Nuno Campos
INTERIORIDADE
foto: www.pinterest.pt/rui1950vieira/rmmvieira-fotografia – Rui Vieira
O que é a Interioridade e o porquê ser um termo tão “épico” num pais como o nosso de tão pouca amplitute no que diz respeito à superficie de referência em termos de latitude? Porquê o interior ser tão dramaticamente diferente do litoral em Portugal. E isso é bom ou é mau?!
A definição de interioridade pode ser analisada de múltipas formas, mediante aquilo que realmente queremos ter em consideração. No entanto poderemos pegar num indicador meramente biográfico, e correlacioná-lo com aspetos da nossa vida como Portugueses, sendo que não quero ser transversal em demasia para não “desfocar” a mensagem. Uma coisa é certa: Interioridade é uma qualidade do Interior.
Desde o tempo de infância dos meus avós, existiu sempre uma fuga do interior para as grandes cidades em busca de mais “qualidade” de vida, segundo o conceito de qualidade de vida dos anos 30, 40 e 50 do século passado. Este facto nos últimos anos, diria, últimas duas décadas, têm-se acentuado verdadeiramente. Sendo que a alternativa à emigração em busca de vida melhor, principalmente a jovens formados, tem sido a fuga para os grandes centros, principalmente cidades desenvolvidas como Lisboa e Porto. Assim acontece no meu concelho (São Pedro do Sul), mas também no meu distrito (Viseu), e um pouco por todo o interior de Portugal. (Salvo algumas exceções que terei em conta à frente, no texto.)
O Interior do nosso Portugal, genericamente, é um perfeito àrido deserto de quase tudo: de pessoas, de serviços, de acessibilidades, de Saúde, de Educação, de oferta de emprego. Mas há quem resista. Mérito a esses que, na sua resiliência vão reinventando conceitos, aproveitando o outro lado, que é o que de bom o interior tem – Qualidade de vida, cultura etnográfica, biodiversidade, gastronomia, genuinidade, tradições! Enfim, um povo com identidade, verdadeiramente Português. Diria que para se conhecer o “verdadeiro” Portugal” tem de se conhecer o interior. E isso, pode e deve de ser um aspeto importante para relançar a coesão nacional, como estratégia para impulsionar a economia. E mudar o paradigma dos habitantes do interior de Portugal, a quem tudo e todos, principalmente a classe pollítica, tem virado as costas ao longo das últimas décadas.
Coesão Nacional! Tal como disse anteriormente, há pequeníssimos mas excelentes exemplos de sucesso no interior. Essa deverá pois, ser a nossa grande referência para o futuro. Mas atenção, não queremos “transformar” o interior de tal modo que, a própria identidade do interior português se perca. Não…não é disso que se trata! O maior potencial do interior está nas suas características únicas. Daí que defenda que quanto maior desvirtualização e transformação daquilo que é “genuinamente genuino”, pior ficaremos. Mas é o que vai acontecendo por aí…será (ou está a ser) uma péssima ferramenta, um péssimo método, e um inegável conceito errado de olhar a forma como um todo, sem considerar as partes.
O “nosso” interior, apesar de abandonado, tem sido também alvo de verdadeiras calamidades fatídicas. A começar pela estratégia política (ou a falta dela) em promover capitais de fácil e rápido rendimento, mas de péssima opção para a valorização daquilo que as pessoas do interior (e não só) acham importante, e que na minha ótica é de valorizar: A qualidade de vida! E essa, nunca poderá ser atingida se se fomentam (ou fomentarem) práticas descaracterizadoras e destruidoras da nossa identidade. Basta olharmos ao nosso redor. Façam esse exercício: Venham à rua, olhem ao vosso redor, e reflitam sobre a quantidade gigante e massificada, diria desorganizada, com que o eucalipto ocupa uma mancha florestal que não deveria ocupar. Não sou “taxativamente” contra o eucalipto nem contra a indústria que lhe é associada. Sou contra o “sem rei nem roque”, sem o controlo, sem a orgânica, sem o planeamento. E esse é um aspeto verdadeiramente perigoso para a nossa identidade. No Norte e centro, onde estão os nossos imensos carvalhedos? Olha-se ao redor e o que se vê?! Eucaliptos e mais eucaliptos… e minas de lítio, e aldeias serranas com “palácios” de argamassa, desorganizadamente, muros em blocos e estradas de tapete alcatroado… Reflitamos também na reorganização do PDM dos Municipios. (Mas isso deixarei para outra vez…)
São rios de dinheiro que, sem dúvida, contribuem para o PIB nacional, mas não auguram nada de vantajoso para a maior riqueza do nosso país: A nossa identidade e todo o potencial económico e social que possa daí advir, desde que feito com enquadramento e sensibilidade.
