Ontem como hoje, guerras, perseguições, migrações, a mesma História

António Gouveia

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O Papa Francisco, há pouco dias, foi em viagem de solidariedade, chamada de atenção – mais um apelo -, à ilha de Lesbos onde estão presos e acantonados em condições miseráveis e sub-humanas milhares de refugiados fugidos da Síria, Turquia, Curdistão, Iraque e de outras paragens do médio oriente desafiando sorte madrasta em busca de refúgio na Europa, esta Europa em desatino e a desmoronar-se, muitas promessas e ouvidos de mercador. Francisco, como é seu timbre – é a maior referência e exemplo moral destes tempos semimortos e amorfos – assim falou, antes de aterrar: “Vamos testemunhar o pior desastre humanitário desde a segunda guerra mundial; vamos ver tantas pessoas que estão a sofrer, que estão a fugir e não sabem para onde”. Saberão alguns, poucos porventura, Lesbos tem como capital um nome familiar aos portugueses, Mitilene, os católicos mais antigos devem lembrar-se que, entre outros bispos portugueses, o arcebispo de Lisboa, Gonçalves Cerejeira (também Maurílio de Gouveia, se não erro) adotou para si este título honorário.

Lesbos é uma Ilha a norte do mar Egeu, não fica longe de cidades ditas clássicas da zona do Egeu e Grécia antiga, cidades que foram tudo ao longo dos séculos: persas, gregas, espartanas, romanas, otomanas, bizantinas e, agora, turcas, tantos os impérios que por ali passaram, tantas as lutas e batalhas em nome de civilizações, perseguições, religiões e culturas as mais diversificadas, região de lindas e idílicas praias. Istanbul, a terra do jovem e grande escritor Orham Pamuk, prémio Nobel, já não é a capital da Turquia hoje, mas Ancara, mais a norte, a capital política que não antiga e monumental. Istambul é um espanto, uma maravilha, apesar dos atentados, o estreito do Bósforo divide-a entre a Europa e a Ásia. Teve outros nomes ao longo da História: Constantinopla e Bizâncio, a última capital do império romano do oriente até 1453, quando Odoacro expulsou o último imperador romano Rómulo Augusto, vejam a premonição e coincidência, dois nomes, o do fundador e primeiro rei da monarquia romana, Rómulo, e o do maior imperador romano, Augusto (Octávio César),  reinava quando nasceu Jesus, chamado o Cristo, o homem que dividiu a história e iniciou este calendário e uma outra  era que deu origem ao cristianismo, nova civilização e forma original do relacionamento entre os homens, amai-vos como irmãos, relacionamento de amor ou doutrina  cristã.

Por estas paragens da Antioquia (hoje turcas) andou Paulo, o apóstolo judeu e carrasco da primeira comunidade cristã, convertido no caminho de Damasco por um relâmpago que o cegou e lhe abriu os olhos e a mente para esta nova forma de humanismo.  Damasco, hoje cidade mártir nestes tempos modernos, acossada pelo Daesh (ou ISIS), um outro exército islâmico bárbaro e impiedoso. No ano do milénio Paulino integrei uma peregrinação que me encantou e não mais esquecerei, visitando todos estes lugares e os famosos caminhos da evangelização do apóstolo: a famosa Capadócia, Pamukkale, com as suas sacadas de águas azuis em socalcos, Kónia, Anatólia, Mileto, Esmirna e Éfeso, a beleza mística, calma e santificada de um lugar surpreendente, nele a modesta casinha onde viveu Maria, mãe de Jesus, e bem perto, a famosa biblioteca romana de Celso (135 d.C.) onde eram guardados 12.000 rolos, a imponência das suas ruinas, uma enorme fachada com nichos, arcos e colunas dignas de serem vistas e admiradas. Um pouco mais abaixo, no mar Egeu, vários nomes de cidades, cidades-estado como Atenas, Esparta, Corinto, que se digladiaram por muitos anos em célebres conflitos: a batalha de Maratona e, mais famosa ainda, a Guerra do Peloponeso, Atenas contra Esparta, gregos contra espartamos (lacedemónios), povo viril e guerreiro, homens de vida regrada e muito disciplinados, vida espartana diferente dos gregos, estes mais ao nosso estilo. A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) durou 27 anos, terminou com a derrota de Atenas quando os espartanos se juntaram aos persas na aliança do Peloponeso e submetera a outra aliança grega, a de Delos, espécie de eixo e aliados da II guerra mundial. Logo no primeiro ano e primeira batalha, em 431, muitos gregos tombaram, ficando célebre para a posteridade a Oração Fúnebre proferida por Péricles, o general comandante grego que convocou o povo da cidade para o mausoléu cerâmico erigido lá no alto tentando-o motivar a continuar a luta e prestando homenagem aos soldados caídos em combate, numa “oração de sapiência” que chegaria até nós graças a Tucídides, escritor grego, tal como Xenofonte que, em 404 a.C. narraria a famosa Retirada dos Dez Mil, na batalha contra Ciro, que o nosso Aquilino Ribeiro, escritor das terras do Demo e da Lapa, traduziu para português.

A política iniciava assim os primeiros passos. Política, ideia e arte de governação, a governança das cidades-estados, como Atenas (só mais tarde, com Aristóteles, é que o termo surgirá no tratado que tem este mesmo nome, Política (Politeia, em grego), o mesmo em Platão, livro cuja tradução deu a República. Péricles utilizaria – talvez pela primeira vez na história, se estou certo -, a palavra Democracia, forma de regime que ainda hoje tem impacto na política atual e que, confessou Churchill em 1945, é o menos maus dos sistemas políticos, por não conhecermos um outro melhor. Proclamou então Péricles nesse célebre e longo discurso ao povo ateniense, a que Tucídides chamou Oração Fúnebre, o seguinte: “A nossa constituição não copia as leis dos vizinhos; antes, damo-la como modelo a alguns do que imitamos a outros. Chamamo-la uma democracia porque a cidade é administrada, não por poucos, mas pela maioria. Mas, se de acordo com a lei, todos são iguais em suas relações privadas, contudo, o homem que, de algum modo se distingue, recebe a preferência na vida pública, não como um privilégio, mas por causa de seus méritos; e, se um homem pode servir o seu país, a pobreza e a obscuridade não lhe valerão como obstáculos. A liberdade é o princípio de nossa vida pública, e, na nossa vida quotidiana, não vivemos mutuamente desconfiados, não nos irritamos com o nosso vizinho porque ele vive a seu modo, nem o olhamos com este ar de desaprovação que, lá por ser inofensivo, não deixa de ser incómodo”. Enfim, quase 2.500 anos depois parece que nada aprendemos com a História, a Mestra da vida.Redação Gazeta da Beira

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