O “Em Rede pela Vida” conta-nos a história de dois irmãos

Os laços de sangue que unem os Bandeira e Pinho

Manuel e José Bandeira e Pinho são irmãos chegados. Na infância eram inseparáveis foram companheiros de muitas aventuras. Ambos cresceram e seguiram as suas vidas. Hoje, Manuel vive em S. Pedro do Sul no mesmo concelho que nasceram, José nos Estados Unidos. Apesar da distância, continuam inseparáveis. O “Em Rede pela Vida” esteve à conversa com ambos. Conheça a história de uma amizade que começou desde que se lembram e que continua fértil nos dias de hoje.

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Manuel tem hoje 69 anos, José é quase da mesma idade tem 66. A pouca diferença de idades que têm, permitiu que crescessem juntos. Lado a lado, foram companheiros de caminho: problemas e soluções; trabalhos e brincadeiras; sonhos e realidades tudo isto tinham em comum. “Não havia irmãos tão amigos como nós, tínhamos uma vida muito igual”, explica Manuel. José confirma, “andávamos sempre juntos, tínhamos as mesmas brincadeiras, partilhávamos as mesmas tarefas”, recorda.

Hoje, a cumplicidade mantem-se. Separados por um oceano, continuam presentes na vida um do outro. “Todos os anos gosto de regressar à nossa aldeia, que tem sempre uma atração especial, gosto de visitar a família e estar com o meu irmão Manuel naturalmente”, assegura José. “Mantemo-nos sempre em contacto, as novas tecnologias ajudam”. Os lanços de sangue são difíceis de desatar: “não há amor como o de irmãos”, remata Manuel.

Companheiros de caminho

As memórias de infância são muitas. É com o brilho nos olhos, uma nostalgia cativante, que relatam as peripécias de outros tempos. As sanchas que colhiam e que não tinham qualquer segredo para os irmãos, os morangos silvestres que escondiam um sabor autêntico, ou as motas de pau que construíam, no tempo em que a criatividade era imperativo máximo nas brincadeiras, eram alguns dos exemplos do que faziam enquanto crianças.

“Muitas vezes jogávamos ao futebol com uma bola de trapos, quando se matava o porco, secávamos a bexiga e enchíamo-la com ar, dava para alguns dias, era uma diversão”, recorda José.

Já Manuel recorda as vezes em que os irmãos se “levantavam cedo para ir ajudar o pai que, assim, poupava algum dinheiro, uma vez que podia dispensar o ajudante”. O que movia os dois jovens era bem simples: “o pão com manteiga e o leite com café” que impreterivelmente tomavam na paragem obrigatória em Albergaria-a-Nova. Algo raro na pequena aldeia sampedrense em que o leite era, quase sempre, para as crias.

A pesca também era um dos entretenimentos da época. Com o rio Sul tão perto, multiplicavam-se as brincadeiras dentro de água. As canas eram eles próprios que as construíam, contudo, a maior parte das vezes, era mesmo à mão que conseguiam apanhar os peixes. Como conta José, “apanhávamos os peixes à mão, o complicado era que às vezes, enganávamo-nos e tirávamos cobras”.

As desfolhadas, as vindimas, as matanças do porco, ou o ciclo do linho eram tradições com forte implementação em S. Pedro do Sul. Pela frente havia muito trabalho, mas também muita diversão. As pessoas juntavam-se para trabalhar, mas também para conviver. Ajudavam-se umas às outras. Em muitos desses serões, Manuel era o protagonista. “Tinha jeito para cantar, arranhava umas notas e então, pediam-me para cantar a riba, isto é, para erguer a vós, devia ter aí uns sete ou oito anos”, recorda. Como prémio esperavam-lhes as deliciosas sopas de vinho com pão de milho. “Depois da primeira malgada aquilo é que era cantar”, brinca.

 

Estudar, na altura em que era raro ter um curso superior

José é professor, Manuel advogado, ambos prosseguiram estudos superiores, uma exceção entre os jovens da sua aldeia, algo de invulgar naquele tempo. “Estudar não era fácil, só para quem tinha algumas possibilidades, não havia transportes, as pessoas tinham que viver nos locais em que estudavam, era dispendioso…”, recorda José.

Manuel recorda o gosto que os pais tinham em que os filhos fossem alguém. Às vezes superior à dos próprios filhos. “Eu adoeci de prepósito para me vir embora, tinha um grande apego à terra, destaca.” Os nossos pais faziam muita questão, insistiram muito connosco, chegaram a ter os 4 filhos a estudar fora, o que não era fácil, venderam um terreno, na altura, para fazer face às despesas”, continua.

A vida adulta dois caminhos separados, mas unidos

Manuel e José cresceram e como natural, cada um seguiu o seu caminho. Ambos mantiveram o amor à terra da sua infância. Os dois guardaram as memórias felizes, assim como, o amor e a cumplicidade entre ambos.

