O PSD mudou mesmo

Manuel Silva

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No último congresso do PSD, o seu líder, Pedro Passos Coelho, fez profissão de fé – fé religiosa não tem, mas fé política, sim, como se pode verificar pela sua coerência e cumprimento do que promete em campanha eleitoral – na social-democracia. Quando falou na ascenção social, na necessidade de uma classe média forte e melhor distribuição da riqueza, parecia ter Sá Carneiro reencarnado na sua pessoa.

A nossa imprensa, com a neutralidade que se lhe conhece e sempre desejosa de novidade, logo concluiu ter mudado o PSD.

Dia a dia, o comportamento de Passos Coelho e do seu partido provam a efectiva mudança de orientação operada naquele congresso. O antigo primeiro-ministro auto-criticou-se publicamente pelas medidas

impopulares adoptadas quando exerceu aquelas funções, pediu desculpa aos pequenos e médios industriais e comerciantes pela destruição e falência das suas empresas, aos trabalhadores que perderam emprego, aos jovens sem trabalho ou que tiveram de emigrar, a todos quantos viram, e não são poucos, os seus salários e pensões de reforma diminuidos, aos desempregados sem direito a subsídio, especialmente aos casais que se encontram nessa situação, aos novos pobres, aos lesados do BES, por ter afirmado encontrar-se este banco em boa situação financeira poucos dias antes de falir, na prática, bem como a todos os demais prejudicados pelas suas políticas de ajustamento. Mais disse que se voltar a governar numa situação idêntica, os ricos também terão de participar no pagamento da crise.

Maria Luis Albuquerque, eleita para uma das vice-presidências do PSD, além de afirmar ficar a tempo inteiro como deputada, servindo assim o povo e o país, assumiu publicamente a sua culpa no aumento da dívida pública em cerca de 30% durante os últimos anos e na manutenção do défice num patamar elevado, 4,5% do PIB em 2015. Recordamos dever o mesmo estar abaixo dos 3%  no final de 2013,

de acordo com o memorando assinado com a troika.

A direcção do PSD repudiou, com veemência, as críticas da Comissão Europeia ao  aumento do salário mínimo e outras medidas anti-austeridade.

Como agora tem mais tempo para a leitura, Pedro Passos Coelho estudou os teóricos liberais, clássicos e modernos. Disse publicamente renegar o liberalismo e ter ficado horrorizado quando tomou conhecimento da seguinte frase de Hayek: “a justiça social não é possível nem desejável”. Fala-se que o próximo sound-bite laranja poderá ser “liberalismo, nunca! Social-democracia, sempre!”.

As fotografias dos clássicos da social-democracia Ferdinand Lassale, Eduard Bernstein, August Bebel e Karl Kautsky encontram-se penduradas na sede da São Caetano.

O PSD anunciou o seu abandono do Partido Popular Europeu e requereu, mais uma vez imitando Sá Carneiro nos idos do PREC, a sua adesão à Internacional Socialista, à qual pertencem todos os partidos

sociais-democratas.

Pacheco Pereira, José Eduardo Martins, Rui Rio, Ângelo Correia ou Nuno Morais Sarmento não têm qualquer razão nas suas críticas à actual direcção do PSD.

No PSD, a hora é mesmo de mudança.Redação Gazeta da Beira

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