26/09/2013 (Ed. 639)
A luta incansável de quem conhece a pobreza de perto
O retrato de uma região empobrecida
• Patrícia Fernandes
A crise entrou no quotidiano da generalidade dos portugueses sem pedir licença. Esta palavra a que já nos habituamos, trouxe aos portugueses inúmeras dificuldades e fez multiplicar os casos de pobreza. A região de Lafões não foge à regra: O desemprego bate de porta em porta e põe em risco famílias que até então tinham o futuro nas mãos. Nascem novos pobres que se juntam aos muitos que vêem a esperança gorar-se, sem nada poder fazer para reverter a realidade. Este é o duro retrato dos dias em que vivemos, contado na primeira pessoa por aqueles que vêem de perto as dificuldades e apoiam a comunidade, dando-lhe força para continuarem a lutar e a vencer.

A ajuda indispensável das instituições
Por toda a região, a resposta é a mesma. A pobreza aumenta de forma muito clara e são cada vez mais as pessoas que pedem ajuda. Mário Almeida, representante do Centro Social de Campia reconhece que são muitos os factores que explicam o duro cenário atual. Como esclarece: “O aumento do desemprego, os cortes nas prestações sociais e o aumento dos impostos são, por si só, berços de uma realidade a que muitos temem chamar pobreza”. Famílias que, como refere, “ apostaram na nossa região e aí se fixaram, com base em certezas que hoje não são… foi a empresa que faliu. O empréstimo que disparou. As contas que se tornaram impossíveis de pagar. O custo de vida aumentado. A reforma cada vez menor. Expectativas goradas”. Perante esta mudança tão repentina de uma realidade que parecia ter tudo para dar certo, as instituições de solidariedade social, tais como as inúmeras associações, são como um luz de esperança que brilha no fundo do túnel para inúmeras famílias. Neste contexto, o Programa de Emergência Alimentar, que visa, através do fornecimento de refeições, combater as necessidades alimentares de famílias carenciadas, tem sido uma arma poderosa no combate à pobreza. Em São Pedro do Sul, no prazo de meio ano (altura em que o projecto inaugurou), o número disparou. Inicialmente eram 30 as pessoas apoiadas, atualmente são já 67, mas são ainda mais as que procuram ajuda, tanto que, a Misericórdia já requereu o aumento do apoio para 100 pessoas. Como refere o Provedor José da Cruz Fernandes, “verificaram-se situações de intensas dificuldades, inicialmente, pensamos cobrar simbolicamente 1€ pelo apoio, mas concluímos que não era viável, são pessoas que vivem do Rendimento Social de Inserção, ou de verbas ainda inferiores e não têm como pagar”. Da Misericórdia de Oliveira de Frades, chega a mesma resposta. Para Serafim Oliveira Soares “a pobreza nunca foi tão visível como o é hoje”. A Santa Casa apoia 80% do concelho e recebe 100 carenciados nas cantinas sociais. O apoio domiciliário é também uma valia importante que é feita com bastante dificuldade, isto porque, como esclarece o provedor: “neste momento estamos a ajudar muito mais pessoas do que aquelas para as quais temos acordos, o que é muito difícil, mas não podemos fechar a porta a estas pessoas tão carenciadas”.
Já em Vouzela, a Santa Casa apoia, numa parceria com o Cento Social de Campia, cerca de 12 pessoas, contudo, para o provedor da Santa Casa, o número de necessitados é muito superior: “Sabemos que há muito mais pessoas necessitadas, mas há ainda um grande preconceito em ser pobre”. Na realidade, a pobreza esconde-se, muitas vezes, entre as quatro paredes de um lar, são números silenciosos que não entram para as estatísticas. Como conta o provedor: “Tivemos casos de pessoas que usufruíram dos nossos serviços, por 2 ou 3 dias, mas depois não quiseram continuar, diziam que os vizinhos comentavam e sentiram-se envergonhados por receber o apoio”.