Dois irmãos na mesma Guerra

José foi para a Guerra Colonial, esteve em Guiné desde 1971 e 1973. “Sabíamos que 99% das pessoas que iam para a tropa iriam para o Ultramar, sabíamos também que nem todos vinham. Estava previsto que a minha missão durasse 18 meses, contudo, como não havia militares para nos renderem, tivemos lá cerca de dois anos”.

Tempos difíceis, em que a vida estava constantemente em jogo e as saudades apertavam. “Não é só não ver a família. Estávamos num destacamento em que não havia rigorosamente mais nada: apenas militares e mato. Ouviam-se tiros todos os dias. Dormíamos debaixo da terra, com medo que alguém entrasse no aquartelamento. As noites pareciam que tinham 24 horas”.

Enquanto esteve na guerra, José apenas veio duas vezes a S. Pedro do Sul. Faltavam apenas um mês para acabar a missão e veio à sua terra para se casar. Regressou, como estava previsto, aqui deixou o coração. O tempo que ficou no Ultramar, contudo, foi bastante mais do que aquele que estava à espera. “Pensava que era só mais um mês ou dois, contudo, fiquei mais de seis meses”.

Regressou nas vésperas do 25 de Abril e partiu para os Estados Unidos, onde a esposa já tinha a vida organizada.

Também Manuel não se livrou da Guerra Colonial. Felizmente, não teve que partir para o Ultramar. “Só havia uma maneira, tinha que tirar boas notas, assim, poderia vir ao fim-de-semana ver os filhos e librava-me da guerra”.

Os bem classificados ficavam a dar formação em Mafra e foi isso que aconteceu a Manuel. Conseguido o objetivo de não ir para o Ultramar, faltava-lhe um outro: regressar a casa. Através do intermédio de um amigo, rapidamente conseguiu ser colocado em Viseu e foi aí que soube da Revolução dos Cravos. Na véspera, estas foram apenas as indicações dos seus superiores. “Ó Pinho veja-la se bem mais cedo, que nós precisamos de si”.

Dois destinos diferentes

Se enquanto crianças, muitas vezes, passavam as 24 horas do dia juntos. Hoje há meses inteiros que não se veem José partiu para os Estados Unidos, ainda antes do 25 de Abril, por lá ficou e lá estabeleceu a sua vida. Hoje é reformado, durante a vida ativa trabalhou numa empresa de gás e eletricidade. Nas horas vagas ensinava português “havia muitos americanos que tinham que ir trabalhar para o Brasil e precisavam de aprender a Língua Portuguesa, explica.

Um dos feitos que mais se orgulha, como desvenda, é o facto de ter fundado uma escola portuguesa “na cidade americana onde habita e que ainda hoje funciona em pleno”. Foi nos Estados Unidos que teve filhos e netos, mas continua muito ligado a S. Pedro do Sul, não “há ano que aqui não venha passar uma temporada”. O “Em Rede com a Vida” apanhou-lhe numa dessas visitas.

Já Manuel ficou por S. Pedro do Sul onde exerce advocacia. “Abri um escritório, cheguei a ter mais movimento de que todos os outros advogados de S. Pedro do Sul”.

A vida reservou-lhe outra aventura, acabou por ser Presidente da Câmara do seu concelho.

Esteve à frente dos destinos de S. Pedro do Sul, mais do que uma década. Daquilo que fez enquanto autarca, o que mais lhe orgulha foi o facto de “tirar da lama, pessoas que viviam no meio da lama… por mais pequenina que fosse a obra essas foram as que eu gostei mais. Eu nunca me preocupei com os votos, mas eu tinha que fazer onde mais ninguém tinha coragem de fazer. Os mais necessitados ainda hoje me agradecem!”

Inúmeras vezes, Manuel pegava na bicicleta agarrava no bloco para tirar apontamentos e seguia em trabalho de campo. “Gostava de sentir o pulsar às pessoas”, relata.

Outra das suas peculiaridades era deslocar-se muitas vezes a Lisboa, para reivindicar mais condições para S. Pedro do Sul. Chegava aos Ministérios sem audiência, mas acabava por conseguir falar com quem queria. “Eu só vim cumprimenta-lo, eu não vou pedir nada, porque é que haveria de marcar uma audiência…Diga-lhe a ele que é o Presidente da Câmara de S. Pedro do Sul que o quer cumprimentar, tenho-o ouvido todos os dias na rádio, e todos os dias na televisão”, dizia. Depois de conseguir a audiência acaba sempre por ir mais além do cumprimento: “Eu só queria cumprimenta-lo, mas já qui estou”, relata.

Conhecem-se há 66 anos. Partilharam histórias, aventuras, vidas. É evidente a companheirismo entre eles, aquele que é raro, aquele que é só possível entre irmãos. Trocam elogios, contam histórias a meias, ouvem com atenção quando o outro fala. Atualmente, estão menos vezes juntos, mas quando estão compensam. Como comprovam José e Manuel Bandeira Pinho, há laços que perduram e que jamais se desatam.Redação Gazeta da Beira