Notas de Verão

Mário Pereira (Crónicas do Olheirão)

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Estava na Holanda, numa localidade situada 6 metros abaixo do nível do mar,  quando aconteceu o grande incêndio de S. Pedro do Sul.

Como dizia uma pessoa holandesa, os incêndios em Portugal são o equivalente das inundações na Holanda.

Durante milhares de anos muitas aldeias e até cidades holandesas era sujeitas a enormes inundações umas com origem nos rios Reno e Mosa outras em tempestades marítimas. A última grande inundação, ocorrida em 1952, causou milhares de mortes e enormes prejuízos.

Nós costumamos usar a expressão “quando o lume chega aos pés” para a qual os holandeses têm como equivalente “quando a água chega ao nariz”.

Os holandeses conseguiram construir cidades e os campos agrícolas mais produtivos que existem em sítios que eram grandes lagos perigosos ou enormes pântanos insalubres.

A estratégia principal assentou na construção de diques, canais e valas, uns enormes outros minúsculos e dissimulados na paisagem.

A verdade é que esta estrutura passiva complementada pelas estações de bombagem e comportas  assegura uma proteção a tal ponto eficiente que pelo menos nos últimos trinta anos não ocorreu nenhum incidente grave apesar de grandes cheias que já aconteceram nos rios e das tempestades no mar.

Penso que este será o melhor exemplo a seguir no combate aos fogos.

Não sou especialista nesta questão, mas seguindo o exemplo dos holandeses parece-me possível criarmos diques recorrendo ao controlo da vegetação em grandes extensões, por exemplo recorrendo a fogos controlados e criando barreiras constituídas por manchas de árvores como os carvalhos e sobreiros que não ardem facilmente e poderiam compartimentar as zonas de floresta e dificultar a progressão dos incêndios.

Não sei como se podem fazer estas e outras coisas, mas sei que é preciso fazer alguma coisa pois não basta prender alguns desgraçados que são apanhador a por fogo. Incendiários somos todos: os que tiveram e têm responsabilidades na gestão das florestas, os donos dos terrenos que não cuidam deles e todas os peritos que são incapazes de trazer para o conhecimento público ideias interessantes que nos permitam fundamentar projetos eficientes e ajudem os políticos a tomarem boas decisões.

Mais uma vez tenho ouvido muitas pessoas dizerem que o governo deve resolver esta questão, mas o problema supera as capacidades dum governo e exige o empenho e compromisso de toda a sociedade.

Vi escrito nos jornais que a medalha de bronze ganha nos Jogos Olímpicos custou 17 milhões de euros, que foi quanto Portugal investiu na preparação e no apoio aos atletas olímpicos, e que isso foi um resultado miserável face a um investimento tão grande.

A primeira pergunta é saber se esse investimento foi mesmo assim tão grande.

Sabendo, pelo que vamos lendo nos jornais, que o Benfica, o Porto e o Sporting, cada um por si, terão gasto, no mesmo período de quatro anos, mais dinheiro nas suas academias de formação de jogadores de futebol, os 17 milhões gastos com a preparação dos Jogos Olímpicos parece ser ridiculamente baixo.

Andando pelo estrangeiro alguns dias do mês de Agosto dei com uma notícia que dizia que o novo governo de Londres está a estudar a possibilidade de não avançar com o plano de construção de duas centrais nucleares, que seriam construídas e exploradas pela EDF (Eletricidade de França) com apoio de bancos chineses.

As razões apontadas são o facto do contrato entre a EDF e os bancos chineses prever que estes tenham acesso aos programas informáticos das centrais e, grande espanto, também porque o  contrato do governo inglês com a EDF prevê também que a eletricidade a produzir pelas duas centrais nucleares seja paga ao dobro do preço do mercado.

Depois de todas as grandes discussões havidas entre nós, gostaria muito de ouvir os grandes especialistas, que tanto lutaram contra o apoio às energias renováveis, explicarem este negócio.

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