O italiano que esteve na origem da avicultura portuguesa a partir de Campo de Besteiros

António Morelli – o italiano que criou o “cluster” português da avicultura a partir de Campo de Besteiros

 • Texto de Pedro Soares

“O engenheiro Morelli veio tirar muitas famílias da fome!” conta Almiro Marques Cardoso, que trabalhou na avicultura com este engenheiro italiano que trocou a Lombardia – região do Norte de Itália de que tanto ouvimos falar no início da pandemia da Covid-19 – pela casa da sua prima Eduarda de Matos, em Castelões, na base da serra do Caramulo, em meados do Século XX.

Almiro Marques Cardoso, 87 anos, continua a viver na casa que herdou dos pais em Campo de Besteiros, a cerca de 2 quilómetros de Castelões. O octogenário trabalhou para António Morelli e Eduarda de Matos desde que estes fundaram o Aviário da Gândara, em 1951. Sabe tudo ou quase tudo sobre aquela relação que acabaria por fazer nascer a avicultura na região de Dão Lafões e que foi o núcleo original da moderna avicultura portuguesa.

António Morelli faleceu em 1963 e a prima Eduarda de Matos, com quem viveu uma história de amor não assumida, uns anos mais tarde. O único marco visível da sua estadia em Campo de Besteiros, onde está sepultado, é uma pequena placa com o seu nome, cravada numa casa em ruínas numa esconsa quelha perpendicular ao largo da vila.

Porém, Morelli teve uma ação inovadora e determinante no surgimento da avicultura industrial portuguesa, setor que produziu, em 2019, perto de 300 milhões de aves e quatro mil milhões de ovos para consumo e incubação. A afirmação de que se deve a ele o impulso para a criação do “cluster” da avicultura moderna em Portugal é inteiramente justa.  O papel do engenheiro italiano, que falava bem português, merecia ser publica e devidamente reconhecido.

 

Avicultura gerou riqueza no contexto da pobreza dos anos 50/60

Nas Beiras da década de 50 havia muita gente para pouca terra. A agricultura do minifúndio era dominantemente de subsistência. Um estudo de 1956 avaliava entre setenta e cem mil pessoas por ano o movimento migratório dos ranchos que acudiam sazonalmente aos trabalhos agrícolas no Alentejo. Nos campos havia pobreza, fome e trabalho de sol a sol sem alternativa, sem ser a emigração. Destacados autores defenderam na época o desvio do “excedente” populacional do Norte para os ermos do Alentejo.

Campanha nos EUA em 1918 pela produção de galinhas para apoio ao esforço de guerra

Portugal vivia nessa década as consequências da crise económica e financeira do pós-Guerra. Salazar dava a “cambalhota diplomática” e resolvia solicitar desesperadamente ajuda americana, no âmbito do Plano Marshall (plano dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos que seguiram à Segunda Guerra Mundial) para obter os dólares necessários ao reequilíbrio da balança de pagamentos e à importação de alimentos.

Naquele ano de 1951, enquanto os ventos da democracia percorriam a Europa do pós-Guerra, em Portugal a ditadura era confrontada com uma crise de poder, na sequência da morte do marechal Carmona, que somava às dificuldades económicas e financeiras de um país fechado e que tardava em arrancar para a industrialização. Os pioneiros da avicultura portuguesa merecem ser lembrados também por isso, em condições adversas deram um dos primeiros sinais de modernização económica num setor, a agricultura, frequentemente marcado pelo atavismo.

 

O fordismo americano aplicado na produção avícola

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a avicultura industrial foi uma das soluções em tempo de guerra para produzir rapidamente proteína animal em grande escala. Para manter as tropas saudáveis e motivadas não chegava distribuir rações de combate. A maior vantagem das galinhas era produzirem carne e ovos de qualidade em apenas algumas semanas.

Em 1943, quando o 7ª exército americano do general Patton e o 8ª exército britânico do general Montgomery começam a ofensiva dos Aliados a partir da Sicília em direção ao norte de Itália, o governo americano tinha comprado 80 por cento da carne bovina de segunda e 40 por cento de todas as restantes produzidas nos EUA. O esforço de guerra era total e exigia capacidade de resposta às novas necessidades.

