O alto do Castêlo

Adriana Gomes

Perdido no meio das serras fica o alto do Castêlo, um local encantado por lendas, onde a vista se estende até ao mar.

A história começa algures, no século passado, no seio da povoação que vive mais abaixo, em Santo Adrião. Aí, uma moça esbelta, de coração puro e cabelo negro, pele branca e olhos castanhos-claros, acaba de regressar de Cedrim, onde foi comprar sardinhas para o almoço.

Essa jovem é Leopolda, filha de pobres mas honestos agricultores e irmã mais nova de Jerónimo.

– Então, Leopolda, quantas sardinhas trazes?

– Apenas duas. Estão outra vez mais caras e os tostões que levei não deram para mais…

– Lá vamos nós ter de tirar sortes outra vez para ver quem fica com a cabeça!…

Enquanto Leopolda e Jerónimo, ao fim de uma manhã de trabalho árduo, apenas comem meia sardinha e um pedaço de broa que sobrou do dia anterior, no lugar do Vilarinho que fica entre Cedrim e Santo Adrião, prepara-se Filipe para comer.

Filipe é o filho único de um dos homens mais ricos do concelho, moço altivo, espadaúdo de olhos azuis, cabelo rebelde muito negro e de uma honra, coragem e lealdade tais que aqueles que o conheciam, por muito mesquinhos que fossem e por mais invejosos que se fizessem, não conseguiam achar nele motivo para ódios ou censuras, antes pelo contrário, todos o respeitavam e admiravam.

Findo o almoço, que por sinal lhe agradou, Filipe saiu novamente, desta vez para ir a Cedrim examinar um homem que, pelos sintomas relatados e por ser quem era, quase de certeza tinha contraído leptospirose.

Por esta altura, Leopolda já estava novamente em Cedrim, mas a tratar da roupa dos seus senhores que tinham ido a Lisboa tratar de negócios e rever velhos amigos.

Depois de muita roupa esfregar na pedra dos lavadoiros, muito passar por água e torcer, aprontava-se para ir embora, com a conversa e divertida como estava, Leopolda vira-se e, de repente, embate contra Filipe e fica com toda a roupa espalhada pelo chão.

Filipe baixa-se prontamente para ajudar Leopolda a apanhar a roupa. Pegaram os dois a mesma camisa, os seus olhos encontram-se com um olhar como nunca haviam tido, um olhar perdido no tempo, sincero, arrebatador, um sentimento tão estranho acompanhou este olhar, que ambos largaram a camisa como se o fogo os tivesse queimado.

Depois do embaraço do olhar, Filipe, para compensar Leopolda, oferece-lhe ajuda para passar novamente a roupa por água e para a acompanhar a casa. Leopolda recusa, mas Filipe, percebendo que a sua recusa era motivada pelos olhares de censura das amigas e mulheres mais velhas que ali se encontravam, segue o seu caminho e espera Leopolda junto a um grande carvalho que cresce junto ao caminho que leva a Santo Adrião, passando pelo Vilarinho.

Tendo demorado mais do que esperava a lavar a roupa, Leopolda quase corria caminho acima em direção a casa antes do anoitecer. Ao chegar perto do velho carvalho, vê um cavalo e logo percebe que Filipe ficou ali à sua espera. Por momentos quase parou, mas a esperança de encontrar de novo aquele olhar, fê-la retomar o caminho e seguiu naquela direção.

Nessa tarde, Leopolda ganhou uma alma nova.

De noite nenhum dos dois conseguiu dormir. Impelidos por uma estranha força, os dois levantaram-se e foram para o local de que mais gostavam no mundo, o alto do Castêlo.

Nunca antes se haviam ali encontrado, mas nessa noite tudo mudou. Nesse local mágico, onde o tempo não passa, os olhares voltaram a cruzar-se e as suas almas fundiram-se numa só.

Nos dias seguintes ambos estavam perdidos em pensamentos fugazes um pelo outro e o seu segredo tornara-se evidente. Já toda a freguesia comentava que os dois se tinham perdido de amores.

Os pais de Leopolda estavam envergonhados pelo caminho por onde a filha enveredara; por isso, e para garantir que não viria a ter problemas com os pais do moço, proibiram-na de se encontrar com Filipe e mandaram Jerónimo segui-la cada vez que tivesse de sair de casa.

Filipe, por seu lado, também não teve melhor sorte, pois o pai proibiu-o de voltar a ver a moça e tratou, o mais prontamente possível, de encontrar uma moça da burguesia para dar o laço com o filho, sob a ameaça de o deserdar caso este fosse contra.

Perante tudo isto, Filipe procurou intercetar Leopolda, mas, como estava sempre acompanhada pelo irmão, pediu a uma amiga de Leopolda para lhe entregar o recado para esperar no local do costume, pronta para tudo.

Leopolda ficou preocupada pensando que ele se ia matar ou dizer que os rumores do seu casamento eram verdade e que não a queria ver mais, mas, mesmo assim, a meio da noite foi para o local combinado.

Nos últimos dias, Filipe dias tinha andado desaparecido de todos, não sendo visto nem em casa nem em parte alguma, aparentando ter sido levado pelo rio.

Aquela noite estava como a primeira em que se haviam encontrado e da mesma forma os seus olhos se cruzaram. No entanto, naquele olhar também havia medo.

Filipe mostrou a Leopolda o que tinha andado a fazer e, passando-lhe um papel para a mão, pediu-lhe que seguisse aquele caminho que ele traçara e, no dia seguinte, ambos seriam livres.

Os dois deram um longo e profundo beijo, com um misto de amor, medo e confiança. De seguida, Leopolda enveredou pela entrada do túnel que estava indicada no papel.

Filipe teve muito trabalho para descobrir o tal caminho, mas afinal as histórias que os mais idosos lhe contavam eram verdade, o túnel do alto do Castêlo até ao rio era real…

No regresso a casa, Filipe tratou de tudo para a vigem que ia fazer no dia seguinte e lembrando-se que Leopolda não tinha roupa de reserva, foi buscar o vestido que o pai tinha trazido de Lisboa para Filipe oferecer à futura noiva e colocou-o no saco para levar.

Leopolda estava com medo e a candeia que levava estava quase apagada, contudo continuou até ao romper da aurora.

O rio estava lindo e brilhante quando filipe lá chegou. Não tendo encontrado Leopolda no local combinado, foi à sua procura, encontrando-a a dormir mesmo na curva anterior ao fim do túnel. Pegou-lhe com cuidado para não a acordar e delicadamente deitou-a na bateira que estava ali pronta para a sua fuga, nunca mais tendo sido vistos pelas gentes de Cedrim.

Hoje em dia, ninguém se recorda do amor proibido entre Leopolda e Filipe, mas ainda se ouvem os antigos falar sobre a existência de um caminho secreto subterrâneo que liga o rio ao alto do Castêlo. Se procurarmos bem na História, a história repete-se e só não vê quem não quer.

As lendas não são toda a verdade, mas sem lendas não há verdade: o Castêlo está lá, o rio vê-se do Castêlo… Quanto ao resto, procurem com persistência e pode ser que encontrem o segredo há muito guardado pelas gentes de Cedrim!Redação Gazeta da Beira