O poeta de Lafões que foi nomeado para o Nobel em nove anos (quase) seguidos

“Passam os dias, e em vão!/ Eu sou a Recordação/Sou mais, ainda: a Saudade”, escreveu António Correia de Oliveira, nascido em São Pedro do Sul no último quartel do século XIX, quinze vezes proposto para o Nobel da Literatura entre 1933 e 1942.
Em 1933, ano da primeira nomeação para este importante galardão literário, António Correia de Oliveira [ACO] teve uma única nomeação subscrita por vinte membros da Academia das Ciências. O poeta tinha então 55 anos e o apreço de quem preenchia os critérios definidos pelo regulamento do prémio instituído por Alfredo Nobel para nomear candidatos.
Em 1934, o poeta que nasceu em São Pedro do Sul em 1878, estudou no Seminário de Viseu e morreu em Esposende em 1960, teve cinco indigitações independentes para o Nobel da Literatura, quatro delas subscritas por cidadãos portugueses que preenchiam os critérios exigidos pelo regulamento, e a quinta pelo académico sueco Knut Hjalmar Leonard Hammarskjöld que voltaria a propor ACO em 1942; em matéria de apoios estrangeiros, recorde-se que em 1939 ACO foi proposto por Per Hallström, um outro académico sueco, mostrando que o prestígio de António Correia de Oliveira ultrapassava as fronteiras nacionais. Todas as informações sobre nomes dos proponentes estão disponíveis no arquivo aberto do Prémio Nobel.
O cunho ruralista e nacionalista da poesia de Correia de Oliveira acabaria por fazer dele um dos autores que melhor se enquadrou na época de ascensão e afirmação do Estado Novo; muitos dos que frequentaram a escola primária antes do 25 de Abril de 1974 recordar-se-ão certamente de alguns poemas de ACO nos livros de leitura escolar.
Monárquico e contemporâneo de Pessoa
Num curto e assertivo texto disponível no arquivo de Fernando Pessoa, este poeta maior que nunca foi proposto para Nobel da Literatura, mas que um século depois todos conhecemos, escrevia que “o provincianismo tem outro aspecto, um pouco mais provinciano. Não se pode ser adulto com uma mentalidade análoga à da criança sem com isso sofrer qualquer coisa (…) Conhecemo-nos todos, ou é como se nos conhecêssemos. Por isso avaliamos do trabalho de um ou de outro segundo a nossa simpatia ou antipatia por ele — simpatia ou antipatia baseadas em elementos totalmente estranhos a esse trabalho: aspecto físico, rivalidade pessoaI, política. Se falar em António Correia de Oliveira a um republicano, por culto que seja, já sei que dirá mal dele como poeta, porque é conservador. Se falar de Aquilino Ribeiro a um monárquico, por culto que seja, já sei que dirá mal dele, porque é radical. E se em um caso ou outro não disser mal, é porque sucede ser amigo dele. Assim tudo se traduz, em fim, numa política de campanário arruinado”.
A única certeza que temos é que uma semana depois do Nobel da Literatura ter sido atribuído a Abdulrazak Gurnah, a região de Lafões tem todos os motivos para procurar entender e conhecer este autor de matriz saudosista que aqui nasceu e publicou “Tentações de Sam Frei Gil”, em 1907.
14/10/2021

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