O regresso a Sul

Em Rede pela Vida

Rosário Dias recorda as tradições, os costumes e os saberes da sua freguesia

O regresso a Sul

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Continuamos em Rede pela Vida, à procura de tradições, canções, costumes, saberes. À procura de estórias de vida, contadas na primeira pessoa. De passagem pela freguesia de Sul, S. Pedro do Sul, encontramos Rosário Dias que nos falou das suas 78 primaveras. Uma viagem ao passado que nos revela as origens de uma terra que se reinventa. Foi aqui que Rosário cresceu e viveu a sua juventude, depois de casada, rumou a Lisboa. Os anos passaram, mas Sul continuou a ser a sua terra, foi por isso que regressou há cinco anos e é aqui que quer ficar. É aqui que tem as suas memórias. Alegrias, tristezas, marcas que a vida dá. Um testemunho cativante que damos a conhecer.

Quem chega a Sul, encontra paz. O verde da natureza, o silêncio, a água do rio que passa sem pressa, o horizonte que traz lembranças e esperança. Sul tem uma magia. Quem por cá passa não lhe é indiferente. Acontece com muitos e com Rosário Dias não foi exceção. Esta é aldeia da sua infância. Assim calhou. Esta é, agora, a aldeia em que vive. Assim escolheu. Mesmo nos muitos anos que viveu em Lisboa era a Sul que chamava de casa. “Era, sempre, sempre, sempre para aqui que vinha”, reconhece.

Uma infância feliz

Rosário veio para a aldeia, ainda em tenra idade. Veio com a mãe, o pai ficou a trabalhar em Lisboa. Desse tempo, ficam memórias de um tempo feliz. Era a pé que ia para a escola, num percurso que demorava cerca de meia hora. Ia sozinha mas não tinha medo “já era dia”, recorda.

Fizesse frio, ou calor, era essa a rotina que cumpria. No inverno, custava sempre mais. “Havia muita geada fazia muito frio. Então, a minha mãe punha uma pedra a aquecer na lareira que estava acesa e depois, quando estava quente, metia-a numa meia velha, para eu ir para as escolas com as mãos quentes”.

Lembra-se de levar duas tranças que mãe, todos os dias, fazia minuciosamente. Lembra-se de levar uns vestidos de chita que custavam cerca de 5 escudos. Lembra-se da sua mala de cartão que o pai lhe enviara da capital. “Era toda modernaça”, garante.

No recreio, a sua brincadeira preferida era saltar à corda. “Eu era malandreca, puxavam-me as tranças e eu não gostava”, avisa. Quanto à escola propriamente dita, havia muito rigor, ditado ao ritmo da régua, como em tantas outras escolas, na altura do Estado Novo. “A professora era má, muito má, batia-me com a régua e punha-me de castigo, sentada, com umas orelhas de burro de cartão.”

A “padeirinha de Sul”

Os tempos da escola passaram, Rosário cresceu, quis ajudar a mãe lembrou-se, de criar o seu próprio emprego, tinha 15 anos. “A minha mãe não queria, mas eu teimei, ia vender trigo com uma canastrinha a Sul. Ia busca-lo à padaria que aqui havia e, depois, todos os dias, levava-o ao cento da freguesia. Ainda, hoje, há gente lá que me chama de padeirinha”.

O negócio corria bem, “as pessoas compravam” e Rosário não se deixava enganar. “Eu era esperta, não deixava que ninguém me ficasse a dever, eu apontava tudo direitinho num caderno.”

O dinheiro que amealhava entregava-o todo à mãe, tostão por tostão, mas a mãe usava-o para lhe comprar alguns vestidos. “Vestia-nos com muito gosto”, recorda.

À descoberta do Milho Rei

Muito mudou entre os tempos de hoje e os tempos que se viviam antigamente. Muitas tradições foram alteradas, outras despareceram. A nossa missão é clara, resgatar as nossas origens, antes que o tempo as leve. Seria uma perda irreversível. Rosário ainda tem tudo bem presente. “São coisas que nunca se esquecem”, garante.

As desfolhadas eram motivo de trabalho, mas também de muita alegria. Um serão diferente que só acabava quando a última espiga dourada fosse desfolhada. Uma noite longa em que se cruzavam histórias, brincadeiras, vidas. Todos ansiavam pela espiga diferente. Vermelha, rara, distinguia-se das demais.