Como correlacionar conceitos como a atratividade turística, vendendo “mundos e fundos“ a quem nos queira visitar no interior se, o que temos para oferecer são uma floresta descaracterizada, um ambiente destruido, incêncios recorrentes e cada vez mais perigosos, monumentos abandonados, zonas históricas em ruinas, comercio local em “definhamento”? Não seria profundamente interessante pensar no eucalipto (e outras séries de arrogâncias) como algo de nefasto à nossa identidade, potencialidade e valor como Interior? Ou pensar nas aldeias onde estará a ser explorado o lítio como potencial turístico, algumas inclusivamente inseridas em Parques Naturais?! Ou no modo insensível em como a troco do vote se alcatroam estradas em aldeias históricas e se destroi voluntariamente património Natural? Enfim… como disse: “Sem rei nem roque”!
Gostaria muito, de dar o exemplo (porque o merecem), aliás, um excelente exemplo, de como as coisas podem começar a funcionar no interior do país: O Municipio do Fundão tem sido um dos grandes resilientes e pioneiros no combate ao abandono do interior com estratégias simples, mas eficazes. Basicamente têm “vendido/oferecido” oportunidades. Mesmo a imigrantes que queiram investir num Municipio cheio de oportunidades. Para além de terem captado uma série de investimentos e investidores do ramo tecnológico, têm também uma verdadeira comunidade de famílias estrangeiras a trabalharem em “rede“ num conceito de futuro: Permacultura e comércio de proximidade. Estas famílias, ficaram rendidas ao apoio que a própria autarquia lhes providencia, e porque sentem que o paradigma conservacionista e de sustentabilidade ali existe. Tem sido um dos enfoques da autarquia. Estas famílias têm um verdadeiro conceito de respeito e preservação por aquilo que é endógeno e típico. Assumiram a mudança de paradigma ambiental e social e, apoiam-se muito, também, na valorização dos princípios da Permacultura. Basicamente, durante o dia trabalham em empresas de tecnologia, e nas horas vagas fazem um estilo de vida quase típico e tradicional, de proximidade, com um modo de estar que tenta replicar a identidade genuína do Fundão. Isto é qualidade de vida…
Paralelamente a isso, o Fundão tem sido um bom polo turístico, atraíndo cada vez mais ao interior do país, turistas, sendo que uma parte grande são estrangeiros. Não, não vieram a Portugal procurar coalas no meio dos eucaliptos. Procuram o campo, as gentes, as tradições, a gastronomia, o Portugal genuíno e uma série de atividades e potencialidades e ofertas turísticas criadas localmente, seja no desporto de montanha, na oferta Turistica verdadeiramente dita, interpretação da Natureza, etc, etc… e esse é o nosso grande trunfo para o futuro da coesão territorial nacional. Não descaracterizemos pois…
Sim, é ótimo que o interior de Portugal seja completamente diferente dos grandes centros urbanos. Mas o que se espera do futuro no interior, além da qualidade de vida dos cidadãos, é que os novos e jovens, possam por cá continuar e compreender que o Interior do país é de facto, a melhor opção para se viver, constituir família e dar continuidade.
O conceito “ipsis verbis” de interioridade é “isolamento das terras do interior” Mas… e a conotação deste conceito terá de continuar a ser mau, ou na realidade será uma mais valia para quem vive “por cá?!” Não consigo dar uma resposta… Isso dependerá muito das decisões políticas e dos políticos sobre as medidas de apoio às “Gentes do interior”.
Sou orgulhosamente “Serrano”; Nuno Campos. (Maio de 2020)
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