Ontem comecei a ler um livro antigo

Manuel Guimarães da Rocha

Por vezes é assim, a gente sem querer desfolha um livro, que está perdido na estante e fica estupefacto! Como o tempo passou! Como é que eu não vi isto antes e não o li a seu tempo? Há livros que têm tempo de leitura parecem ter o seu fim anunciado e, se não se lêem a tempo ficam recessos, mais duros que pão de quinze dias e nalguns cassos, que não foi este, com bolor e tudo mais. É um livro bem escrito e estruturado, onde se aprende muito necessário para o dia-a-dia e, agente deixou passar e, quando este lhe fica debaixo dos olhos já é tarde.

Talvez o livro não tenha envelhecido, nós é que já passamos, pois agora morre-se tarde, muitas vezes, depois de termos passado por “instituições pré-morten”, funcionais, lavadas caiadas e higiénicas, a que abusivamente chamem “LAR”, onde não conhecemos ninguém nem ninguém nos conhece.

E a gente deixou de aprender coisas que devia saber bem, a seu tempo. A culpa é nossa, não do livro que ali está imóvel á tanto tempo á nossa espera. Não o lemos, o tempo passou e, levou quase tudo que lá estava escrito. Só deixou uma frase ou outra, um sentido eterno ou menos passageiro, porque o eterno é já amanhã e o passageiro pode demorar mais tempo.

Não é um livro de amor. Não. Nem de paixões ancestrais. Nem de experiências do autor. É um livro de divulgação técnica, do tempo em que a técnica era atrevida e, a vontade de se disseminar o que se sabia era grande. Tão grande como o que não se sabia e, que parecia ser certeza do que só alguns desconfiava.

E deve ter sido muito útil a alguns, que sabiam aquilo que lá vinha explicado, apesar de saberem muito e, terem lido a Bíblia toda, Velho e Novo Testamento, Santo Agostinho, o resumo do Alcorão e espreitado para o Talmude, ao longe.

É um livro com uma capa amorosa com uma foto duma mãe com um filho ao colo, tendo atrás o pai a observar feliz aquele idílico quadro.

O título da capa não cria ilusões sobre o conteúdo estava impresso em letras maiores, mais escuras, que se destacavam logo aos olhos de qualquer leitor. Era um aspecto gráfico excelente e, tudo o que eu já li era escrito numa linguagem fluente e agradável, que permitia acesso fácil aos seus ricos conhecimentos.

Ainda estava escrito o preço:-210$00

“MÉTODOS ANTICONCEPTIVOS E PLANEAMENTO FAMILIAR “

Começava mais ou menos assim:- “Conceber deve ser um acto livremente decidido e conscientemente aceite pelo casal”.

Como vemos era um livro de divulgação científica, já antigo, que penso ter sido bem aceite pelo público, traduzido de um livro estrangeiro e, no meu entender ainda hoje recomendável, mas de pouca utilidade dada a evolução científica que se tem processado sobre o tema.

Ainda não o li na totalidade, nem me era possível nas poucas horas que lhe dediquei, mas do que já li eu gostei. Simples, escrita fluente e fácil de entender por qualquer leitor.

Só falo do Livro, porque dentro do mesmo, á laia de informação, vinha um folheto picotado fazendo parte do volume, onde recordei o trabalho e as dificuldades que os Editores tinham em divulgar as suas obras, orientando-as por colecções de livros similares e, neste caso era um conjunto delicioso, que não resisto a expor. Todos os livros anunciados tinham o preço em escudos, está claro.

Era um “Marketing” eficaz, pois bem me recorda de quantos livros comprei, movido por aqueles papelinhos de cartolina. Penso que nunca enviei aquele papel, que servia de postal grátis, pois não sabia nunca quando teria dinheiro para o comprar, mas o mesmo postal de porte pago, moveu-me na compra de alguns exemplares.

Penso no trabalho que aquilo representava e confirmo a sua eficácia real e, rendo as minhas homenagens a quem o pensou e a quem os executou. Alguns eram de fácil previsão pelos títulos da colecção, outros eram a revelação imaginativa de agregação de obras díspares a que o editor agregava a sua prodigiosa concepção imaginativa.

Não deve ter sido uma tarefa fácil, mas tenho a certeza que deve ter sido produtiva e, louvo-a em nome da difusão cultural em Portugal.

