O sofrimento humano (individual e colectivo), a Shoa judaica e a religiosidade humana
António Bica
Há alguns anos visitei amigo velho e gravemente doente. Falámos de tudo e de nada a ladear a doença que ia levá-lo a prazo breve ao último passo dos vivos, a morte.
Sobre o fim da conversa, ao falarmos ocasionalmente sobre religiões, confirmou o que eu supunha:
«Não foi a crise da adolescência que me fez deixar de acreditar na existência de Deus como habitualmente acontece, mas perceber que os humanos o concebem para explicar o Universo de que fazem parte com tudo o que existe. Por incapacidade de o explicar, em vez de modestamente admitir isso, figuram Deus como seu criador. Sobre a questão da existência de Deus a resposta que é dada é que incognoscível.
Considero mais racional aceitar que o Universo, que considero existir porque o sinto, é para todos os humanos incompreensível (apesar do contínuo avanço no seu entendimento, mesmo que muito reduzido) do que tentar explicá-lo por existência inexplicável de Deus.
Porque compreendo, sei e aceito que os dias que me restam são breves e que, morrendo, deixo de ser, voltando o que me constitui à terra, à água e ao ar de que veio a participar eventualmente na constituição de outros seres.
O que não aceito é que ao grande sofrimento, que está a preceder a minha morte (como em geral a de todos os homens e animais) e compreendo, a lei do país não deixe pôr fim mediante acto médico por decisão minha ponderada e lúcida. Entendo ter direito a dispor da minha vida por ter autoconsciência e capacidade de raciocínio.
Ao reflectir sobre o sofrimento, compreendo a perplexidade de muitos judeus crentes em relação à perseguição sistemática e determinada que o nazismo alemão, nas décadas de 1930 e 1940, lhes moveu. Os judeus, como quase todos os povos das nações que a Alemanha então invadiu, sofreram perseguições metódicas, cruéis e desumanizantes. Considerando-se os judeus, na sua concepção tribal, o povo eleito de Deus, muitos não entendem por que deixou abater sobre eles essa terrível calamidade a que chamam “Shoa”.
A reflexão sobre essa tragédia colectiva tem levado número significativo de judeus a abandonar a crença em Deus e a sua ideia de serem o povo que Deus elegeu, passando a admitir que o Universo que integramos com tudo o que existe não terá limite de tempo e de espaço, sempre se movendo em transformação contínua.
Quando era pequeno, talvez com sete anos, fui, como era habitual, com o gado da casa para o baldio da terra, com capucha a resguardar-me do frio, e descalço como sempre fora. Era Inverno. O tempo estava frio e o céu nublado. Por meia manhã começou a nevar. Depois levantou-se vento e a neve caiu basta. O gado deixou de chegar ao pasto rasteiro coberto de neve, pastando a rama mais alta das urzes e das giestas.
Abriguei-me atrás dos cabeços. O vento cirandava a neve. Os pés nus tornaram-se roxos e o frio insuportável. Fazer regressar o gado antes de ter o bucho cheio era impensável, que era costume sempre seguido e as ordens firmes.
Aguentei, mas interpelei Deus: “Como é possível, sendo todo poderoso e a máxima bondade, deixares que sofra este frio insuportável?”
Continuei a acreditar em Deus, mas a semente da racionalização foi crescendo. Compreendi já adulto que não é preciso imaginar o que aceitamos não poder entender para explicar o Universo de que não compreendemos senão quase nada, mas que sentimos existir e integrar. O Universo é necessariamente inexplicável para os humanos, porque, fazendo nós parte dele, como parte não podemos compreender o todo que integramos, pois a compreensão corresponde a superioridade em relação ao que se entende.
A grande dor que senti como insuportável quando tinha sete anos passou a ser compreendida por mim como facto natural, quando me tornei adulto. E, porque passei a compreendê-la, senti ser natural, percebendo que dor compreendida é dor resolvida.
Passei a entender as dores como sinal de alarme por o corpo estar a correr risco de dano que poderá ser irreversível se não se remediar. Sentindo a dor é-se compelido a agir de modo a procurar eliminar o risco para a saúde que se está a correr e eliminar, ou prevenir no futuro, a causa da dor.
Com os colectivos humanos acontece o mesmo. Se são agredidos por factos naturais (terramotos, maremotos, grandes tempestades, epidemias) reagem ao sofrimento colectivo correspondente agindo de modo a procurar eliminá-lo e preveni-lo no futuro. O mesmo acontece se são atacados por outros colectivos organizados ou não em Estados, como os judeus europeus agredidos pelo nazismo alemão na catástrofe colectiva que chamam “shoa”. Compreender isso racionaliza o sofrimento e dá ânimo para combater o que o causa».
Despedi-me do meu amigo a reflectir sobre o seu esforço de racionalização e a transitoriedade de cada humano, do colectivo humano de que fazemos parte e de tudo o que existe; e na incompreensível complexidade do Universo que será ilimitado, sem princípio nem fim, sempre se renovando por transformação.
Neste minúsculo ponto dele que é a Terra, poderá o colectivo humano que somos subsistir por muitos milhares de anos se o não tornarmos, por irreflectida acção nossa, inabitável por insensata guerra mundial, ou irreversível desequilíbrio ambiental resultante da ganância das grandes empresas cada vez mais mundializadas e dos governos (ao seu serviço) por resistirem a eficazmente eliminar a poluição resultante dos processos produtivos.Redação Gazeta da Beira
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