Chamava-se “milho rei”. Segundo a tradição, quem a encontra-se tinha o direito de beijar quem quisesse. “As desfolhadas é que eram giras, era uma festança. Quando se encontrava uma espiga encarnada era muito bom, depois os rapazes queriam dar um beijinho à gente. Eles estavam sempre a ver a quem saía a espiga.”

Pela noite fora, eram muitas as cantorias ensaiadas. Rosário lembra-se das canções, como se a última desfolhada tivessem sido ontem. “Meninas vamos ao vira, ai que o vira é coisa boa, eu já vi dançar o vira, ai às meninas de Lisboa. Ai vira que vira, torna-te a virar, as voltas do vira são boas de dar”, canta entre gargalhadas.

As Romarias a S. Macário

Todos os anos a romaria ao S. Macário, no alto da serra, era um momento alto para todos. A lenda é conhecida. Como explica Rosário: “É o santo padroeiro das doenças de cabeça, dizem que quem passar na gruta sem bater com a cabeça é porque tem juízo, mas eu não consegui, era difícil!”

Rosário e a sua família cumpria a tradição a cada ano. “Todos os anos íamos à ermida de S. Macário, a minha mãe tinha prometido. Íamos a pé fazer a romaria, saíamos muitos cedo, eram mais de duas horas de caminhada, mas passava-se no instante”.

Com eles levavam uma cesta com o farnel. “Levávamos as merendas, a minha mãe levava sempre uma galinha corada, íamos a cantar por aí fora com os cestos à cabeça. Quando chegavam, cada um estendia a sua toalha”.

Depois da missa, era hora de bailarico. “Eu era levada da breca, mal sabia que havia um bailarico lá ia eu. Eu dançava muito quando eu era miúda…eu para dançar e cantar!” Recorda.

As romarias ao Santo António também eram frequentes. Na altura todos criavam animais em casa, eram fulcrais para a economia familiar. “Era o padroeiro dos porcos, as pessoas faziam promessas para os animais não ficarem doentes, depois levavam-lhe os pés ou a cabeça do porco”.

O Valor da amizade

Rosário casou com apenas 18 anos, na Igreja de Sul. Hoje, guarda religiosamente o retrato que imortalizou o momento. “Fizeram-me um arco de flores muito bonito, o meu marido era tão alto que até tocava numa das fitas”. Viveram juntos quase 60 anos. Uma longa história de amor. Como prometido no altar, só a morte os separou. “ O meu marido faleceu vai fazer três anos, tenho muitas saudades fomos muito felizes.”

Depois de mais de 20 anos a trabalhar no aeroporto de Lisboa, depois de se reformar, Rosário e o marido decidiram voltar a Sul. Uma notícia muito feliz, “gosto muito mais da aldeia de Sul do que Lisboa, nem tem comparação”. Contudo, quando o marido faleceu, o seu mundo mudou. Ficou mais triste. Foi aí que encontrou a Dolorosa, uma antiga conhecida que passou a cuidar dela e que hoje, para Rosário, é uma verdadeira filha. A filha que nunca teve. “Sou tratada como uma rainha. Há muitos (idosos) que estão sozinhos, não têm ninguém em casa, estão desprezados. Eu estou muito feliz, tenho companhia. Dá-me muitos carinhos, não posso estar melhor. É como uma filha, só me quero ver com ela, não vê que ela anda sempre comigo?”

Memórias de um tempo que passou

O que antes eram simples rotinas do dia-a-dia, hoje, deixam saudade. As sardinhas fritas com broa que comiam nas terras na pausa da lavoura, a roupa que lavavam no rio, o sabor da carne que saía da salgadeira, o gosto das mãos à amassar o pão. “Era tudo tão diferente, agora está tudo tão mudado. Os terrenos tinham outro cheiro, a comida era tão saborosa, agora, já não me sabe a nada. Tenho tantas saudades desse tempo, de ir lavar a roupa ao rio de bater com a roupa nas pedras, com os pés na água”.

Rosário Tavares olha para o horizonte, lá encontra memórias e esperança. Sorri. “É esta a minha história”, conclui.

 

Projeto em Rede Pela Vida

Entidade Promotora ADRL

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Projeto apoiado pelo EDP Solidária Barragens

PrintRedação Gazeta da Beira