Nestas pequenas cartolinas inseridas dentro dos livros de difusão, espevitou certamente muitos olhos distraídos e deu aos mais financeiramente abonados, muita informação preciosamente útil.

E com o tempo tudo mudou! Talvez não nos livros e seus conteúdos, mas na sua difusão e na apetência da leitura, teoricamente criada, já desde a Escola elementar e Liceus, que penso ter levado agora a uma grande difusão e a um aumento significativo das vendas. Deve ser o espelho da nossa democracia que felizmente já vai em mais de quarenta anos.

Penso que agora, com a difusão da cultura, ensinada e orientada desde o berço até aos vinte e tal anos, os ensaios, os contos, os romances, os livros científicos, os livros de divulgação e todos os outros, devem ter um tiragem dupla ou tripla ou quadrupla do que antigamente foi vendido por autor.

Mas vamos olhar para o difundido no tal postal de cartolina englobado no livro e vamos pensar.-

Outros títulos da colecção “Arte de Viver” 

 

Como vencer a timidez………………………..200$00

Guia intimo das relações sexuais…………200$00

A Mulher depois dos 40 Anos……………. 200$00

A Arte de bem receber………………………. 270$00

Guia Prático e completo da Costura……..200$00

Guia da Futura Mãe durante Gravidez   …………………………………………       190$00

Guia da Interpretação dos  Sonhos   ……………………………………………          210$00

Guia do Comportamento Sexual   ……………………………………………………      240$00

Como Proteger a Saúde e a Beleza com a Simples Pressão de  um dedo ..190$00

O Livro do Casal   ……………………………………………………………………………..    230$00

O Livro das Boas Maneiras  ……………………………………………………….     220$00

Doenças transmitidas pelas Relações Sexuais   …………………………     160$00

Olhemos para este quadro com alguma seriedade:-é ou não uma excelente forma de Propaganda? Revela ou não um conhecimento da Sociedade da Época?-Associa ou não situações similares a outras, que não parecendo o são também? E não me venham com a guerra dos preços, pois actualmente as condições socio-económicas e culturais mudaram radicalmente. Malgrado nisto de preços e cultura ser pouco mais que ignorante, atrevo-me a dizer que actualmente o acesso á cultura é muito maior e mais apetecível.

Mas deixemo-nos de divagações e olhemos para alguns títulos:-“O Livro das Boas Maneiras”! Quem é que hoje comprava este livro? Não que esteja desactualizado, não, mas por razões sociais bem sensíveis, que certamente transformaram em ridículo tudo que lá dizia.

O Livro do Casal”, certamente uma delícia escrita, em acumulados de lugares comuns, hoje totalmente risíveis, na vivência diária dos casados. Como deve ser ridículo aos olhos da sociedade moderna, onde o casamento á já excepção, a mancebia, ridícula e o viver junto com companheiro, normalidade.

Relações Sexuais”-Ai que até coro de vergonha, não é?

Relações Transmitidas pelas Relações Sexuais”, com o emanar das novas patologias já deve estar mais que desactualizado, penso eu.

Mesmo o encantador título “Guia da Futura Mãe Durante a Gravidez” deve estar nos antípodas da actualidade.

Sonhos” deve ser o único em que ainda podemos encontrar alguma actualidade.

É que sonhar ainda é nebuloso, imaginativo, quase sempre confuso e ainda de difícil interpretação. E quando o sonhar é terno e carinhoso, torna um acordar agradável.

Interpretar os sonhos, ainda tem muito de cultura e subjectividade, agarrada a conceitos psicanalíticos de difícil interpretação.

Mas mesmo assim há para aí muitos que ainda sonham acordados enquanto a grande maioria vive num pesadelo de temor duma “previsível catástrofe de que ninguém nos vai tirar”.

Olhem que não, olhem que não…então para que serve a Europa? Tenham calma que já estamos num protectorado e não vai haver problemas. Entendido? Comprem uns livrinhos, leiam e “deixem correr o marfim”, porque PODE SER QUE NÃO SEJA NADA!…e as vozes são muitas, arrepiantes, mas vão ver que são só “bocas”,… palavra de escrevinhador criativo!Redação Gazeta da Beira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.