Os cavernícolas da direita liberal
Manuel Silva

Em artigo de opinião publicado na edição do passado dia 3 de Setembro do jornal “Expresso”, o seu ex-director, Henrique Monteiro, afirmava ter a globalização destruido os mitos da esquerda acerca da mesma, pois os povos dos países em vias de desenvolvimento começaram a sair da pobreza, enquanto os países mais ricos viram o seu crescimento diminuir, querendo insinuar que os beneficiados foram os mais pobres.
No entanto, não esconde terem as desigualdades aumentado nas nações ricas e pobres, o que, como neo-liberal, não o choca. Longe vão os tempos em que, na OCMLP e no PCP(R)/UDP, defendia o marxismo-leninismo e o maoismo, bem como cantava “hossanas” revolucionários à China e à Albânia, a Mao e a Enver Hodxa.
Estas teses constituem uma falácia e uma vigarice políticas. A melhoria das condições de vida nos países em vias de desenvolvimento é visível, mas não significativa. Aos trabalhadores, como cantava no PREC o ex-camarada de Henrique Monteiro, José Mário Branco, apena foram oferecidos “remendos e côdeas”. Trabalham 14 e mais horas por dia, incluindo crianças, na maioria dos casos, sem protecção social nem direitos sindicais e ao exercício da greve.
O alto capitalismo ali instalado paga baixos salários, vendendo no Ocidente os produtos fabricados a preços compatíveis com o poder de compra dos países ricos. Por outro lado, dizem muitos desses capitalistas aos seus trabalhadores do mundo desenvolvido “não peçam aumentos salariais, senão transferimos a empresa para os países menos desenvolvidos”. Daí os trabalhadores alemães e americanos, por exemplo, não verem os seus salários aumentados há 20 anos. Como as economias desses países têm crescido, também nos mesmos aumentam as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres. A classe média e os mais pobres já tiveram muito melhor poder de compra.
99% da riqueza mundial é detida por 1% da população do nosso planeta.
A esquerda criticada por Henrique Monteiro tem toda a razão. Quem não a possui é a direita e o que apelida de “esquerda liberal”, os “socialistas” e “sociais-democratas” vendidos aos famigerados mercados que servem, quando deviam regulamentá-los.
Uma grande parte da geração de Henrique Monteiro, à qual também pertenço, embora seja mais novo que ele, caracterizou-se por uma grande generosidade ao serviço de ideias erradas, o que justificou o nosso abandono do marxismo-leninismo e a passagem à defesa da democracia de tipo ocidental, mas a democracia não é apenas política, também é social, económica e cultural. Quem, como Henrique Monteiro, esquece estas últimas vertentes, trai a generosidade da sua juventude, tendo passado a identificar-se com a face pior do sistema capitalista.
Num outro artigo publicado no jornal espanhol “El Pais”, o liberal e prémio Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, referindo-se ao livro de Karl Popper “A Sociedade Aberta e os seus inimigos”, escrito a partir de 1945, aquando da derrota do nazismo e do fascismo, escreve: “o liberalismo de Popper está impregnado de humanidade e de espírito de justiça, muito longe daqueles logaritmos vivos que vêem no mercado a panaceia para todos os males da sociedade. O crescimento económico está longe de ser um fim, só aparece como um meio para acabar com a pobreza e garantir níveis de vida decentes para todos os cidadãos. Defende muito explicitamente a igualdade de oportunidades que espanta CERTOS CAVERNÍCOLAS DA DIREITA LIBERAL. E por isso acredita que, junto a um ensino privado, deve haver uma educação gratuita e pública de alto nível para competir com aquela e um Estado que diminua e corrija as desigualdades (…).
Junto a uma defesa apaixonada da liberdade em cada uma das suas páginas, há em “A Sociedade Aberta e os seus inimigos” um constante protesto contra o sofrimento humano resultante da injustiça económica e social, que atinge tons lancinantes quando lembra os horrores da exploração operária e do trabalho infantil do século XIX – crianças de 8 ou 10 anos que trabalham 15 horas por dia nas fábricas da revolução industrial”.
Neste artigo, Vargas Llosa afirma ter Karl Popper denunciado o colectivismo, o racismo, o autoritarismo e, apesar de criticar o finalismo histórico, assente na luta de classes e nas relações de produção, defendido por Karl Marx, reconhece ser o mesmo possuidor de integridade intelectual e decência moral pela sua rejeição da exploração e da injustiça, dizendo que talvez ele fosse, sem saber, um verdadeiro defensor da sociedade aberta.
Após ter defendido a herança reaganista e thatcheriana, apoiado a política reaccionária dos falsos socialistas franceses contra os trabalhadores e a humilhação da Grécia pelos donos da Europa, Mário Vargas Llosa, amante da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, parece ter um rebate de consciência relativamente às injustiças do neo-liberalismo e identificar-se com o liberalismo tradicional e social herdado de Karl Popper. Assim sendo, voltarei a nutrir a simpatia política que já tive pelo autor de “Conversa na Catedral”.
O socialista Francisco Assis, num artigo inserido no “Público, do passado dia 8 de Setembro, defendeu a junção do melhor do liberalismo com o melhor da social-democracia e do socialismo.
Seguindo os ensinamentos de Popper e as posições actuais de Vargas Llosa, Francisco Assis e outros autores de direita e esquerda democráticas, contestatários do austericídio das instituições comunitárias, poderá salvar-se o projecto europeu. Prosseguindo o caminho da TINA (there is no alternative, não há alternativa), a que a UE e, entre nós, o PSD e o CDS continuam cegamente agarrados, poderemos, a curto prazo, enfrentar uma situação idêntica à vivida entre a primeira e a segunda guerras mundiais.
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