Até ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, alimentar exércitos e proporcionar comida às populações locais, uma das formas de demonstrar a diferença entre democracia e nazi-fascismo, exigiu uma capacidade de produção e um esforço logístico só possíveis pelos novos métodos de produção em massa do tipo fordista que os EUA desenvolveram também na produção alimentar. Transformaram capoeiras em aviários onde se fabricam ovos e carne em quantidades nunca vistas. A logística americana trazia variedades avícolas e técnicas que difundia nos territórios por onde os seus militares passavam.

O jovem engenheiro eletrotécnico António Morelli terá contactado com essa organização avançada quando os americanos conseguiram alcançar o Norte e chegar ao Vale do Rio Pó, a região mais rica e povoada de Itália, com cidades depauperadas pela guerra como Milão, Turim, Bergamo ou Bolonha. Natural de Gardone Riviera, uma pequena vila nas margens do Lago di Garda, na Lombardia, Morelli não precisou de muito tempo para perceber, a partir dos seus conhecimentos técnicos, as vantagens dos novos métodos americanos de organização económica da produção.

 

Eduarda nasceu no meio do Atlântico e foi acolhida pelos Morelli

Eduarda de Matos era filha de um português e de uma italiana, emigrados no Brasil. Quando ficou grávida, a mãe de Eduarda decidiu voltar para Itália e deu à luz a meio do caminho, no transatlântico “Saturnia” que fazia a ligação, desde 1927, entre a América do Sul e a cidade de Trieste, o porto do Mar Adriático no nordeste italiano.

Eduarda de Matos prima e sócia de Morelli no Aviário da Gândara

Chegadas à Lombardia são acolhidas pela mãe de António Morelli, tia de Eduarda. Aos nove anos a menina veio para Portugal e fica com o pai. Jovem adulta vai para Inglaterra, ao serviço da Embaixada portuguesa, com responsabilidades na ligação à BBC – cujo serviço em português, durante a II Guerra Mundial, foi seguido por muito portugueses como a única fonte de informação credível.

A morte do pai no final da Guerra leva Eduarda – que nunca esqueceu os anos que viveu na Lombardia – a voltar de Inglaterra e instalar-se em Campo de Besteiros.  Em 1950, decide viajar até Itália para matar saudades e reencontra o primo António Morelli a recuperar de uma peritonite. Não terá sido pelas galinhas que logo o convidou a vir para casa dela, em Campo de Besteiros. O argumento foi o de que lhe faria bem à saúde a mudança de ares. Porém, o Caramulo era recomendado para doenças pulmonares, não tanto para maleitas abdominais. Algo terá definitivamente aproximado António e Eduarda. Poucos meses após a visita da prima, o engenheiro António Morelli instala-se na casa de Eduarda em Castelões e, com perspicácia, percebe que a avicultura, que se desenvolvia pela Europa fora e em Portugal era desconhecida, teria futuro num país em que quase tudo faltava.

 

Iniciativa de Morelli muda a região

Chegado a Castelões, Morelli adapta as instalações da prima para começar a selecionar frangos reprodutores, concebe e executa equipamentos, desde chocadeiras elétricas a comedouros, passando por bebedouros encomendados e produzidos na vizinha povoação de Molelos com tradição na olaria. Importa da Dinamarca ovos de reprodutores selecionados. Em 1952, com Eduarda de Matos, cria o Aviário da Gândara direcionado para a produção de ovos, iniciativa que está realmente na origem da avicultura moderna em Portugal.

Almiro Marques foi empregado do Aviário da Gândara

O êxito do Aviário da Granja espalha-se pela região. A primeira parceria de Morelli é com o médico Armando Correia Teles, de Muna de Besteiros, que transformou o pequeno galinheiro da mãe, que foi avisando que “animal de bico nunca fez o homem rico”, num aviário com duzentas poedeiras. No quintal montou um pequeno fabrico de ração para consumo do aviário de Morelli e das suas próprias galinhas e para fornecer a avicultura que despontava nas redondezas. Em 1954 já vendia a ração embalada em papel kraft (papel com elevada resistência mecânica ideal para embalagens) com a marca “Almivita” e construía novo aviário para mil poedeiras, o Aviário da Tapada.

