O encerramento de serviços públicos e o despovoamento do interior

José Roupiço, um leitor atento da Gazeta da Beira enviou-nos o conto que a seguir se publica, por considerarmos que é um excelente ponto de partida para a reflexão sobre o despovoamento do intervir rural. Neste conto é bem visível a inadequação das políticas públicas dirigidas aos territórios rurais do interior e o desconhecimento destes territórios mesmo por parte de técnicos de autarquias locais.
Este texto fala-nos da privatização dos CTT que conduziu ao encerramento de postos de atendimento, à redução do número de trabalhadores e o impacto que isto teve na diminuição da qualidade de vida das populações.
Fecharam agora postos de atendimento dos CTT e antes foram encerrados escolas, tribunais, serviços de saúde, serviços florestais e agrícolas e outros de tanta importância para a vida das pessoas.
Aqui fica mais um contributo, este em forma de conto, para a necessária e urgente tomada de consciência do dramático abandono do interior. Além disso, não há espaços vazios, saem as pessoas, entra o fogo, como já se viu no Verão e Outono de 2017.

À Procura da eficiência
Cum caraças! Que haja correspondência!
Ela pode andar por aí, podem ter a certeza que anda!
Já tenho número de porta! Um? Quais quê? Uns trinta e tal.
Até oliveiras, sobreiros, pinheiros, castanheiros, medronheiros, têm número de porta.
Uma propriedade agrícola só com um número nas matrizes das finanças e predial, é obra!
Um carro estacionado num dos caminhos que atravessa a propriedade onde habito, despertou-me a curiosidade. Que diabo, o gajo está ali há mais de meia hora. O que se passa?
Não há como procurar. Os camponeses ficam entre o perplexo e o desconfiado na presença de estranhos, e não sendo eu desconfiado, sou camponês…
– Desculpe lá oh amigo: precisa de algum préstimo meu?
– Não obrigado, retorquiu ele. Estou a marcar os números de porta.
– Os números de porta?
– Sim, pr’ós carteiros meterem a correspondência.
– Boa ideia essa, que eu tenho a palmilhar, à vontade mais de meia milha terrestre para ir buscar o correio. E se forem registadas, ou encomendas que não entrem na janela/postigo, lá fica o aviso para no dia seguinte ir à sede do concelho para as receber. Olhe que são quinze quilómetros, sim, no métrico, mais o gasoil. Mas já agora, e vai atribuir números, ou algarismos a todas as portas?
– Sim.
– E também ao curral das vitelas?
– Também.
De facto, tinha sido visitado por um simpático autarca da Junta de Freguesia, acompanhado de duas jovens, que na conversa “do como está?” se apresentou:
– Somos da comissão de toponímia e decidimos dar o nome a este caminho de “Rua do Algar”. Está de acordo?
– Não! Isto não é nenhuma rua, alameda, vereda, avenida ou azinhaga. Isto é um caminho rural de acesso a propriedades agrícolas e moradores.
– Pois, a gente decidiu assim.
– Mas como é isso dos números?
– Vá à câmara, fale com o engenheiro, ele tem lá os números e dá-lhos.
– Mas o engenheiro mesmo, ou o serviço?
– É o engenheiro mesmo.
– Mas dados, dados?
– Dados, dadinhos, respondeu o meu interlocutor.
Ainda lá não fui.
Estava-se em campanha eleitoral, os números eram muitos, mais de trinta, mesmo em material sintético, não pesando, haviam de fazer volume. E o carteiro a passar ao longe… já lá vão uns anos.
Olhando as paredes onde hei-de pendurar alguns números, elas de 1927, veio-me à memória – não tenho a certeza de plagiar o Sérgio – o velho carteiro, o Sr. Domingos, de mala de cabedal ao tiracolo, a corneta (pois claro!) e uma pasteleira cuja eficiência deve ser escrutinada à luz dos factos. Com o raio, o terreno era e é basto acidentado. Alcatrão? Nem vê-lo! Carretos de multiplicação e desmultiplicação, nem o Alves Barbosa os terá usado nessa época. É mais certo na metade do percurso 50 (20 Km será pouco), o Sr. Domingos empurrar a pasteleira ou então carregá-la às costas. Sim que nos ribeiros, pontões eram coisa rara. Aí as passagens a vau tinham o nome de “Porto Carro”.
Mas o Sr. Domingos fazia-se acompanhar da bicicleta, claro indício dela possuir qualquer eficiência. E a que lhe faltasse, era compensada pela corneta (sim, a que está no logótipo dos CTT) para alertar os povos de haver cartas; a sua disponibilidade para as ler ao destinatário; e ainda escrever o que lhe era ditado em resposta.
O Sr. Domingos aprendeu as letras na escola republicana ou numa regimental quando foi conscrito. Não tenho dúvidas e quase a certeza.
E tanto assim que o de má memória, só pouco tempo antes emendou a mão, abandonando a sua célebre tirada: “para quê ensinar a ler o nosso povo, se ele não tem educação moral?”, substituindo-a mais tarde por outra menos chocante: “para o comum dos portugueses basta saber ler, escrever e contar”.
E a encomenda a fazer falta. Lá fui à caixa do correio, desta vez de carro. Nada!
Seguindo viagem, vejo o tal carro vermelho com o cavalo alado, a corneta dos correios que agora se chama “Banco CTT” e um jovem fardado de carteiro (não trazia fato, camisa e gravata de bancário, não trazia não”. Tinha nas mãos um balde de “massa”, uma colher e talhocha de pedreiro e dedicava-se a “chumbar” uma bateria de caixas de correio que, presumo, o temporal atirara para o chão, já há umas semanas.
Inversão de marcha. Vou saber da encomenda.
O jovem fez sinal para parar.
– Tenho aqui uma encomenda para si, enquanto limpava a “massa” das mãos.
Lá paguei o porte e a mercadoria. Era a tal que me estava a fazer falta!
Fixei o balde, a talocha e a colher, próprios dos trabalhadores da construção civil, e disse-lhe:
– Bem! Não sou a favor nem contra as gorjetas. Tome lá dois euros, e saúde, que “a gripe” anda a chatear.
Pensei cá para mim:
– Isto é que é procurar a eficiência! Oh Lacerda, nem o Salazar se lembrava de uma destas…
(Obra do conhecido autor RIBEIRO DA VINHA)
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