcatruas que mereceu as honras duma sindicancia, onde se averiguaram actos infames, verdadeiros crimes….”

Nas localidades, como era o caso de S. Pedro do Sul, onde o regime republicano nunca  conseguiu uma consolidação política e social, o que se traduzia em derrotas sucessivas nas eleições para os órgãos municipais, a oposição aos poderes instituídos (personalidades e grupos de ex-monárquicos) estava a cargo da Imprensa afecta aos republicanos, consubstanciada, neste caso, no semanário Ecos do Vouga.

Nestas circunstâncias, não era de estranhar que o periódico sampedrense dirigisse a sua “artilharia” para onde havia  consideráveis recursos financeiros envolvidos e, por consequência,  condições propícias a desvios às leis que o Estado tentava fossem cumpridas, não obstante o clima de anarquia em que se vivia.

A acrescentar a este desequilíbrio de forças em presença, havia que considerar os ódios pessoais e políticos de que os protagonistas principais estavam imbuídos, receita ideal para um caldo de cultura adequado a um ambiente sempre pronto a explodir, como era o que se observava, por esses tempos, na “Cintra da Beira” que o poeta Correia de Oliveira tão bem retratou.