A ligação das primeiras galinhas de alto rendimento com a medicina não se ficou por aqui. A prestigiada família Lacerda, dona do Sanatório do Caramulo, entra em força no negócio por iniciativa do médico João Lacerda que procurava diversificar os investimentos da família face à decadência do sanatório após o surgimento da estreptomicina e da vacina BCG. Não surpreende. Segundo as contas do médico Correia Teles e de acordo com a experiência do seu aviário, o rendimento obtido foi de 30,58% sobre o investido, espantoso para a época em que a Banca pagava 2% a prazo e a renda do capital imobiliário não excedia os 5,5%.

A atividade espalhou-se pela região, combateu a vaga de emigração e fez com que muitas famílias de pequenos agricultores conseguissem melhorar a vida e colocar filhos a estudar, fruto do aumento de rendimentos e da estabilidade económica que a avicultura proporcionava. Múltiplas iniciativas avícolas surgem pelo país levando a que no início dos anos 60 a avicultura portuguesa estivesse consolidada.

A Cooperativa Agrícola de Lafões, com sede em Vouzela, constituiu-se em 1965 e foi uma das respostas à necessidade de organizar a produção e a comercialização de um setor que começava a ganhar escala.  Arrancou com 79 associados e em 1973 já contava com 719, expressando a recetividade dos agricultores, mas também a vitalidade do setor.

 

A marca indelével de António Morelli

Apesar dos ares do Caramulo, Morelli adoece e é operado por 3 vezes em Coimbra a problemas abdominais que o deixam muito debilitado. Na sequência disso, a relação afetiva entre Eduarda e António parece ter esfriado seguindo-se uma fratura também nas relações empresariais.

José Manuel Matos Duarte, com 83 anos, conhecido em Campo de Besteiros por Samuel (devido a um erro no registo em que o funcionário percebeu José Manuel em vez de Samuel), falava frequentemente com António Morelli. Sentavam-se no muro que existia à volta da feira e por ali ficavam a conversar. “Era uma joia de pessoa”, referiu Samuel que começou por ser administrativo numa serração e acabou por entrar no negócio da avicultura com a empresa Avicris.

Samuel Matos Gomes da Avicris conheceu Morelli

Eduarda fica com o Aviário da Gândara, enquanto Morelli constitui, em 1956, uma sociedade denominada Aviário Valbesteiros e cria uma empresa de equipamentos para a avicultura sob a marca “Morgan”. O “cluster” estava em formação – funcionamento em rede de empresas especializadas no mesmo ramo ou complementares, quase quarenta anos antes de o norte-americano Michael Porter publicar ”Competitive Advantages of Nations” (A Vantagem Competitiva das Nações), obra onde teoriza o conceito.

Após a morte do engenheiro italiano, em 1963, o setor continuou a progredir com a multiplicação de empresas e cooperativas que articulam a produção de aves reprodutoras, pintos do dia para carne e ovos, rações, equipamentos para aviários, fármacos, redes de comercialização e prestadoras de serviços vários. A seguir a uma certa democratização da avicultura por pequenos agricultores e outros pequenos empresários, assiste-se a um forte processo de concentração empresarial e de integração do ciclo de produção nas chamadas empresas integradoras (fornecem o necessário para todo o ciclo, desde os pintos até à ração, passando por fármacos e apoio técnico, assegurando o escoamento das aves e ovos).

Rua em Campo de Besteiros com o topónimo António Morelli

Atualmente, o setor está essencialmente concentrado em 2 grandes grupos – a Lusiaves e a Valouro. De acordo com o Recenseamento Agrícola de 2009 (INE), cerca de 77 por cento do frango de carne de todo o Continente é produzido na Região Centro, onde se inclui Dão Lafões, certamente não por acaso, mas uma marca indelével do engenheiro António Morelli.

 

Gazeta da Beira agradece a colaboração do Eng. João de Deus Silva na elaboração deste texto.

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