O meu bairro

João Pedro Coelho

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O casal regressa do hospital. Caminham pela estrada e dirigem-se para a vila.

O homem, nesta altura os casais são constituídos, exclusivamente, por um homem e uma mulher, caminha à frente e a mulher atrás.

O céu apresenta-se carregado com o horizonte coberto de nuvens. Por isso, ele, no seu fato escuro domingueiro, traz um chapéu de chuva preso na gola do casaco, acompanhando a curvatura, já algo deformada, das suas costas.

A mulher, três metros atrás, carregada com os sacos das hortaliças que tentará vender no cimo da vila, tem dificuldade em acompanhar o seu homem.

Ele, sem nunca olhar para trás, apercebe-se do caminhar mais lento dela e diz, lá do alto do seu andar:

– Raça da mulher, já não basta o tempo que esperámos na consulta. Mexe esses pés, que eu tenho mais que fazer. Por este andar, ainda perdemos a Guedes.

Ela, também vestida de pretos dos pés à cabeça e trajando à cabeça, um lenço enorme que lhe tapa parte do rosto; reúne as últimas forças, arrebita os sacos da hortaliça e entra, de novo, na passada leve do marido.

 

Um carro passa e perturba o descanso do cão que dormita junto à estrada. O cão, um rafeiro com pedigree, não gosta de coxos, esfarrapados ou andrajosos. Julga-se, o cão, o guardião do cimo da avenida e ladra aos infelizes coxos  na ida ou no regresso do hospital.

Infelizmente, existem sempre vítimas inocentes. Não sendo coxo ou maltrapilho, existe uma pessoa a quem o nosso rafeiro não perdoa.

Tente-se perceber o cérebro de um cão…

Esta pessoa, simpática para com o bicho que lhe ladra, usa uma espécie de saia, e é este pormenor que o nosso canídeo não consegue interpretar e no seu raciocínio entende que algo de estranho se passa. Um homem de saias…

Por mais que se tente explicar ao animal, este continua a provocar o pânico, ao Padre Inocêncio que por aqui passa diariamente.

 

Hoje é dia de futebol no terreiro. O terreiro é o largo do hospital. Usamos as árvores como balizas e jogar no terreiro é uma aventura…

Para além das duas balizas, como nos campos de futebol normais, temos a fonte que, situada no meio do “campo”, ora se transforma em colega de equipa ou em adversário, conforme a conseguimos ou não contornar.

Como não se joga em silêncio, às vezes o jogo termina em fugida, porque o jipe da guarda faz a sua aparição.

Em boa verdade, não nos adianta fugir. Os guardas, por via de um delator nunca identificado, apontam os nomes de todos os craques e vão a casa dos pais deles exigir o pagamento de uma multa. Não sei porque temos que pagar uma multa. Será por sermos felizes, por gritarmos alto ou por sentirmos que o terreiro é nosso?

Bom, multa paga e coça a caminho…Sim, neste tempo o diálogo pai-filho é, normalmente, veiculado pelas mãos. Não deixa de ser um diálogo caloroso.

 

A escola é perto, fica ao fundo da rua. Podia ser mais divertida, se não existisse o muro de separação entre rapazes e raparigas. O muro não é muito alto, mas é nos apresentado como uma parede intransponível.

A existência deste absurdo muro e a ordem, também ela absurda, de não o passarmos, é música para os nosso ouvidos. De quando em quando, armados em Tom Sawyer’s, vamos ao outro lado ver como é. Às vezes corre mal…

Neste tempo, uma cantina é um luxo e a nossa escola não tem, infelizmente, uma.

Quem pode e vive perto, vai almoçar a casa. Quem não pode, vai almoçar à sopa dos pobres. Este nome, sopa dos pobres, provém do facto de o almoço constar de uma espécie de sopa e ser servido numa casa no bairro dos pobres, a caminho de Anciães. Uma vez por outra, fugindo à vigilância paternal, acompanho alguns amigos meus na “saborosa” sopa.

 

Assim decorre tranquilamente a vida, na Negrosa, entre a escola, o cimo da avenida, o terreiro e esporadicamente a sopa dos pobres.

 

Estamos no último ano da década de sessenta. Do século passado, claro.Redação Gazeta da Beira

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