Para além deste apoio que se afigura vital para a sobrevivência de inúmeras famílias, as instituições procuram novas formas de ajudar: A Associação Social, Cultural e Desportiva de São Miguel do Mato, vai, como conta a direção técnica, na voz de Elsa Viegas, iniciar “uma parceria com a Câmara Municipal de Vouzela no âmbito da criação de uma loja social, para apoiar pessoas com fracos recursos”. Duas vezes ao ano, o Centro Social de Vila Maior, como refere Guilherme Figueiredo, distribui cabazes, a 12 famílias carenciadas, as 12 que requereram este apoio que resulta das recolhas do Banco Alimentar. O Centro Social de Campia, por sua vez procura, como explica Mário Almeida, ajudar como pode, para o efeito, a associação “trabalha de braço dado com outras entidades, seja na recolha e distribuição de roupa, sinalização de agregados carenciados para o Instituto da Segurança Social, apoio no requerimento de apoios sociais, oferta de cabazes de produtos alimentares…”
A crise e o retrocesso dos tempos
Por mais ajuda que possa chegar à população, esta parece nunca ser suficiente. Para além dos casos de mensalidades em atrasos que assombram as instituições, há crianças e idosos a abandonarem a creche e o lar, para ficarem ao cuidado de familiares. Como explica, Elsa Viegas “os filhos desempregados decidem cuidar dos pais e as suas pensões representam um meio de sustento familiar”. Um retrocesso dos tempos em que novas prioridades se impõem à sobrevivência do agregado familiar. José Roque, assistente social, relata-nos a história de uma jovem que perdeu o emprego e que agora toma conta da avó. Um exemplo que, garante, traduz a realidade de muitos outros: “Sabemos que há muitas pessoas que precisam e gostavam de usufruir dos nossos serviços, mas não têm esse dinheiro, o dinheiro é pouco para as necessidades mais básicas”.
Serviços imprescindíveis que a crise veio transformar num luxo, o que, por vezes, poderá por em causa a qualidade de vida das crianças e dos idosos. Como conta o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vouzela “ é muito importante para o desenvolvimento de uma criança interagir com outros colegas da sua idade”. O mesmo acontece com os idosos que muitas vezes, em casa, não têm as infra-estruturas e meios necessários para a sua comodidade.
A crise a que as instituições também não são alheias
As instituições procuram fazer mais e melhor, mas nem sempre é fácil. Também elas sentem a crise e reconhecem ser mais difícil ajudar. Como conta José Roque, Assistente Social da Arca, tem sido muito difícil continuar a manter a mesma qualidade nos seus serviços: “Nós pautamo-nos por dar uma alimentação variada e de muita qualidade, o mesmo acontece com a qualidade que queremos garantir na prestação de serviços de limpeza e higiene pessoal. Até agora temos conseguido, mas está muito complicado aguentar”. Elsa Viegas relata-nos uma história muito parecida e confessa ser cada vez mais difícil ajudar quando também a instituição sente dificuldades. Como explica: “temos sentido mais a falta de recursos económicos para desenvolvermos mais trabalho e novos projetos que estão em mente e é importante pô-los em prática.
Lutar e vencer é o objectivo comum destas instituições que conhecem como ninguém a dura realidade que vive a região de Lafões. Mais do que em números, aqui falam-se em pessoas, rostos cansados por um futuro que este presente atraiçoou. Mais do que lamentar a pobreza, há nestas entidades uma procura activa em ajudar a comunidade e devolver a esperança às muitas famílias que hoje vivem em grandes dificuldades. Como sublinha Mário Almeida: “é dever, mostrar o caminho inverso, mostrar oportunidades onde parece não haver, sensibilizar para a mudança, eliminar o medo associado à pobreza”. Lutar e vencer, um lema levado a sério por aqueles que dão o seu contributo em prol da comunidade e que acreditam que, passo a passo, é possível dar a volta à dura realidade que é o presente e construir um futuro melhor.
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